Tuesday, November 10, 2015

Salto


Rochas cinzentas rodeavam o local, ela subira até o ponto mais alto. Estava parada sobre uma pedra grande, lisa e coberta de limo. Dali avistava o templo de Athena, sabedoria e guerra, como os confusos sentimentos que a assolavam. O vento cantava canções duras em seus ouvidos. Era inverno.

Aqui e ali, pingos desesperados caiam do céu, tocando com violência a superfície do lago e o rosto dela. As roupas negras estavam encharcadas, o cabelo escorrido cobria parte de seus olhos. O cabelo era um manto que a afastava da realidade, a qual se recusava a aceitar.

Ela queria pular, era o que a parte livre dela desejava, saltar no ar como a águia que observara durante a subida. Voar até o fôlego quase acabar, pousar em alguma outra montanha desconhecida e depois recomeçar. Ela questionava a razão da sabedoria não permitir a ação que acabaria com a ansiedade. Ela não compreendia muito dela mesma.

Os olhos se alongaram para o templo. A chuva passara e, como o domínio dos deuses são incompreensíveis, Selene – a lua – aparecia enorme no céu.Ela coroava o templo de Athena e o banhava em uma luz que variava do branco-prateado até o vermelho-dourado. Selene estava feliz, sua radiância  deixava claro que estava ali a espera de seu amante; do único amor que desejara.

Selene e ela eram tão semelhantes. Ambas amaram homens impossíveis, ambas pagaram o preço desse sentimento que diziam ser humano, mas que ela sabia provir do universo.

Ela sentou na pedra para apreciar o espetáculo. Sabia que ele – o homem que amava -  se encantaria com a espontaneidade da deusa, ficaria lisonjeado com o prazer que a contemplação lhe proporcionava. Enquanto ele mergulhava na lenda, elas observariam a ele. Selena e ela.

Abraçou as pernas como querendo acalmar o coração  que agora pulsava tão forte e rápido que os tambores o invejariam. Ela invejava a águia e Selene, ela era invejada pelos deuses. Ela, mortal ou imortal, dependendo do olhar, despertava o ciúme e o desejo de Hera. A ambigüidade que existia em cada fibra do corpo dela exercia poderosa atração nos deuses e deusas, humanos – feminino e masculino. Ela apreciava essa capacidade de tocar o profundo instinto do desejo neles, mesmo que o seu tivesse sido despertado por um único homem, mortal, monótono, previsível, covarde.

Ela não sabia o que fazer com toda a tensão que seu corpo acumulara nos anos que passara distante daquele lugar. Talvez gritar ou pular para o solo escuro e imprevisível fosse a opção que a tornaria normal. Normal. Ela não gostava de ser normal. Ela queria ser apenas ela e nada mais.

O céu abrira, da escuridão do lago de Selene ela podia ver as estrelas piscando no ritmo de um tempo que já passou. Distantes, elas eram tão distantes...

Ela se levantou, quem sabe conseguisse chamar a atenção de Pegasus e, montada em seu lombo, cruzar os céus noturnos até o salão de ouro dos deuses. Ironia, toda essa poesia fluía dela, ela sabia que era apenas isso, poesia. Não existiam deuses, Selene era apenas um punhado de minerais flutuando no espaço, mantida ali por forças, pelo equilíbrio desequilibrado do universo.

Uma estrela cadente riscou o céu. Ousaria ela fazer o pedido?  Teria o atrevimento de se deixar levar pela crença? Pelos caminho fácil da esperança? Não, essa não era ela. Se ele estivesse olhando o mesmo céu ao lado dela, neste momento ela o beijaria. Um beijo profundo, misturando cada célula, cada bactéria e sentimento, acompanhado de seus braços ao redor do pescoço dele que permitiriam que suas mãos acariciassem seu cabelo.

Ele não estava presente, era passado. A ausência dele era resultado das escolhas que ele fizera. Ele preferira a farsa, a facilidade da rotina. A falta de perspectiva o levara a outro lugar, onde ele navegava para terras conhecidas, de deuses inclementes, regras inquebráveis e faz de conta de felicidade. Ela sabia que ele acreditava ser feliz. Ela preferia assim, a ignorância pode ser alguma coisa boa para alguns.

A lua se punha, o sol logo tomaria seu lugar. Helius em sua carruagem de fogo cruzaria o céu em todo seu esplendor, ofuscando a irmã e a luz dos quasares distantes.  A hora chegara. A decisão precisava ser tomada. Saltar ou ficar? Aceitar ou lutar?

Ela sorria, enquanto o horizonte se pintava de vermelhos. Não, ela não iria escolher. Iria continuar nessa misteriosa encruzilhada entre a realidade e o sonho, entre o que tinha e o que desejava. Talvez a permanência nessa linha tênue lhe proporcionasse inspiração para viver.


Levantou e fez uma reverencia ao sol. Olhou ao redor mais uma vez. Pulou.

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