Monday, November 2, 2015

Paris


Eu sempre acreditei que não éramos uma singularidade. Na verdade, olho para nós como o resultado de uma reação química. Elementos certos, sob circunstâncias adequadas e tempo. Meu olhar diferia muito dos crentes que nos viam como únicos, escolhidos.

Eu não era um crente. Tivera na vida momentos suficientes que, se não provavam definitivamente a inexistência do divino, deixaram claro que as probabilidades eram pequenas, tendiam a zero. Essa era a razão de  me ater somente ao que era provado ou estatisticamente possível.  O resto era perda de tempo e ilusão.

Quando os outros, os crentes me olhavam era com desprezo, desconfiança. A desconfiança é um tipo de refrator, desviando a verdade e colocando no lugar fantasias, preconceitos e medos. Nunca me importei com eles, por que iria? Nenhuma pessoa valia a exaustão que me assolaria ao tentar explicar. Melhor deixá-los com suas fugazes esperanças.

Você talvez me classificasse como ateísta, eu preferiria não  ser classificada. Minha escolha era a solidão do indefinido.

Lembro do dia em que conheci você naquele café em Paris. Eu degustava com calma um chocolate quente acompanhado de uma baguette com queijo. Nunca havia experimentado nada igual. Simples, mas em perfeita harmonia. Como aquele dia.

A neve deixava tudo mais belo. Eu sentara bem perto da grande janela que dava para a pequena rua escondida em Île de La Cité. Eu gostava de lugares assim, publicamente escondidos. Desafiadores. A rua abrigava dezenas de lojas de arte, antiguidades e livros, paixões que nunca pude saciar. Dinheiro sempre foi um problema em minha vida, sem ele tudo ganha uma perspectiva diferente.

Eu era do tipo de sofria quando lia a notícia de um leilão onde algum Picasso, Miró, Monet ou outro pintor que eu apreciava era comprado por milhões – que eu nunca teria -  por alguém que o fazia apenas pelo prazer de ter o poder de fazê-lo. O sofrimento era minimizado quando o quadro acabava na parede de algum museu.

A frustração era maior quando se tratava de livros. Eu sonhava com primeiras edições, com manuscritos de grandes mentes como Newton, Einstein, Da Vinci... Eu daria tudo para estar perto, tocar com as mãos essas preciosidades. Talvez a química que eles deixaram impregnadas no papel pudesse ser absorvida, e tudo que existia de ideias e projetos dentro da minha mente, explodiria.

Estava nesse emaranhado de pensamentos quando você entrou. O casaco preto lhe assentava bem. Olhei com curiosidade, você e eu vestíamos roupas muito semelhantes. Botas pretas de combate (mesma marca!), um pulôver de gola alta (turtleneck) em caxemira também preto, calças jeans pretas e um cachecol de lã cinza. Éramos os lados opostos de uma mesma moeda de estilo, você o masculino e eu o feminino.

Você pareceu perceber o  meu olhar, pois virou a cabeça em minha direção e sorriu. Abaixei o olhar, apesar de gostar de observar as pessoas, não gostava de ser observada, nem que percebessem que eu observava a eles.

Escutei quando fez seu pedido. Você teria visto surpresa em meu olhar se tivesse olhando em meus olhos.  Chocolate e baguette com queijo, coincidência que ficava maravilhosa e mais intrigante quando dita em Frances. Seu impecável domínio da língua deixou claro que era um nativo. Era uma hipótese que suas roupas ajudaram a construir, o som de sua voz foi a confirmação final.

Você pegou a bandeja e seguiu em minha direção. Havia uma poltrona confortável de couro preta vazia em frente ao lugar onde eu sentava. Eu estava totalmente consciente que você se dirigia a ela. Eu levara muito tempo para me habituar ao estilo europeu de compartilhar. Essa noção de que um estranho pode sentar no mesma mesa, no mesmo espaço que você, só pode ser compreendida sob a ótica da necessidade de aproveitamento de espaço. Nenhum lugar livre pode ser desperdiçado.

Você perguntou se podia se acomodar. Nossos olhares se cruzaram, como as ondas causadas por diferentes distúrbios se cruzam na superfície de um lago. Ondas que se somavam. Respondi em inglês que sim, você imediatamente agradeceu no mesmo idioma. O límpido sotaque britânico me pegou de surpresa.

Continuei meu dialogo mudo com o ser imaginário que criara para diminuir a solidão que sentia. Não, minha solidão não era essa comum gerada pela falta de contato com outras pessoas, solidão que aflige metade da população de Londres. Também não era essa simbiose da qual sofre oitenta por cento dos brasileiros, que simplesmente não conseguem viver sem suas famílias e amigos. Seguindo na contramão desses grupos, eu fugia dos lugares comuns, gostava de estar com poucas pessoas, amava ficar sozinha.

Minha solidão era de ideias. Noventa por cento do mundo era um abismo repleto de rotinas e conformismo, os poucos rebeldes o eram apenas no atos e não nas ideias (e atos sem ideias são como carros sem freios e direção). A humanidade atravessara milênios de inovações tecnológicas, construção e destruição, mas no que se referia ao individuo humano, poucas foram as mudanças.

A mesma motivação para a ‘primeira guerra’ entre ‘civilizações’ repetia-se, tal qual um looping, na história, o que mudava era o armamento. Agora, sequer era necessário olharmos nos olhos do inimigo para matá-lo. Apenas um drone, um míssil e o fim de milhares de vidas, consideradas dispensáveis por alguém que nos era completamente desconhecido e inacessível.

Levantei o olhar. Era sempre assim quando alguém me observava, a mente me avisava aquecendo meu rosto. Naquele momento era você que entre curioso e divertido me olhava com insistência.

Me atrevi a quebra minha própria regra – como se quebrar regras não fosse uma constante e não exceção para mim -  e sustentei seu olhar. Minha mente queria saber mais de você, no entanto me recusava a iniciar a conversa.

Você olhou na direção dos livros que eu colocara sobre a mesa: Crime and Punishment, Jane Eyre, Ms. Dalloway, Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica e A Universe from Nothing.

A voz veio quebrar o som monótono e superficial das outras conversas. Você perguntou se eu lera ou ia ler todos eles. Retirei meus fones de ouvido e respondi que "sim, lera",  ao mesmo tempo querendo perguntar a razão do tom de surpresa em sua voz, mas me calando, pois esperva ver como você daria continuidade a conversa.  Sempre achei o ato de perguntar de uma pessoa a melhor forma de a conhecer.

Para minha supresa, você disse que apreciava pessoas que não se intimidavam em misturar frutas e destilados. Sem conter o sorriso, você se apresentou como Louis. Eu não disse me nome, essa era uma informação que você precisava merecer.

Novamente a surpresa, você não perguntou meu nome, apenas abriu a mochila de couro preta – outra coincidência – e tirou dela os mesmos cinco livros. Algo  dizia que isso tudo não era coincidência. Apesar de acreditar no acaso, desde que nos percebemos neste café, a soma de coincidência ultrajava as probabilidades. Números não gostam de serem ofendidos.

Você colocou os livros sobre a mesa, comentou que nunca conhecera uma mulher que fazia as mesmas misturas, apreciasse as mesmas combinações excêntricas. Apontou para os livros e abandeja. Sim, livros e alimento.

Você então pergunta o que acho do mundo, de nossa civilização.

Congelei, a mente processava a pergunta lentamente, sem querer crer que ela era real. Como? O mundo? Nossa civilização?

Eu tinha apenas uma palavra para nos descrever: escravos. Éramos escravos de nós mesmos. Você me olhava sem emitir nenhum comentário, apenas  acompanhando com o olhar. Eu esperava isso, você desejava que eu elaborasse mais. Sim, somos escravos. Nossa escravidão começou no exato momento em que criamos nossos deuses (ou deus) e passamos a crer que alguns de nós têm privilégio no relacionamento com esses seres (ou ser).

Pouco a pouco, nossa ignorância foi não só intensificando essa criação, mas também atando a divindade ao pode. Rapidamente deuses e reis se uniram, sacerdotes em suas relações pessoais com os deuses endossavam a divindade do rei/governante, quando não eram os mesmos.

Nos dias atuais, os deuses são apenas ferramentas, espécie de máscara para o verdadeiro deus da atual civilização. Um deus sem rosto, sem orações, sem liçoes. Um deus que toma, engana, mata e continua.

Nunca acreditei em igualdade absoluta, mas tamb;em não consigo aceitar que um por cento da população do mundo, tenha poder suficiente para aniquilar os outros noventa e nove por cento.

Aceitamos que as coisas sigam assim. Criamos mentiras em todos os estágios de nossa vida. Cremos em milagres, honestidade e que políticos são políticos – como se eles serem como são fosse inevitável. Mentir faz parte dos negócios – sejam eles de que área forem – culpar outros pelos fracasso é outro elo em nosso grilhões de escravos. Toleramos as injustiças desde que elas não atinjam a nós. Convivemos com guerras e as justificamos, enquanto não é nossa casa que é destruída, nem nossas família que morre. Acreditamos que viver é consumir, não o alimento que sustenta a vida, mas algo que acreditamos nos fazer superior a outros. Não lutamos pela educação tão bravamente como pelo direito de consumir. Deixamos que nos governem em nome de deuses, mentiras claras e perigosas.

Parei. Sempre que falava desse assunto eu vomitava, tal qual um ébrio saindo de uma ressaca.  Agora percebia que despejara demais nos ouvidos de um desconhecido. Poucos tinham paciência para minha oratória.

Baixei os olhos. Eu queria me encolher na poltrona e voltar ao meu silêncio. Queria continuar com meu dialogo pessoal, sem que dois olhos cinzas tentassem descobrir o que eu pensava.

Quando você falou, as palavras bateram em ouvido surdos. Eu não queria sua opinião sobre o que eu havia dito. Nem seu ponto de vista fora requisitado. Minhas palavras haviam sido um monologo em voz alta, como muitos que fazia quando estava sozinha em casa.

Lentamente permiti que o som de sua voz entrasse em meu mundo. Você não estava rebatendo, justificando ou mesmo concordando com o que eu dissera. Você  perguntava se eu tentara expor minhas ideias para outros.

Sim, eu havia tentado, muitas e muitas vezes. Nos empregos nos quais me envolvera, como professora que de repente me tornei, em todas as relações que tivera. Minha vida havia e era, perseguir e encontrar alguém que  ouvisse. Até então, nada acontecera.

Você me olhou tristemente, havia algo em seus olhos que ainda não compreendia. Por mais que deixasse minha mente livre, não alcançava o significado de você.

Terminamos nosso chocolate em silencio. Cheguei a conclusão que havia assustado você como a todos antes. Levantei. Coloquei meu casaco, ajeitei o cachecol e sai do café com um ‘au revoir’. Eu nunca encontraria alguém disposto a ouvir. Existiam no mundo dois tipos de pessoas: as que comandavam e as que obedeciam. Eu não me encaixava em nenhum dos dois tipos. Eu não me encaixava no mundo. Pensei que nunca encontraria você novamente.

Eu olhava a catedral, Notre Dame, foi quando sentiu uma mão apertando meu ombro. Não me assustei, poucas vezes senti real medo. Era você. Virei, ficamos frente a frente. Você sorria e dizia que queria mais das palavras que eu havia despejado tão ansiosamente em seus ouvidos. Olhei com descrença. Queria mais? Queria sexo? Uma noite de diversão?

Você parecia ler minha mente. "Não," - disse - "não queria sexo, embora torcesse para que um dia acontecesse. Queria as palavras."

Começaram então outras surpresas. Você era um editor, queria que eu contasse minha visão, a história que eu parecia compreender  melhor e diferentemente de outros. Eu não conspirava, não culpava, eu via apenas os padrões que eram muitas e muitas vezes desqualificados pelos especialistas.

Você queria minha mente no papel. Eu não queira. Medo. Onde começar? Como escrever? Eu era melhor com meus pensamentos solitários, a retórica explosiva e urgente, do que com palavras escritas.  Você disse que  ajudaria. Pensei que esta poderia ser a solução. Pegaria minha solidão e compartilharia com outros. Talvez ela, a solidão, diminuísse.

Você não me prometeu nada. Nem dinheiro, nem fama, apenas a oportunidade de escrever minha visão do mundo.


Olhei em seus olhos e me apresentei: “Obrigada pela oportunidade. Meu nome é Helena.” Você apertou minha mão e disse: “Eu sei.”

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