Friday, November 27, 2015

Delírio


A lareira está acesa. A sala aquecida traz a sonolência do dia nublado e cinzento do outro lado da janela. A xícara de chá verde esfria sobre a mesa azul ao lado do sofá. Eu estou perdida em pensamentos, muitos dos quais não consigo compreender a origem.

Fecho os olhos. A lembrança de um seriado que estou acompanhado, “The Following”, faz com que a ideia floresça sem muito esforço. Cresce em mim a ânsia de saber, quero receber em meus circuitos cerebrais a sensação. Sentada no sofá de couro preto com as chamas azuis e alaranjadas tremulando diante de meus olhos, eu aspiro saber como é ter uma faca enterrada em meu ventre. Mórbida? Depressiva? Não, é pura e simples curiosidade. Não existe a intenção da morte, não é solidão ou loucura, apenas sou assim, de repente do nada vem o desejo de experimentar o extremo.

Foi esse desejo que me fez abandonar tudo e seguir para o outro lado do mundo. Eu dava a morte como certa, afinal me lançava aos braços de um homem desconhecido, um ser que haviam me alertado para evitar. Os conselhos de alguém sobre o modus operandi dele, de como enredava suas presas e obtinha delas o que necessitava, nem mesmo isso foi o suficiente para me afastar desse mergulho. Me deixei levar. Forma 115 dias provocando a morte, tentando restabelecer uma conexão com a vida.

Foi assim toda vez. Ao saltar do avião no nada, tendo apenas o ar ao redor, a esperança era que o pára-quedas não abrisse.Voando em um balão em direção ao pôr do sol, imaginava ele caindo, em virtuosa comprovação da lei da gravidade. Em uma saudação a Newton talvez eu ficasse face a face com a morte. Tudo se repetiu nos vôos secretos de helicóptero, nas buscas por amantes sem nome, sem rosto, apenas com desejos.

A cada escalada, mergulho, pulo, eu buscava sentir que era capaz de sobreviver, superar, ser eu. Tenho cicatrizes de cada tentativa.


Hoje o delírio foi conduzido pela curiosidade. Não, não se preocupe, não vou tentar. Isso não significa que a curiosidade não persista.  Fico então, sentada, ouvindo Mozart, apreciando o fogo na lareira, deixando o calor do Earl Gray escorregar pela garganta, imaginando em como seria ter uma faca enterrada em meu abdômen.

No comments:

Post a Comment