Friday, November 6, 2015

Conversa



Ela sentou de frente para ele no pequeno café. Era uma rotina eles irem até lá nos fins de semana, algumas vezes conversavam animadamente sobre assuntos mundanos, outras... Essas outras eram o grande problema, eram explosão de raiva (dele) e tédio (dela). Ele sempre acusando de forma velada, ela fingindo que não entendia, queria ouvir a acusação dita em voz alta, não através de metáforas. Eles gritavam um com o outro, mas continuavam a caminhar juntos.

Naquele dia seria diferente, ela descobrira o que ele andava fazendo com seu Facebook. Ela descobrira por acaso, nunca fora de bisbilhotar as coisas dele a procura de provas de nada. Ela não acreditava em traição mais, um dia, como todas as outras ela apontara o dedo dizendo que não aceitaria uma, hoje a maturidade lhe deu  ferramentas para ver tudo de outra forma. Ela sabia que esse jeito simples de encarar esse tão terrível pecado – o adultério – deixava muitos com o rosto contorcido em desagrado. Ela não se importava com os outros.

Ele sentavam na área ao ar livre, mesmo com o vento frio, era agradável pegar um pouco do sol que aquele dia proporcionava. O cappuccino, forte como sempre, fumegava diante de ambos., ela queria falar, só não sabia como começar. Como falar com alguém que era incapaz de qualquer empatia pelo outro. Ele sempre fora alguém egoísta, era Possível perceber isso no relacionamento com o filho. Mesmo o menino precisando do apoio dele incondicionalmente, as necessidades dele vinham primeiro. Ele não era um mau pai, apenas um pai que não conseguia encontrar os momentos centros entre presença e ausência. Ele compensava dando coisas. Ela observava e tentava não se intrometer, ele não ouviria de qualquer forma.

Ela queria muito por um ponto final naqueles mais de cinco anos de uma revolta velada que ele sentia por ela, pelas atitudes que ela tivera naquele passado não tão distante. Ele não compreendia, mais ele não percebia o quanto, no tempo em que estiveram juntos em outro mundo, ele construirá, pedra por pedra o caminho que a levara até os atos que ele tanto deplorava.

Ele se conheceram por acaso. Ela não pode dizer que foi amor a primeira vista, não, hoje ela percebe claramente que não foi. Tanto ele quanto ela apenas desejavam vingança contra os ex. Eram jovens, e jovens raramente pensam com o olhar no futuro. No entanto, eles tinham muito em comum, inclusive a família disfuncional. A dele, ensinara ou melhor, moldara a ele como um robô, sem sentimentos, sem relações afetivas. Ele era capaz de dialogar com os pais da mesma forma que o fazia com seus professores, formalmente, impessoalmente. Ela era toda emoção, gritos, tapas, beijos arrebatadores, fantasias avassaladoras. Ela queria um parceiro, ele uma saída. Foi assim que ficaram juntos.

No entanto, ele não amadureceu com a evolução do relacionamento, ao contrario, tornou-se mais e mais contundente em suas postura de critico mordaz das atitudes pueris e proletárias dela. Sim, ela não estava no mesmo nível que ele. Ela deixava suas emoções guiarem sua conduta na vida, fosse em momentos privados, fosse em público. Ela falava o que pensava, ele não apreciava essa postura. Ele silenciava, ela gritava. Ela pressionava, ele fugia.
Assim viveram mais de uma dezena de anos, com ela sendo empurrada ao limite ano após ano. Saída de uma família que a chamava de esquisita, fracassada, ela acabara nas mãos de outra que a qualificavam como inadequada dos pés a cabeça, da alma (que eles acreditavam existir) a mente (que ele pensavam não ter muita utilidade em uma mulher). Ela não usava roupas femininas – botas e caças jeans, camisetas e carteira no bolso – ela não tinha uma bolsa, muito menos um lencinho para colocar dentro dela. Não gostava de jóias, nem de maquiagem, nem das futilidades que se conversavam à mesa. Ela era um ser humano deslocado em uma casa de bonecas.

Ele tentou encaixá-la, ela fez de tudo para agradar aquele que passara a amar. Sim, o amor apareceu. Foi despertado pelos momentos de felicidade nos poucos passeios que fizeram juntos – ele era do tipo sexo e restaurante, ela queria montanhas, mar e quem sabe o céu -  eles conversavam sobre ciência, história, assistiam a filmes, documentários que depois passavam horas discutindo. Ela lia, ele nem tanto. Ambos trabalhavam, a convivência não era tão constante.

Até que, ela resolveu criar uma empresa e acreditou que poderia chamá-lo para trabalhar com ela. O erro não poderia ter sido maior. Nos quase 3 anos que trabalharam juntos dia apos dia, ele fez de tudo para minar a confiança que ela tinha em sua inteligência, beleza, na capacidade de gerenciar pessoas, clientes. No final, ele destruiu tudo, com seus sonhos exagerados, suas covardias, e acima de tudo com sua inabilidade de se colocar no lugar do outro. Ele fracassou, e foi compensado pelo prazer de fazer ela fracassar. Ela não aceitava.

Ela tentou construir um relacionamento mais permanente, ele aceitou a ideia. Mas, a perda dos filhos trigêmeos fora um tipo de veneno, mortal em um relacionamento normal, imagine em um como o deles. Ela foi crucificada, todos a culpavam, não mais do que ela. Ela sempre fora tão cuidadosa com tudo e agora perdera o que desejava – assim ela pensava. Ele colocou a dor dela em uma caixa, fechou a chave e jogou fora. Proibiu a mãe de chorar os filhos mortos, de sofrer, falar e sentir. Ela aceitou. Ela sempre aceitava, ainda existia esperança que ele a ouvisse, mesmo que fosse aos tapas, socos, aos gritos. Ela pedia socorro em cada atitude, ele a ignorava.

Ela sempre fora uma mulher bonita, agora parecia um ser envelhecido, cansado e infeliz. Ele nem notava. Ela sabia que ele tinha seus casos, flertes fora de casa. Passava horas por ai, sem explicar muito onde estava. Escondia-se no escritório – de ambos, mas que ele nunca aceitou ser dela também -  e ficava brincando de empresário, enquanto ela se consumia em culpa, dor.

Ela tomou um gole do cappuccino, e olhou para ele. Ele ouviria tudo isso? Provavelmente, mas nunca aceitaria. Ele nunca contaria o lado dele da estória, nunca se colocaria no lugar dela. Ela tocou a mão dele, ele sorriu. Ele não imaginava que ela sabia da outra – essa agora virtual – dos 1527 beijos por todo corpo que el dissera que essa outra devia a ele, nem dos sonhos que ele tinha de acordar ao lado dessa estranha mulher. Ela não queria acusá-lo, não queria julgá-lo, mas pensava o quanto daquilo não era um troco. Ele falava para a outra de coração partido e nunca foi capaz de perceber o quanto, durante duas décadas, foi quebrando e jogando fora o ‘coração’ dela. Ele nunca percebeu que ele a empurrou para o abismo, ele e apenas ele poderia ter evitado que ela pulasse Até isso ela teve que fazer sozinha. Quando se viu tão desesperada, quando percebeu que seria capaz de matar o próprio filho que havia nascido depois de tanto trauma, para impedir que el vivesse na mesma miséria que ela. Só então ela percebeu que precisava escapar.

Como? Ela procurou na fantasia – como talvez ele fizesse agora – no virtual o que não tinha no real. Ela sabia que era apenas criação sua, do outro lado não havia um ser real – embora o outro fosse bem real – mas uma idealização que ela fazia de um homem, de um parceiro. O outro lhe trazia flores (virtuais), dava palavras que a fazia se sentir mais mulher, mais completa. O outro, que na verdade estava apenas jogando, lhe dava a esperança de sair do buraco onde se encontrava.. E ela mergulhou nesse pseudo relacionamento sem limites.

O mergulho foi tão fundo que ela percebeu que precisaria falar com ele (o marido) e contar o que estava acontecendo. Que eles não eram mais viáveis, que ela não agüentava mais a vida que levava de culpas, criticas, falta de tudo – material e emocional – e ela exigiu. Exigiu um tempo sozinha, longe, tão longe quanto fosse possível. E ela foi, e voltou.


Sim, ela voltou. Em primeira instancia, ela pensou que houvesse sido por causa do filho – o menino era autista e precisava de alguém com o mínimo de capacidade de organização para ajudá-lo a se adequar a vida social – depois ela pensou que fora por causa dela – dinheiro continuava a ser um problema em sua vida – e no final, quando ela viu as mensagens deles (do pai do filho e da ‘namorada’ virtual) ela se deu conta de que era por tudo isso e por ele também. Por aquele homem incapaz de ter empatia. Um homem que nunca estava errado, egoísta até o ultimo segundo do dia – ele era capaz de comer o doce do filho ou de deixar o filho passar necessidades apenas por ser incapaz de ceder um pouco do que tinha para ele – fora esse homem que lhe destruirá e, ainda assim, existia uma grande preocupação dela por ele. Amor? Ela não sabia, ele continuava a ofendê-la, criticá-la, a jogar tudo que ELA havia feito. Ela? Sim, do ponto de vista dele era somente dela a culpa. Ela a julgara e a punia – todos os dias – e ela se calava – pelo filho, por ela, por ele – ela tentava. Mas agora, agora ela queria falar. Mesmo sabendo que de nada adiantaria, ela queria gritar seu ponto de vista e dizer que ele era livre para viver suas fantasias, e mesmo assim, ela continuaria ali. Até quando o sol se pôr, o filho crescer e quem sabe, ela fechar finalmente os olhos e pular do abismo.

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