Monday, October 5, 2015

Um pequeno cão


Ela sentou na cama pela manhã com a nítida sensação que fora atropelada por um caminhão no dia anterior. Bem, pelo menos ela sobrevivera. Agora, com a mente dolorida, o corpo cansado e a tristeza escorrendo pelo olhar, ela pensava em como seria esse novo dia.

A pessoa que a espezinhara, vociferando palavras que apenas serviam como afiadas ferramentas de tortura, não acrescentando nada a uma relação que tentava renascer. Por que ele se comportava dessa maneira? Esses impulsivos momentos de agressão haviam sido raros no passado, nos últimos 5 anos tornaram-se o comum. Comum como as acusações que ele fazia a ele, veladamente, nunca face a face. Ela estava cansada de tanta ironia, indiretas e julgamentos.

Ele não tinha a ampla compreensão de que fora ele, apenas ele, que a deixara sozinha nos momentos mais difíceis.  Foram suas constantes criticas, as inúmeras vezes que a chamou de louca,. As constantes comparações com a mãe, algo que a magoava profundamente, mais a inércia em suportar as inúmeras humilhações impostas pela família dele, haviam sido a razão que ela se jogara na primeira oportunidade de ter um relacionamento onde os interesses mútuos eram claros.

Relacionamento desse tipo, sexuais, normalmente terminam rápido. Poucos meses e ela queria mais. Ela desejava intelecto, companheirismo, conversas e sexo não era mais suficiente como amalgama àquela relação. Ela tentou de novo, e desta vez errou o alvo, acertou um homem completamente fora de sua razão, alguém que mentiu com tanta freqüência que, ao se encontrarem frente a frente, ela quase teve um ataque de riso.

No entanto, esse louco mentiroso e absolutamente desleal homem, continuou (e continua) a perseguir aquela que el julga ser sua por direito. Ela ignora e continua.

Novo passo em direção de alguém que poderia lhe dar algo, novo erro. Ninguém quer compartilhar parte de si, todos desejam partes dela. Ela cansou.

Voltou para casa, queria ficar sozinha, mas nem isso seria possível. A vida é engraçada e coloca pontos finais onde deveriam haver virgulas e virgulas no lugar de pontos finais. Assim, ela pegou a virgula que ficara suspensa com o homem com que havia vivido por tanto tempo, e continuou. Ele se modificara? Não, Agora, pelo menos, deixava claro seu egoísmo, sua necessidade de se firmar no mundo (para a família dele, para ela) e acima de tudo, a eterna tentativa de torná-la a única vilã da estória. Em alguns momentos ela comprava essa ideia,  na maioria ela sabia que não era bem assim.

Ontem, for um desses dias de flagelação, punição pelo passado imaginado e não o vivido. Ela tentava compreender e tolerar, no entanto, porrada era algo que ela não admitiria mais em sua vida. Tudo começou quando ela comentou da solidão que sentia. Queria muito alguma companhia, mesmo que fosse um pequeno cão. Como se ela tivesse solicitado um amante ou algo assim, a tempestade de insultos, insinuações e agressões escalou de dentro dele para cima dela. Uma explosão vulcânica seria menos danosa.

Ela decidiu falar rapidamente o que pensava, e depois se calou. Para quê? Essas discussões não levavam a lugar algum. Ele nunca conseguia se colocar no lugar dela, ele jamais admitiria sua responsabilidade em tudo que ocorrera. Ele sempre seria perfeito, ela sempre seria incompleta.

Algumas lágrimas teimavam em querer rolar, ela se recusava a chorar por ele ou por causa dele. Ela resolveu sorris, tudo porque ela queria um pequeno cachorrinho para lhe fazer companhia durante as longas horas em que ficava sozinha.


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