Thursday, October 22, 2015

Neve


Ela acordou cedo. Era incompreensível à seus sentidos a razão pela qual a cama parecia tão desconfortável. A cama é sempre atraente no inverno, especialmente quando a neve se faz presente não existe melhor lugar para apreciar os flocos de neve que se amontoavam em pequenos montes em seu jardim. Ela era tocada pela beleza das árvores vestidas em gala para as festas, não religiosas, mas das pessoas e suas esperanças.

O pequeno Spaniel entrou no quarto. Não importava o clima do outro lado da janela, ele queria seu passeio matinal. Para o pequeno cão, esses momentos eram um pulsar de energia. O momento no qual ele se libertava da sonolência do inverno, perseguindo esquilos, pombos e algumas aves aquáticas que insistiam em permanecer no lago.

Permanecer. Ela não era um ser de permanências. Era volátil como o éter quando exposto a atmosfera. A mulher que era não atracava em nenhum porto, muito menos criava raízes, por mais fértil e belo que fosse o terreno, por mais amor que sentisse por aquelas caminhadas matinais, pelo lugar no qual vivia. Havia um senso de não pertencer que era, do ponto de vista dela, a sua melhor parte.

O cão pulou na cama, insistente como uma criança no dia de seu aniversario. Ela deixou a cama quente pelo frio do quarto. Os aquecedores permaneciam desligados durante a noite. O duvet e os lençóis eram suficientes para aquecê-la. A verdade é que nunca precisara de calor para se sentir aquecida, havia nela um tipo de calor interno que se fazia suficiente.

Vestiu a calça e a blusa de lã, ambas pretas, uma cor que absorvia a luz e permitia ressaltar outras cores sobrepostas a ela. O casaco cinza forrado de pele (falsa como o anel que recebera um dia e estava guardado em sua caixa de Jóias) e as botas impermeáveis, completavam o vestuário. O pequeno cão se agitava a seus pés, ela olhava para ele carinhosamente, enquanto calçava as luvas e colocava o chapéu na cabeça. Chapéus foram uma das aquisições locais, ela sempre gostara deles, mas em outras terras, outros momentos de sua vida, a oportunidade de usá-los não parecia concreta.

A caminhada até o local onde o pequeno Spaniel poderia corre livre aquecia seus membros. O cão corria, espirrando a felicidade da liberdade por todos os lados. Ela serenamente caminhava, colhendo com seus sentidos toda beleza disponível. Ela sempre se encantara com a disponibilidade da natureza. Como se a existência humana tivesse tornado ela, a natureza,  ainda mais vaidosa e exuberante.

Um esquilo foge apressado para a segurança dos galhos mais altos. Ela pensa em quanto despreza a segurança. Talvez seja esta a razão, esse desprezo, que a Lea a queimar todas as pontes de seus caminhos passados. Ela quer a inevitabilidade de seguir em frente, sem opções.

Uma pomba pousa perto da cerca que separa o caminho onde a mulher se encontra e o lago. Elas se observam com curiosidade. A mulher deseja tanto a liberdade de partir da pequena ave cinzenta. A ave ambiciona apenas as migalhas e a mulher oferece. Desejos compulsivos, sendo apenas um deles imediatamente saciado.

O cão se aproxima cansado de suas explorações pela vegetação, ele quer um tempo para recuperar a energia e um pouco de água. Ela segue em expectativa para o café que existe no local. Um cappuccino e um pain au chocolat estão em seus planos. O café irá estimular ainda mais sua mente, o chocolate, transformar o amargo que traz consigo em algo mais adocicado.

Ela não gostava de café antes. Mas antes e depois são dois estados seus que não precisam ser um continuum. Agora, neste exato momento, ela saboreia a mistura de café e leite, acompanhado de musica e ideias. O pequeno cão descansa a seus pés. Ele espera pacientemente pelas guloseimas que virão. Ela pensa em como não é paciente.

A cada dia cresce a necessidade pelo novo, por mudanças e outras imagens. No entanto, ela reconhece que o esforço para obtê-las tem sido pequeno. Teria se acomodado? Estaria envelhecendo?

Idade não representava um numero para ela. Estava mais ligada a sensação de ainda existirem possibilidades a frente. Ela ainda escalava montanhas, andava de bicicleta, nadava, e era capaz de dançar toda a noite com o mesmo vigor de sempre. Não havia cansaço em seu corpo, e o rosto, embora não tão jovem quanto aos 20 anos, não registrara todos os momentos que enfrentara, mesmo sem ter um retrato como Dorian.

O cappuccino foi consumido com o devido prazer. Era o momento de voltar para casa e retornar ao trabalho. Sendo sincera, o trabalho que ela escolhera era mais um tipo de terapia, de lição de autoconhecimento do que trabalho.  Ela observou um cisne pousar no lago. Beleza e força. Ela mantinha as duas qualidades acesas, assim como a juventude da mente.

A neve caia agora com furor. A intensidade daqueles pequenos flocos brancos a levaram a olhar para o céu.  Tão belo...

Ao chegarem em casa, ao abrirem a porta do abrigo que escolhera, o calor envolveu o corpo de ambos: ela e o cão. Eles agora compartilhavam o aquecimento, assim como a beleza da nevasca pela janela. A musica fluía com a mesma suavidade que os flocos pousavam nas folhas das poucas árvores que teimavam em mantê-las.

O pequeno Spaniel deita confortavelmente em sua almofada. Ele vai sonhar com charcos, aves aquáticas e grandes caçadas. Ela senta em sua poltrona preferida, perto da janela, em uma posição que permite enxergar bem a tela do computador (que prefere no colo e não em uma mesa de trabalho). Começa a digitar, colocando em palavras todas as imagens que sonha,  imagina e deseja.


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