Friday, October 9, 2015

Eterno Verão


Ela me compreendia como ninguém. Ela era minha segunda-feira desesperada, eu sua sexta-feira ansiada. Não tínhamos muito em comum, da mesma forma que existia muito em comum. Era eu e ela, eu de jeans e camiseta, ela de saia e salto alto. Como se fossemos o dualidade do feminino.

Ela gostava de vinho branco, eu preferia vodka, entre os planos dela estava um MBA em Harvard, nos meus uma viagem ao Nepal. Tínhamos essas distâncias de objetivos, visões laterais de nós mesmas. Não vivíamos uma sem a outra.

Ela dizia que eu era para ela a poça de água para o pássaro sedento. Eu a via como um espelho do que deveria ter sido e não fui. Nós éramos companheiras inseparáveis, separadas pelo preconceito de alguns, impedidas de sermos completas pelo medo de outros.

Enquanto ela piscava para o espelho, passando o batom nos lábios, deixando-os vermelhos, desejáveis. Eu cortava o cabelo, limpando meu rosto do resto de todo tipo de dever. Então, saímos, ela para a direita, eu para esquerda e conversávamos com pessoas, com sons de outros mundos, ouvindo um bater sem compasso de uma mente ansiosa por algo que parecia proibido.

Voltávamos para casa fingindo felicidade, ela contava do novo amor, eu da nova droga disponível no mercado. Então, pegávamos uma cerveja, tocávamos um rock qualquer e dançávamos seminuas pela sala, sem questionar o certo de tudo, nem o errado do nada. Cansadas, caíamos nos braços uma da outra, ampliando um desejo de mergulhar mais, contendo no olhar a boca molhada.

No quarto dela, a cortina branca, os móveis brancos com pequenos toques de rosa. No meu, móveis de madeira simples, sem enfeites, recosto para o corpo cansado do dia. Local de trabalho e lazer solitário. Nós ouvíamos através da fina parede. Ela expressando o desejo contido, eu a satisfação do meu.

E sonhávamos...

Com campos de flores e rios bravios. Com as férias de verão e as noites de inverno. Este ano o verão havia sido na Itália. Ela então, no pequeno traje de banho, desfilara em maravilhoso gingado, deixando gotas de saliva pelo caminho. Eu observara e depois, pegara sua mão e juntas corremos pela praia, em busca do pôr de sol. Nesses dias  o quarto era nosso, e nos abraçávamos convulsivamente, despejando o desejo dos outros dias naquelas tardes e noites de absoluto prazer.

No inverno, na frente da lareira, falávamos do verão. Brilhando nos olhos o desejo de repetir na neve o que nos queimara no sol. Em casa havia sempre o limite, um limite imaginário vindo da perspectiva do outro. Eu esperava pela coragem dela, ela talvez esperasse pela minha.  Enquanto isso, tomávamos vinho tinto, comendo chocolate e assistindo a antigos filmes de amor. Amor que conhecíamos e escodíamos debaixo do cobertor, nas férias de verão, no gozo solitário.

Ela e eu. Sempre seria assim? Esse era o suspense, essa era a grande questão.


Até que, em um dia dos mais calmos e rotineiros, ela voltou mais cedo para casa. Trazia um ajuntamento de flores, uma garrafa de champagne e um brilho diferente no olhar. Ela entrou no quarto que era meu, pegou minha mão com aquele toque de verão. Nossos lábios se cruzaram no silêncio, nossos corpos se tocaram nos murmúrios do desejo. Ela colocou as flores no chão, a garrafa de lado e um anel em meu dedo. Enfim, seriamos dois seres livres, sem segredos e em eterno verão.

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