Tuesday, September 15, 2015

Verbo


“Ela não é doce, pare de dizer que ela é! Além disso, o nome que deram a ela não condiz, ela não parece uma suave gota de orvalho, deram o nome da fruta ao caroço, da rosa ao espinho!”
“Oras, foi você que me empurrou para ela! Você me abandonou de todas as formas, fiquei miserável e fui procurar abrigo em alguém oposto a você. Alguém que me obedecia, cujo amor a tornava dependente, obediente, submissa. O seu amor era livre, independente, você me amava e pronto, pouco lhe importava meu sentimento por você.”

“Nunca achei justo impor sentimentos, é sufocante. E você demorou um pouco para encontrar meu oposto.”
“Eu disse, lembra, que eu amava você mais do que você pensava. Falei, olhando em seus olhos, que Allah nunca me daria outra oportunidade como essa, que eu daria tudo para que fosse diferente.”

“Quando você vai entender que você ama quem sou, exatamente como sou? Não é certo. Não é.”
Essa discussão ocorria dentro da cabeça dela enquanto caminhava. Ela colhera cada argumento das inúmeras conversas entre eles. Sentia tanta saudade das discussões, das risadas por motivos banais e dos passeios a lugares repletos do que eles mais gostavam. Por que ele escolhera esse caminho? Que razão levava um homem a jogar tudo no lixo apenas a pedido dos pais, pela convenção social? Ela se ressentia demais das decisões que ele tomara sem ela estar presente. Ele sempre queria ter a última palavra e desta vez fora adeus.

A névoa de outono encobria o caminho, a umidade penetrava na leve blusa de algodão que ela vestia, se ele estivesse ali, o casaco dele já a estaria protegendo. Estaria também discorrendo sobre como ela era irracional ao escolher uma roupa tão leve para um dia de outono. Ele a envolveria com o braço, esfregaria suas mãos que de tão frias perderam a sensibilidade e a carregaria para o Café mais próximo para um çay. Isso sempre reclamando da pouco habilidade dela em cuidar de si.

O caminho continuava tortuoso por entre os inúmeros arbustos e as frondosas árvores do parque na qual ela caminhava todas as manhãs. O Café estava vazio, a chuva fina e a névoas densa afastava as pessoas. A maioria preferia tomar seu café da manhã em um local mais quente, onde a musica tocasse alto e eles pudessem sentar em poltronas confortáveis. Ela não, amava sentar no salão envidraçado que trazia parte do jardim para dentro e tomar seu chocolate quente. Ele tomava um gole e pensava nele.

Lembrava de cada gesto, cada palavra que ele desperdiçara com ela. Sabia que, depois da despedida – que ela não sabia seria definitiva – ele tentara preencher o espaço da vida em comum deles, com outras vidas. Ele escolhera, como ele mesmo dissera, seu oposto. E com esse oposto, percorrera a maioria dos lugares onde eles estiveram, onde ele e ela trocaram olhares cúmplices, onde riram e falaram de sentimentos.

“Não, não acredito que você me esqueceu. Quatro anos passaram e eu continuo a sentir suas mãos no meu ombro e seus beijos em meus lábios.”

Era tolice, ela sabia que alguém como ele esquecia com facilidade, a mesma facilidade com a qual encontrava um substituto.
“Você orou por mim! Pediu que seu deus me protegesse. Apenas esqueceu de pedir a ele que me protegesse de você.”

As lágrimas caiam dentro da xícara. Ela passava por esse momentos de tempos em tempos, desde que eles seguiram seus próprios caminhos. Uma simples flor, uma palavra ou um lugar, não havia nada específico, mas parecia que sempre dava de encontro com algo que fazia com que ela sentisse ele por perto.

“Como vou deixar você?” Ele perguntava quando a despedida se aproximava. “Como vou viver sem você. Imaginar outro homem tocando seu corpo me deixa furioso.”

Ela ria, dizia que era escolha dele deixá-la partir. Se ele pedisse ela ficaria, desistiria de tudo e construiria uma nova vida ao lado dele.
“Não podemos ficar juntos, eu mataria você e acabaria na prisão.”
Talvez, ela pensava, talvez eles não fossem destinados para o “para sempre”, mas ela queria tentar.

Não havia espaço para tentativas entre eles, ele fechara a porta a essa possibilidade. Mesmo nos dois curtos encontros que tiveram, o primeiro em um dia chuvoso de março e outro em um dia quente de maio, mesmo neles ele não deixou que o portão das possibilidades se abrisse.

“Você sabe que eu amo você, não sabe?” Tinha sido a pergunta feita, rapidamente enquanto ele segurava as mãos dela. O irmão que o acompanhara – ela questionara se ele era um tipo de controle – havia saído da mesa por alguns instantes e ele aproveitara para afirmar, a voz ansiosa, as mãos quentes e o sorriso (raro) deixava entrever o dente quebrado e a vontade de ir alem do falar.
No segundo, eles fizeram amor, sexo, seria melhor dizer sexo. Foi rápido, urgente.

“Senti tanta saudade.” Ele comentou antes de penetrá-la com força e iniciar os movimentos ritmados que o levariam ao orgasmo.
“Só com você eu gozo tão intensamente, com tanta quantidade.”
Ela sorria. Sabia que havia sido uma ‘rapidinha’, ele deixara a outra há algum tempo, mas nunca ficara sem um corpo em sua cama. Ele não conseguia. Sexo era uma necessidade, um vicio, tal qual o cigarro de maconha que consumia de tempos em tempos, um tipo de alivio para suas frustrações.
Ela pensava que ele usava a bebida, o sexo e a droga como um tipo de recompensa na vida. O trabalho duro, que exigia física e emocionalmente, a família que não o compreendia, os amigos que o julgavam (e a quem ele julgava também), sua vida parecia um tipo de livro antigo, que fora reescrito para novos personagens. Ela fora, em certo momento, um capítulo inesperado, agora tudo voltara ao normal.

“Você é o homem mais tolo e teimoso que eu conheço.”

A chuva aumentara, ela precisava voltar para casa, decidiu deixar a água gelada molhar suas roupas e seu corpo. Esperava, sinceramente havia essa esperança nela, que a chuva levasse com ela o sentimento inútil que trazia na mente. Quem sabe, as gotas carregassem esse amor sem sentido.

“Você me esqueceu.” Ela olhava para o céu, os braços abertos em um rodopiar no meio da chuva. As palavras eram um grito, um grito que ninguém ouvia. “Você me abandonou, esqueceu, matou.” Sim, ele matara muito dele, com suas ausências, silêncios e indiferença, ele terminara por colocar um ponto final naquele romantismo juvenil que ela ainda carregava.

Não ligava mais para flores, se as queria em casa, comprava, mas não se emocionava quando alguém lhe oferecia rosas vermelhas de presente. Apenas ele fizera isso espontaneamente, rosas vermelhas eram lembranças dele.

O anel que ele dera a ela estava na gaveta, de tempos em tempos ela colocava no dedo e sonhava. Os sonhos estavam ficando mais sombrios, agora ela usava o anel no dia de sua morte.

“Será que quando eu morrer você estará a meu lado?” Ela queria passar o resto da vida dela perto dele, mesmo que esse resto fosse depois da morte. Não, ela não acreditava na vida após a morte, mas adorava pensar que ele saberia que pedaços dela estariam impressos no DNA de cada flor dos jardins da cidade. Tola.

Ela sabia que era tola, estúpida como ele costumava chamá-la. Não havia mais chama, nem ritmo dele para com ela, mão havia musica, nem planos, nem cerveja e rakı. Havia apenas a distancia de sempre, o desamor que tomara o lugar do amor e a sensação de que, alguém perdera o ponto. Agora, era viver assim, esperando cada dia repetir-se, sonhando em cada caminhada, discutindo sozinha e tentando sobreviver o melhor possível, pois viver era um verbo que conjugara apenas uma vez, fora com ele juntamente com o verbo amar.

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