Thursday, July 30, 2015

Vida e Morte



Ela questionava tudo e todos, naquele momento o alvo de suas perguntas era ela mesma. Qual a razão subconsciente que a impedia de encarar a verdade? Em que mundo vivia? Por que o sentimento havia sido esse em toda sua vida?

Ela era inadequada. Finalmente precisava admitir, não cabia nos estereótipos sociais, quanto mais se esforçava para parecer parte do quebra-cabeças, mais sofrimento, dor e raiva vinham a superfície.

O mundo a aborrecia, as repetições de erros,  a recusa que era feita de admitir erros, corrigindo rotas e recomeçando sob novos conceitos. Ela não via um bom fim naquilo tudo, como não vira um bom fim nela mesma. O fim sempre seria uma benção, ela tinha absoluta certeza disso, um tipo de balsamo para a alma, para a mente. A continuidade naquele mundo era de absoluta insensatez. Ela queria retornar, ao começo, a essência, a inconsciência.

Suas escolhas sempre foram ditadas pelo meio no qual vivia. Sempre procurando esconder sua diferença, sua incapacidade de abrir todos os sentimentos, de ser gentil como era dito que se deveria ser. Não havia gentileza nela, nem religiosidade, nem aceitação do que ela não conseguia acreditar: destino. Em toda a vida que ocorrera até agora, forma poucos os momentos nos quais foi ela mesma. Raros instantes, onde sua real natureza veio a superfície e brilhou.

O brilho atraiu, como toda luz faz, insetos, dos rasteiros aos voadores, dos que tinham a crença de que poderiam apropriar-se dela, de seus pensamentos, de quem ela era. Tola ideia, tolos seres. Cada qual com sua própria sombria mente, seres esquecidos de seus fracasso, apoiados na aparência de quem pensavam ser. Ela não tolerava essa gente, essa simplicidade quase nojenta, essa inutilidade rotineira de fazer o que é socialmente aceitável.

Não parava de lembrar dos momentos de intimidade sexual que tivera com a prima na juventude. Também não conseguia esquecer do assedio dos tios com suas mãos pesadas, lábios gordurosos e palavras agressivas. O odor de álcool ainda acompanhava essas lembranças. As tias com suas intrigas, invejas e desdém por quem ela era, ou elas pensavam que era, e os jovens que se contentavam em tocar as mesmas musicas, repetindo o mesmo refrão. Era tedioso.

Depois vieram outros, alguns com a intenção de colocá-la em seu lugar. Na cozinha, na senzala de alguma casa grande, onde, repetidamente ela deveria agradecer a oportunidade da escravidão. Ela tentara, mas a rebeldia insistia no conceito de fuga. As brigas com o parceiro eram titânicas, ele não retrucava, ela crescia em ódio e rancor, dor e desalento.

Não estaria nesse abandono, nessa incompreensão dela mesma, o fim de tudo? Perdas irreparáveis de vidas, de esperança e finalmente de qualquer sentimento construtivo dirigiram suas energia na edificação de um fim, de um termino para toda aquela vida cinza. Levaria consigo o indefeso ser que gerara. O levaria para o fogo da exterminação, de forma que ele não tivesse que conviver com a dor a habitava. Escrutinante dor, sem solução aparente..
Outros caminhos se apresentaram, como flechas de fogo e luz. Ela os seguiu em desespero, apenas para chegar no mesmo lugar de onde havia saído.

Agora sentada, parada no tempo, o desespero tomava conta do corpo que se recusava a envelhecer, da mente que não queria acreditar na inutilidade de tudo que enfrentara até agora.  Estava novamente abraçada com a rotina que tanto odiava, dormia com a fraqueza que lhe era repugnante e olhava para o futuro sem nenhuma expectativa, apenas com ânsias de encontrar a dama de negro.

Em algum lugar distante, outras pessoas enfrentavam suas bruxas, seus pecados. Distante da verdade que ela aceitara, questionavam a razão de tanto sofrimento, tanta dor. A capacidade de criticar seu passado tirava deles a perspectiva de seu presente. Como acreditavam em crime e castigo, boas ações e recompensas, deveriam aceitar que tudo que ocorria era fruto de suas próprias atitudes e, sim dele também, do medo da punição. Ela, ao contrario, não tinha medo. Fizera o que tiver que fazer, vivera como fora possível, mesmo não tendo sido o desejável. Ela estava pronta.


A porta sempre fecha no final do dia, nas costas de seu maior carrasco. Todos os dias ela enfrenta as mesmas acusações, os mesmos delirantes questionamentos e ácidas ironias. Ela tem se importado com isso cada vez menos. Faz o que lhe pedem, age como esperam e aguarda, a cada noite e cada dia, espreita e deseja.

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