Saturday, July 4, 2015

Fantasia



Ela acabara de ler a notícia, uma jovem de 24 anos garantira o direito de morrer. Para muitos, ela sabia, esta headline seria uma surpresa, o que levaria uma jovem mulher desistir da vida? Qual seria a dor imensa que a levaria a tomar uma decisão tão drástica e optar pela eutanásia? Poucos compreenderiam, raras pessoas iriam aceitar, muitos a condenariam, chamando de egoísmo, fraqueza, covardia. Ela, que lia a natícia, ah, ela compreendia.


Essa capacidade de entender esse desejo de deixar de existir, tinha origem no fato de ela sentir o mesmo, dia após dia, durante boa parte de sua vida. No entanto, nunca fora tão profundamente na direção de realizar seu desejo. Chame isso de egoísmo ou covardia, suas tentativas simplórias de extinguir sua vida nunca deram em nada. O sorriso cínico apareceu, ela sabia, sob muitos aspectos, que não era seu caminho, existia no interior de sua mente, uma força maior, algo pessoal e intenso que a empurrava para continuar. Caindo, levantando, arrastando o corpo cansado sobre espinheiros, cortando a veia ou se perdendo em drogas que tinham a capacidade de atenuar o sofrimento, nessa metáfora de existência, nesse pretensão de vida, ela delineava sua sobrevida em relação a outros, em virtude de outros.

Curiosamente, foi um outro ser que apresentou a ela novas possibilidades, o mesmo que anos depois seria o responsável pelo retorno da melancolia, do desejo de fim que ela embalava agora, tal qual um filho perdido que retornara em um caixão, morto, mas presente.

A manhã não podia ser mais reluzente, nem mais clichê. Sol, águas azuis, reflexos cintilantes, a vida correndo à margem de tudo isso e ela, parada em um posto de gasolina esperando. Decidira pelo barco, pelo passeio turístico no estreito, apenas por ser uma forma de avaliar suas possibilidades. Sempre amara o mar, da mesma forma que via nele um amigo que a auxiliaria no caminho final. Hoje, ela sentara a sombra de uma árvore, esperando desconhecidos, com eles compartilharia o deslizar do barco, mas não a avaliação do ato final. Aquela aparente aventura, era a porta para a noite, para o mergulhar solitário.

Não há pacto mais profundo, do que aquele que fazemos conosco. Ela sorria em solidão pelas possibilidades, observando outros,  em um tipo de frenesi de rotina, indo e vindo em completa e incorrigível aceitação de um lado para o outro. Do lado pobre e árido onde viviam, ao lado reluzente e falso onde trabalhavam. Ela conhecia bem o sentimento, fora atriz num outro tempo, mas em um cenário semelhante.

Ele chegou cantando, um sorriso forçado, profissional, ela ficou surpresa com o olhar intenso, ao mesmo tempo que viu o cinismo no canto dos lábios. Tão jovem e tão ferido, pensou ela, sofrendo por ele, sabendo que provavelmente, debaixo daquela beleza oriental, se escondia uma alma em tormento. Juntos, apenas eles, carregaram suas vidas divididas, enfadonhas, depressivas para o meio do estreito. Embora ele tivesse um roteiro a seguir, ela não queria ouvi-lo. Suas expectativas, como mulher que era, iam além das recitações simplórias do turismo local. Ela queria a vida real, não as fachadas reluzentes dos museus, nem os quartos luxuosos dos hotéis, com seus funcionários bem treinados, seu brilho arranjado e o vazio da realidade espelhado em cada ornamento, cama e comida que alimentava o corpo, mas não a alma, não o saber.

Eles se deixaram levar pelo inesperado da curiosidade dela, o que o intrigou era a diferença entre o mundo e aquela mulher. O que a fez parar e analisar, foi a possibilidade de, alguém como ele, se interessar por alguém como ela. As respostas eram claras, no entanto, de alguma forma ela sabia que havia mais que metal naquele interesse.

Foram palavras simples, sem certezas e promessas, que a levaram a reconhecer em seu interior o desejo de provar algo que nunca seria capaz de admitir. Jogou seu corpo com todo o poder que tinha naquela experiência. Quem sabe, pensou silenciosamente, a morte não viria por aquele caminho, nas mãos do desconhecido angustiado que a olhara com misto de interesse (ouro sempre desperta esse lado na humanidade) e desejo (talvez pela necessidade de extravasar sem se comprometer).

Eles fizeram sexo. Simples, intenso, não havia amor, não havia sequer respeito. O sexo foi brutalmente simples, completamente revelador.  Ela não se lembrava de tirar a roupa tão prontamente para um desconhecido, nem de  se deixar examinar, em cada orifício, cada contorno, sem sentir a vergonha de ser quem era, de ser o conceito errado de mulher. A certeza dela, nos momentos nos quais conseguia readquirir o controle da mente, era do prazer unilateral que ele desejava dela. No fim, quando a cama passou a ser um local de repouso, ela descobriu que ele se preocupava com o dela – não sem que ela pensasse que era por vaidade (dele), essa preocupação.

E foram três dias, de caminhadas, sexo, bebidas, comidas exóticas e troca e pagamentos. Foi, só então, quando o dinheiro trocou de mãos que ela descobriu um sentimento inesperado. Desconforto? Vergonha? Ela sorriu, os anos de criação religiosa, de admoestação social haviam cumprido seu papel. Ela tinha vergonha de pagar pelo que queria, pelo prazer que ansiara toda sua vida. Prazer que procurara em camas respeitáveis, com pessoas que eram consideradas satisfatória para o clã onde vivia. Nem na escolha final, no marido que a esperava em casa – como se ela tivesse a intenção de retornar – nem nele essa ansiedade foi suprida. Nele, no marido, havia uma infinita fonte de criticas, indiferença e melancolia.

Agora, na vibração do exótico oriente, no meio da turbulência de dois continentes, ela encontrara seu corpo, sua sexualidade e a capacidade de olhar para vida mais positivamente. Não, não fora ele que dera isso a ela, ela apenas alcançara a porta para tirar a vida de dentro dela, a vida que ela tanto ansiara.

Eles tiveram sua oportunidade, ela sentia que, por aquela sensação, seria capaz de tudo. Manter viva quem realmente era, valia o preço e o uso. Ela não se importava, ele teria o que queria, e ela sua parte. Assim foi, pelo tempo possível, corpos molhados de suor, pernas para o alto, mesas, espelhos, dedos rudes invadindo sua vagina, como se eles fossem tirar dela energia. Os cheiros, o supremo odor do sexo e a gloria imensa da crueldade de quem era ele, de quem era ela. Não existiam pudores entre eles, nem mistérios, nem amor real. Era fantasia, remédio para ela, solução para ele.

A despedida veio, entre a droga e o sexo, entre palavras vazias e o sentimento escondido. As portas foram fechadas, ela abandonou a si nos sete morros da cidade que amava. Virou as costas e partiu, para voltar ao ciclo, ao início, a ser ninguém a espera do fim.

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