Wednesday, July 15, 2015

A outra


Sentada no sofá, ela observava o dia pela janela, era um dia morno de verão, com suave brisa e muitos pássaros cantando. Ela pensava se eles cantavam em comemoração ou desespero. Havia desespero em todo lugar, estava em cada manchete do jornal, nas entrelinhas das últimos romance nas livrarias, no olhar de cada transeunte que ela cruzava.

O mundo ficara um lugar depressivo, com tanta beleza, vida ao redor, as únicas emoções que vinham à tona eram a incerteza, o desconforto, o preconceito e o medo. Todos estavam cercados por isso. Não havia exceção. A mulher no trabalho evitando o assedio, trabalhando dobrado para receber – em alguns casos – apenas 80% do que seus colegas do sexo masculino na mesma posição. Os menos educados, menos afortunados no nascimento, implodiam com a mesquinhez dos poucos que podiam sustentar-se nesse mundo de dólares, ações, bancos e grandes corporações.

Ela não queria ver tudo isso, passava muitos dias alienada, escondida entre os clássicos – da literatura e da musica – e seus pensamentos. Não queria admitir que temia o futuro, não por ela, mas pelo filho. Teria ele oportunidades? Seria ele capaz de sobreviver? Ela não fora tão eficiente quanto gostaria, nem eficaz, não deixaria para ele fortunas, apenas o amor que lhe dera e a educação que ajudar ele adquirir. Esse era seu maior medo agora.

Havia outro, tolo, quase infantil, mas ela temia olhar no espelho. Toda vez que escovava os dentes, era obrigada a ver, frente a frente – a imagem daquela com que ela nunca desejara ter nenhuma semelhança. Ela via os mesmos olhos fundos, a falta de brilho, os lábios caídos  - sorrir era um enorme sacrifício – e, acima de tudo, o corpo em decadência. Ela se culpava por ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Culpava a falta de coragem de tomar as decisões necessárias para evitar esse fim. Fora engolfada pelo sentimento de culpa e a responsabilidade que senti por um ser que não pedira para nascer.

Dia apos dia, em cada esquina do tempo, ela ficava sonhando com quem fora por um curto espaço de tempo. Chegara a conclusão que aquele hiato em sua vida, fora um presente que tivera coragem de oferecer a si, mas insustentável como vida. Ela queria tanto aqueles sentimentos de volta, a liberdade de ser ela mesma, a irresponsabilidade que essa liberdade lhe dava. Ela queria de volta a sensação de esperança, oportunidade e força que tivera naqueles poucos meses. Ela já nem amava mais. Ficara imune a esse sentimento. Tudo, que fazia era obrigação, ou culpa.  A espontaneidade se fora, o desejo também, Ficara estendida na beira daquela rua vazia, casca de noz estripada de seu conteúdo, indesejada, inútil.

Ela não era completamente inútil. Ainda consegui produzir algumas linhas sensíveis. Ajudava o filho na escola, deixava o lar agradável para que ele tivesse um ambiente tranqüilo e feliz. A felicidade dele importava, ela percebera agora como essa felicidade – a dele – tivera o poder de decidir por ela. Talvez fosse isso amor, talvez fosse algo mais.

Ela jurar, centenas de vezes, que nunca seria igual a outra. Nunca se prenderia a rotinas, não seria guiada pelas obrigações e desejo de outros. Ela queria ser ela, não terminar seus dias na beira da cama de um moribundo, vendo seu mundo desabar, porque ela não tinha nenhum sentindo sem ele.

E agora, quando ela olhava no espelho o que via era a sombra da outra. As lágrimas que escondia de todos, pingavam em seu peito, seguindo caminhos que antes foram acariciados e desejados. Como era simples deixar de ser feliz, para ser o que se tinha que ser. Não havia justiça na vida – fosse no acaso, fosse nas leias dos homens – tudo era uma questão de quem obtivera o melhor começo. Ela não tivera essa sorte.

Agora, sentada no sofá, com a xícara de chá nas mãos, ela pensava se seria possível tentar mais um vez. Reconstruir a si, em outro tempo, numa outra forma, distanciando-se da outra, daquela com quem ela nunca desejou ter semelhança, embora tenha saído de suas entranhas.


As lágrimas corriam livremente. Melhor limpar os olhos, polir o sorriso, estava na hora do filho chegar da escola.

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