Saturday, June 20, 2015

Felicidade



Dia cansativo de trabalho pouco estimulante, a volta para casa sempre implicava em ser arremessada por estranhos de um lado para outro. O odor de trabalho e falta de higiene contaminavam seu humor. Seria perfeito se alguém lembrasse de usar desodorante, ela sequer pedia um bom perfume. A mulher entra no trem apressada, parece ter saído do banho recentemente, banho de perfume, um bem barato e enjoativo. Ela está cansada.

Sai do trem para a estação, o vento frio é reconfortante. O barulho do silencio que a cerca também, trens sem chacoalhadas e barulhos não foram inventado ainda. Recoloca as luvas, arruma o cachecol e ajeita o chapéu meio sem jeito. Os óculos protegem o resto da face, e o casaco escuro esconde o corpo. Ela caminha apressada, passa pelo pub na esquina, pela loja de conveniência, observa dois gatos cruzarem a rua, levanta a cabeça e vê a lua, imensa, branca – por que seria a lua tão amarela no verão?  - pergunta a si mesma. Sorri despretensiosamente, lembra de quando a chamavam de senhorita Por quê. Ainda que o tempo tenha passado, ainda que agora seja apenas ela na casa, ela continua a fazer perguntas.

Abre a porta do pequeno flat. Lembra de quando saia pouco, trabalhava em casa e esperava ansiosa pela volta do filho. Ele cresceu, seu menino é um homem, com vida própria, problemas e felicidades só dele. Não pense que ele a abandonou, ela apenas prefere que ele viva, visto que ela viveu e vive muito bem por si mesma. Alguém a definiu como altruísta, ele apenas se acha justa. O menino que ela tanto quis, não teve chances de fazer suas escolhas antes de nascer, ela as fez por ele, ela o apoiou e o abandonou tantas vezes, mas sempre ficaram juntos nesse dois extremos. Agora era a vez dele, de acertar e errar, aprender e continuar, como ela, a perguntar. Ela sabia que ele iria, era tão curioso quanto ela, tão persistente quanto o pai. Uma mistura equilibrada das qualidades, defeito e idiossincrasias de ambos, completado pelas próprias. Seu menino, seu jovem rapaz, seu cientista.

Acendeu a luz, colocou lenha na lareira e tirou um pote de sopa congelada do freezer, enquanto a sopa descongelava no microondas, ela correu para um banho. Nunca entendera essa preferência dos habitantes locais por banhos de imersão, ela preferia uma ducha forte, quente, massagem no corpo. Depois um creme hidratante, um pote de sopa, um copo de suco de laranja, morangos ou uvas, queijo e cama. Um livro, sempre ia para a cama com um livro.

Naquela noite ela sentou na poltrona da sala e ligou o som. Precisava de música, de companhia, mesmo que apenas no som. Pegou o celular e começou a passar as fotos dos antigos álbuns. Como era perfeita essa ideia de tudo estar online. Sua vida estava online. As fotos do filho em suas diversas fases trouxeram calor e vigor ao corpo cansado. Ela lembrava tanto daquele momento, e daquele outro. Eram vívidas experiências que guardaria eternamente. Esperava, sinceramente, que sua mente não pregasse truques trazendo lembranças irreais. Ansiava pela realidade do ontem, mesmo sabendo da fluidez desta, ansiava pela certeza de que os momentos de felicidade ficaram presos numa linha de tempo qualquer.

Um chá, sim ela precisava de uma xícara bem quente e revigorante de chá. Ligou a cafeteira elétrica, abriu a porta do armário para alcançar a xícara. Foi então que viu um copo que há muito não usava. Çay, ela amava çay, mas abandonara o hábito. Agora era Earl Gray ou Green Tea, sem açúcar, sempre na xícara branca de porcelana.

Tocou o copo de vidro fino, o formato de tulipas trouxe a lembrança de rosas vermelhas, de perfume de homem e acima de tudo, de momentos de amor e sexo. Ela quase gargalhou, tanto tempo... Seu corpo parecia recordar desses momentos também, um arrepio acompanhado da contração de seus músculo abdominais, lembranças de toques, beijos, entregas.

Sentou-se novamente na poltrona, apreciava o chá enquanto seguia vendo as fotos, até que alcançou um antigo álbum, mais lembranças. Desde que decidira desistir daquele caminho, nunca mais abrira o conjunto de fotos. Enfrentara com coragem sua decisão de trancar aquelas memórias para sempre. Até agora havia sido bem sucedida.

O homem que sorria nas fotos a seu lado nem mais se lembrava dela. Seguira com sua vida, sua família e seus amigos. Um homem compacto, tentando se encaixar nas expectativas de todos. Ele era infeliz, ela descobrira isso hoje. Ele não tinha felicidade no lar, na profissão, em nada. Ela não entendia a razão.
Pegou uma das fotos, deles, juntos, abraçados na beira do mar. Publicou em uma das mídias sociais quaisquer que ainda existiam. Colocou um texto falando sobre passado, amor e memórias.

Escovou os dentes e foi para cama. Amanhã mais trabalho, mais do mesmo. O homem com quem vivera até recentemente, partira. Ele sempre previra sua morte prematura, ela nunca pensara que ele iria acertar. O filho de ambos sofrera muito, mas aceitar a morte como parte da vida era sinal de compreensão de nossas possibilidades. Ela ajudar seu jovem rapaz a compreender, ela nem precisava.

Passaram-se meses daquele dia, ela esquecera os movimentos, as razões e gostos que experimentara. Apenas continuara, com suas leituras, seus escritos e o trabalho, trabalho que compensava a ausência de um sucesso que lhe desse sustento.

Entrou em casa, como todas as outras milhares de vezes. Tirou os sapatos, colocou a bolsa no lugar apropriado. Era verão, ela odiava o verão, mas como tudo que é odiado, ele se repete, com mais constância, ela sabia que era impossível refutar o ciclo. Banho!

Ela correu feliz para o chuveiro, queria tirar aquela sensação de mel do corpo. Queria seu perfume de verde – assim chamava o gel de banho que usava – e a maciez do robe que a envolveria – conseguira um de algodão branco, suave – ligou a musica e seguiu para preparar uma salada.

A campainha tocou, ela não esperava ninguém, talvez alguma instituição de caridade pedido contribuição. Seguiu, comendo um tomate, para a porta e abriu. Lá estava ele, o homem da fotografia. Sorriu para ela, não havia espaço para palavras em ambos. Os olhos estavam fixos um no outro. O boa noite dele acordou a mente dela. Não, ela não ousou perguntar o que ele fazia ali, apenas saiu de lado e deixou que ele passasse. Fechou a porta, por coincidência a musica deles tocava, ele pegou na mão dela e começaram a dançar. Foi como voltar no tempo.

Nunca mais ele partiu. Nunca mais ela sentiu que fora tola por amar aquele homem da forma que amava. Nunca mais houve nunca mais. Eles continuaram a trabalhar, voltar para casa, dançar e fazer amor. Eles terminaram juntos, num dia em que o sol nasceu mais cedo. O filho dela veio para uma visita, encontrou o corpo de ambos, neles impressa a felicidade de terem vivido juntos. O filho beijou a mãe, olhou ao redor e pegou o celular, o crematório para o corpo dela, a mesquita para o dele. Foi um amor sem fim, que agora continuaria em algum tipo de eternidade, em partículas, em ondas, ou seja lá o que o universo havia reservado para a essência deles.

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