Tuesday, May 12, 2015

Daniel e Claire



Existem sonhos nele, muitos. Não é um homem complexo, na verdade é quase linear, seguindo roteiros predeterminados de fazer e não fazer. Ele é apenas um rapaz, 30 e poucos anos, que veio de uma cidade no interior e ficou surpreso com a capital. Sua rotina é sempre a mesma, acordar, pegar o carro, viajar alguns quilômetros – uns 100 – e chegar a empresa que trabalha. No fim do dia – algumas vezes muito, muito depois do final do expediente – dirige de volta para casa. Faz judô duas vezes por semana, nos outros dois dias, simplesmente trabalha.
Ele não costuma cozinhar em casa – casa que divide com outras pessoas, não com familiares – sua rotina alimentar é composta de takeway e restaurantes – preferencialmente os mais baratos, ele economiza para as férias e alguns sonhos – come, dorme, trabalha. Reclama um pouco, aqui e ali dessa rotina, nunca em excesso, nunca de forma agressiva, apenas contesta sua necessidade de parecer uma engrenagem na máquina maior.
Quando a sexta-feira chega, outra rotina, pega o trem, depois o tube e finalmente chega an casa de Claire. Eles conversam durante a semana, mas é no fim de semana que se encontram – ela é, como ele define, sua metade  - outra rotina. Os mesmos locais para o café da manhã, almoço e caminhadas. Com alguma sorte, acabam em um novo pub, em um restaurante ou, até mesmo em um clube de comedia. Quem sabe? Só que, até as exceções em sua rotina, são rotineiras.

Eles se conheceram num acaso, e foram se acomodando na relação. Volta e meia viajam – sem muita aventura, Roma ou Austrália, Paris e Milão sempre no coração – mas o desejo de saltar – Nepal, Índia – fica contido na rotina, uma rotina que faz parte da cultura onde vivem e esta disfarçada de tradição.
Por causa dessa tal tradição, não há saltos no vazio, caminhadas no escuro, mudanças bruscas ou impulsos. Esse jeito completamente esperado de agir, leva cada passo a se repetir, como uma dança de salão coreografada, sem improvisos.

Daniel e Claire estão juntos, são os grandes jogadores dessa rotina. Cada qual move seu peão para a próxima casa, num tabuleiro limitado. Eles dormem juntos, sem ter intimidade – sexo não representa intimidade – não se dividem, não se transbordam, mantém a polidez até mesmo no orgasmo silencioso.
É Possível ler, nas entrelinhas de Daniel, sua insatisfação, mesmo que pintada de ironia. O silencio de Claire, representa que, na acomodação do dias, a coragem de exigir mais da vida se esvai. No futuro, um casamento, uma hipoteca e filhos – talvez – domingos no parque em piqueniques com os amigos, o pub na sexta-feira, onde o ‘pint’ de cerveja ou a taça de vinho branco, são consumidas como se fosse combustível para o vôo sonhado. Eles já não se tocam mais, nem se entreolham com aquele desejo que um dia, por um breve instante, ambos deixaram transparecer – discretamente – eles apenas seguem o roteiro, entre bocejos e shows na televisão, trabalho e espera. A eterna espera que algo mude, que um fogo de mudança queime a rotina e proporcione a liberdade do inesperado.

Dia após dia é assim. Daniel em seu sonho de comprar uma casa, as viagens que ele deseja fazer, os carros que tanto admira, suas fotografias e ironias. Claire e seu corpo, seus cabelos, o trabalho e o sonho, escondido no fundo da mente, de ser outra qualquer. Dois corpos, dois seres humanos presos na armadilha da rotina. 

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