Tuesday, May 12, 2015

Amiga



Queria sentar na cadeira da cozinha de sua casa e falar com você. Falar tudo que penso, sinto, sobre minhas decepções e acima de tudo, como sinto sua falta. Queria comer bolo, tomar café e jogar fora milênios de conversa que guardei só para você. Impossível, eu sei, alguma razão ou nenhuma, afastou você de mim. Agora, minhas tardes são sombras, onde as árvores dançam, as flores exalam perfumes e quando as folhas caem, eu lembro de você, mesmo sabendo que, nada mais represento em sua vida.

Fomos irmãs um dia, pelo menos era assim que me chamava, irmã de mente, alma, coração, sei lá como definir. Nossa sincronia era tão profunda, que, mesmo sem palavras compreendíamos uma a outra, tal qual na ficção, onde a comunicação é mais mental do que por som. Ondas saindo de mim para você. Curiosamente, nunca nos encontramos pessoalmente,  mas eu sei qual o som de sua voz, o perfume que usa e a forma que ri de situações engraçadas. Não que tenha visto seu sorriso recentemente.

Você tem escondido seus olhos atrás de óculos escuros, mas eles não escondem a perda de peso, o ar de tristeza. Os óculos não escondem a culpa que você teima em tomar para si, da mesma forma que se atirar na religião não tem sido uma cura, nem um alivio. Você foge, como se o mundo existisse para magoar você, para trazer dor e dúvida. Ah! Como você teme a dúvida, muito mais que a dor. A dor lhe dar certo prazer, certa compensação. Como se o que lhe foi tirado – apesar de não ser seu – fosse compensado pela dor, pela autoflagelação, pela escuridão que deixou tomar conta da bela mulher que foi um dia.

Todos, sem  exceção, perdem seres amados durante o percurso. Alguns, os mais privilegiados, tem a oportunidade de viver com eles por algum tempo, outros, apenas sentem o toque suave das pontas dos dedos daqueles que amam em sua vida, um roçar que logo desaparece. Outros, sofrem por terem pouco tempo, outro por terem muito. Muitos, muitos mesmo, lutam dia após dia, para sobrevier, sobrepujar doença, miséria, catástrofe e continuar, fazer algo maior e melhor por eles e por aqueles que se foram.

Você no entanto escolheu a punição de viver na dor. Trancou-se em questões que não podem ser respondidas, em certezas que não são fatos e acima de tudo, na estranha sensação de que não merece o que tem: a vida. Embora acredite que um deus qualquer tenha lhe dado essa vida e que, esse mesmo deus lhe tenha tirado os seres amados, não consegue aceitar, na sua crença simplista da vida, que nem mesmo ele pode justificar tantas perdas, tantas dores. Assim, escolhe crer que, algum tipo de punição está sendo imposto a você. Esquece de outros que foram também roubados desses mesmos amores e que continuam, como se continuar fosse o tributo deles àqueles que partiram e que amavam ( e ainda amam).

Neste evento de culpas e dores, eu paguei meu preço, simplesmente deixei de fazer parte. Eu sobrevivi – sem explicação, embora a ciência seja a explicação, ela e dinheiro – eu continuei e ousei dizer que você estava errada em se aprofundar tanto em seu sentimento de culpa. Tive a estranha coragem de explicar o que ocorreu sem apelar para seu deus. Tive a ousadia de me afastar, para não ser tragada por suas dores e sua imensa e insensata vontade de ser punida. Não, eu não tenho a coragem suficiente para ver alguém tão brilhante, desperdiçar a vida em medos, covardias, culpas e passado. Eu prefiro manter a menina-mulher que conheci viva em mim, aquela que foi a espectadora de meus novos caminhos, a amiga aquém chamei de irmã – ainda chamo na mente e no sentimento –a mulher que é capaz de dar sem esperar retorno, até mesmo dinheiro para quem o tem. Prefiro lembrar das conversas, dos risos, das ligações telefônicas, dos presentes. Prefiro a felicidade, prefiro a certeza de que, eu não mereço ser punida, assim como você também não.  A vida é feita de dores e alegrias, feridas e prazer, e quem pensa que pode ser diferente, não pode, porque qualquer coisa que não envolva todas as possibilidades não é vida.

Assim, dito tanto, ou quase nada, deixo minha saudade escrita no papel fictício, meu amor gravado em cada palavra e olhar que dei e dou em você, e acima de tudo a certeza que, mesmo com você pensando e sentindo o oposto, você merece viver.

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