Friday, March 13, 2015

Um homem




O tempo sufoca, desde o amanhecer até o entardecer, é o sino tocando no alto da igreja ou o chamado para a prece na mesquita, não importa, o tempo sufoca cada liberdade procurada em chão de pedra, são inutilidades de uma vida sem fé. Não tenho fé, nunca tive. A infância foi preenchida com dúvidas, mesmo que minha mãe tentasse impor suas delirantes certezas da existência de um deus, nem assim me servia esse saber, melhor dizendo, esse enlouquecer.

Aceitar as rotinas de preces, ritos e acima de tudo, culpas não estava em mim. A cada templo – católico, ortodoxo, islâmico, judeu, e por ai afora – eu sentia como um marionete sendo tragado para mentiras que eram travestidas de verdade. EU queria fazer parte do grupo de crentes, sem no entanto ter o material correto para isso.

Eu era feito de sensatez, incertezas e acima de tudo de suspeitas. A crença – a única que me era viável – estava em mim, no meu potencial humano, no acaso das coisas e acima de tudo, naquele ser randômico do universo. Olhava no espelho esperando vislumbrar algum tipo de insanidade só minha, quem sabe eu perdera algo durante o processo de maturação, deixando lugar vago àquela certeza de que a incerteza era a única moeda na vida. Pensava inclusive nessa inutilidade sórdida do tempo. A inexistência dele me afetava positivamente, enquanto os que me cercavam compeliam a não só aceitá-lo, queriam ser seus escravos. Aí está, não nasci para a escravidão. Seja a imposta pelo tempo, pelas normas sociais ou até mesmo pelos relacionamentos.

Um homem como eu não encontra companhia facilmente. Quem, verdadeiramente quem, seria capaz de aceitar que ao chegar o fim da vida e saber que não há nada depois, apenas o retorno a essencial? Quem viveria feliz sem as tolas promessas de recompensas. Doía ver meus amigos apegados a ideia de que seus bons comportamentos seriam recompensados, se assim fosse, os maus deveriam ser punidos – não eram, bastava olhar ao redor, nas guerras, nas casas daqueles que se aproveitando a ingenuidade da maioria para construir uma fortaleza onde esquecem dos outros.

O homem não é bom. Ele é um predador, um sobrevivente que sempre está a caça de algo que fortaleça sua posição, não importando a quem custe seu sucesso. Vemos isso todos os dias: na política, nas artes, no governo, em todos os lugares. Nossa sociedade – não importa se leste ou oeste – é implacável, permite que 1% tenha o que 99% jamais conseguirá e faz disso o sucesso de todos. Não sou contra o sucesso, sou contra a concentração dele.

O sucesso é algo benéfico, o mérito também, mas o mérito passou a ser comprado, da mesma forma que o sucesso. Negociatas, conveniência da mídia, interesses de todos os tipos, sobrepujam o mérito, muitas e muitas vezes. Eu sei bem disso, por isso meu cinismo em relação a tudo e todos.

Os idosos, que sequer pensaram que um dia seriam idosos, impõem sua maldição aos mais jovens. Alem de não os ensinarem, eles esperam – exigem na verdade – que sejam positivamente sustentados, suportados e amados – mesmo tendo feito milhares de coisas erradas, prejudicando o futuro de quem seria seu suporte. São tolices impostas pela religião – ame pai e mãe – mas eles nunca amaram aos filhos, nunca se preocuparam em permitir que eles voassem livres, nunca foram abrigo para as dores e os medos – filhos, em muitas instancias, são troféus. Não eu não quero filhos, não quero esposa, nem uma casa – comprada por algum sistema de financiamento – nem um carro ostensivo, nem roupas de grife, nada disso me atrai.

Sou um tipo selvagem, vestido de algodão puro, couro e lã. Nunca me preocupo com a aparência – não julgue isso desleixo, limpeza me é fundamental – preocupo-me sim, com o conforto, com a qualidade e acima de tudo, com o que me atrai. Hoje por exemplo, foi um belo livro, sua imagem estava exposta em um site de leilão, eu o quis imediatamente. Imaginei-me virando as páginas sensíveis, da mesma forma que muitos homens imaginam tocar a pela de uma mulher. Me deu água na boca, o coração acelerou e eu desejei a posse dele – mesmo que temporária – e isso significava ter que me juntar a pessoas que estariam ali apenas pelo poder de possuir, não pelo amor.

Enfim, existe uma verdade que sou incapaz de negar, o dinheiro auxilia a resolver esses pequenos – e muitas vezes os grandes – obstáculos. Um escritório de advocacia me representou e aqui está ele. Meu mais profundo desejo – deste momento – estou com ele nas mãos – ousei tocá-lo com elas nuas – e retiro dele todo o conhecimento que está alem das palavras. Estou me impregnando com as intenções e deslizes do escritor. Embriago-me com a sensação de um dia termos compartilhado o mesmo espaço. Vago e infinito espaço ocupado por pequenas partículas – uma delas era parte de mim, outra dele. Sou louco, desvairadamente louco.

Isso jamais me incomodou, essa loucura que outros enxergam, é apenas a civilidade que eles se negam. Não há loucura em não crer naquilo que é claramente mentira. Não há loucura na dúvida, assim como não há loucura em ser o que se é.

No final, sei que estou certo, não a certeza definitiva, apenas a certeza que me cabe. Essa certeza não é de ninguém, apenas minha, infelizmente não estarei aqui quando ela se mostrar a única real.

No comments:

Post a Comment