Tuesday, January 20, 2015

Rituais




Noite, momento de rituais íntimos, preciso solo ao som da musica silenciosa da noite. O banho relaxante, a água morna, retirando o cansaço do dia, expulsando cada grama de suor, poeira e restos de alimentos que ficam assim, anexados a nós. Sempre fui adepta do banho antes de deitar. Muitos o preferem pela manhã, outros assim que chegam em casa. Posso, e na verdade também usufruo destes, embora nunca me prive do banho antes de chagar aos lençóis.

Esses pequenos rituais meus, banho, secar o cabelo, escovar os dentes, passar hidratante no corpo e no rosto e depois, sem muito pretensão, puxar um livro e deixar a mente relaxar da mesma forma que o corpo, preparando o sistema para o sono, estas ações tão minhas, foram invadindo seu mundo e passando a serem suas também.

Deles, sem percebermos, criamos os nossos. Primeiro o banho – eu e depois você – e quando você chegava na cama eu já estava mergulhada na leitura e você pulava a meu lado, colocava seus fones de ouvidos e começava a viajar na musica que tanto apreciava e, com algum pudor e vergonha, criava. Era silencio entre nós. Cada um em um mundo de arte diferente: você nos sons, eu nas letras, ambos sonhando com algo significativo nesses dois universos.

Naquela noite, você trouxe o computador para a cama, perguntou se aquilo me incomodava. Não, nada que vinha de você era um incomodo, nunca perguntei se meus livros o incomodavam, não há esse tipo de preocupação entre amantes. Sorri. Você queria ouvir um pouco de suas novas criações, comentou timidamente. Sorri de novo, eu as ouvira escondida no corredor, sabia de sua timidez e excesso de autocrítica, sabia que não desejava que eu ouvisse, sabia que preferia se arrastar na solidão de suas composições, escondendo o talento – embora ainda incipiente e não  lapidado – das outras pessoas.

Foi assim, o computador, você e eu, deitados naquela enorme cama de 2 metros de largura, com a lua na janela, os livros do outro lado e nossos sons particulares – que eu ouvia e você não.

Me cansei logo da leitura. Cansei de viajar nos sonhos dos outros, de tentar compreender o desejo de personagens que pareciam não compreender a liberdade do amor sem esperança, sem cobrança, sem futuro – ou melhor, com todo o futuro do mundo – virei de lado, apaguei o abajur e fechei os olhos. Queria sonhar. Sonhar com possibilidades, com montanhas abraçadas pelo vento, banhadas pela luz do sol, embaladas no sono pela lua. Queria ouvir a canção do rio e do mar, sentir em minhas narinas o perfume das florestas e dos desertos. Eu queria flutuar acima do planeta, mergulhar no mais profundo lugar deste mesmo planeta. Eu queria sonhos reais. Queria você.

Não demorou muito e a luz de seu abajur apagou. Senti seus braços envolvendo meu corpo, senti o beijo suave no pescoço e depois na orelha. Meu corpo queria fingir que dormia, a mente não suportava a ideia de perder a oportunidade. Virei para você e tomei tudo que me oferecia.  Não com a voracidade do desejo a ser saciado, mas com a certeza do amor a ser vivido. Eu te amava, amava com o desespero das incertezas, com o medo do final e acima de tudo, com a concreta impressão do para sempre.

Fizemos amor. Criamos tanta magia naquela hora e meia onde os corpos seguiam seus próprios instintos, a mente ficava ofuscada por tantas sensações que algumas vezes, ou em muitas delas como era comum a mim, não sabia se o som era real ou apenas ocorria dentro da mente. Eu amei você aquela npite, como nunca amara outro homem, como nunca amaria novamente, pois descobrira, entre computadores, livros e lençóis que amor acontece, não é um jogo de cena, nem um poema no papel. Ele ocorre na realidade e na rotina da vida, em momentos impróprios, a pessoas impróprias. Aconteceu ente você e eu, depois partiu, ficando apenas a meia vida que ainda está presente em mim.

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