Sunday, January 25, 2015

Lembranças




Eu queria abrir a porta de seu quarto e entrar sem nenhuma cerimônia. Enquanto escrevo estas palavras, este desejo escondido, vejo a cama encostada na parede, o edredom azul e amarelo com o símbolo de seu time e a cortina branca balançando ao vento. Não é mais assim, eu sei, hoje não conheço mais seu quarto, nem sei onde fica sua casa. Em minha memória, é aquele quarto pequeno, sem armários – na verdade com um improvisado – com roupas jogadas aqui e ali, o cinzeiro na mesa no canto, e alguns bens preciosos para você: a imagem da cidade desenhada em lápis, a bandeira de seu amado país e pequenas relíquias que colheu em suas visitas pelos cantos de história de sua terra.

Lembro de tantas coisas que poderia ter esquecido, como o sabor de frutas e cigarro de seu beijo, ou ainda, o perfume do desodorante – naquela primeira vez você não usava perfume – e o prazer que sentia quando, com óleo de amêndoas, eu massageava seu corpo. Um corpo perfeito para minhas mãos.

Lembro da ânsia de seu desejo em ter meu corpo nu em suas mãos – não muito diferente da minha – e o som que tocava no telefone, suas musicas favoritas em ritmos eletrônicos. Naquela época eram desconhecidos para mim, hoje embalam minhas corridas solitárias no parque.

A primeira vez é inesquecível, mas a última é como um suspiro que fica suspenso no para sempre. Foi assim comigo e você. O suspiro permanece, mesmo no silencio do esquecimento do agora. Não importa o conteúdo de sua vida, ou da minha, elas só tem significado para o indivíduo que somos. Nossa convivência, por outro lado, teve um significado maior, tão grande, que seu desespero o levou a reproduzi-lo, mesmo que com material de segunda mão.

Nunca pensei em substituir você. Não vejo ninguém que possa, nem de perto, ficar em seu lugar – seja na cama, na mente ou no corpo – um lugar que não quero preencher com nada, apenas com as lembranças e os sonhos de oportunidades que perdemos. Ignorância é arma perigosa na mão de fanáticos, foi nas suas. Ignorância perpetuando em mim a dor de um adeus que nunca nos demos, de um reencontro que não provocamos e de algo que nunca será repetido por causa dessa mesma ignorância.

Canso a mente de pensar em você. Enfeitar em cada canto do meu dia com a imagem de você a meu lado, das construções conjuntas, das risadas e dos silêncios quase sólidos que éramos capazes. Como fomos dados a loucuras entre paredes, a sisudez da respeitabilidade em público. Um casal incomum, vivendo num mundo incomum, com um tipo de amor único. Amor? Sempre questiono se para você era assim. Não que importe o que você sentia, sequer o que pressentia, apenas me atenho ao detalhe de suas lágrimas em meu colo, de seus desespero à mesa do jantar e do adeus na cama entre a névoa da droga e a dor.

Nós é um artigo inexistente. Luxo de novelas épicas, rimas de poemas ou letras de musicas que tocam profundamente a alma. Somos como uma casa sem espírito, sem fidelidade a nada e ninguém, réquiem para um sonho. Somos nada, simplesmente o nada – que compõe a maior parte de todos os universos – somos isso e não importa o que digam, nem o que eu desejo, assim o é, ponto.
Rotina de escrever sobre nós, me proporciona o controle sobre a vontade de cortar as amarras com este mundo e navegar para longe. Uma viagem sem volta.

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