Wednesday, October 1, 2014

Eu




Eu poderia dizer que nunca menti, não seria a maior mentira que já contei. Menti, sim, muito. Minto ainda quando acredito que não tenho opção ou simplesmente pelo hábito. Mentir é humano? Percebo que é, talvez não pelas razões que imaginamos. Mentir é algo quase inerente ao nosso cérebro que tem a a tendência de adaptar a realidade à suas crenças. Um tão brilhante órgão, porém tão facilmente moldado.

Sou como todos, tenho um cérebro que insiste em me mostrar aquilo que lhe foi apresentado na infância e parte da adolescência. Os mitos e posturas que meus pais embalavam, que os pais de meus pais e outros mais no passado acreditavam serem a pura realidade, invadem, tomam conta do meu senso de realidade, transformado-o em algo que difere da minha crença pessoal.

Sou quase como duas pessoas, a alimentada por meus pais, a família maior que me cercava, a sociedade na qual vivia. Todos com suas molduras prontas, expectativas corretas e no afã de enquadrar minha mente nelas. Conseguiram. Boa parte de minha vida foi corrida nessa linha de moral, sentimentos, comportamento. No entanto, como alguns por aí, não conseguia me sentir adequada (ou feliz como alguns preferem). Não sentia que era um ser humano adequado a mim mesma, esse era o grande mistério que cercava minha procura por solidão e respostas.

Imaginem, uma criança que não consegue lidar com o não sem justificativa. Ou ainda, essa mesma criança observando os adultos e percebendo como o que ela via era diferente do que eles viam. Uma confusão. Na adolescência a 'esquisitisse' aumentou. Possuidora do  saber universal,  cobrava coerência de todos. Coerência? Onde? Como? Como esperar coerência de seres que estão bloqueados para o mundo real?

Da mesma forma que, quando sua opinião,'fé' (usarei esta palavra no lugar de crença) tomam conta, não existe argumentação lógica que abra uma porta para outra opinião. observamos isso o tempo todo: na religião, na política, em profissionais que, culpam sempre outros de suas pequenas mentiras - muitas vezes transformadas em incompetência.

Fiquei adulta na marra, preferia minha fantasia poética do mundo, meu projeto de futuro sem alguns pontos incomodativos, seria essa a palavra? Tudo parecia simples aos 20 anos, tudo parecia possível aos 25, mas fui batendo em muros, em verdades que não refletiam a realidade. Verdades pintadas em paredes escuras por outros que nada sabiam de mim, do mundo. Eu tinha a limitação do espaço e do tempo, sem no entanto aceita-los. Rebeldia de jovem, diziam uns e depois compunham uma série de frases, as quais hoje me lembram as maldições dos livros de ficção.

Demorei muito a enxergar. Sei que a maioria nunca verá o mesmo portal que eu, e mesmo tendo ultrapassado seus limites, ainda trago resquícios dos outros tempos. Tempos onde sexo não era falado por meninas de boa família - era um assunto que me interessava muito e ainda interessa, afinal, ele faz parte de nós - um lugar onde a preferência sexual era condenada, onde o desejo era pecado e tudo ligado ao ato natural do prazer era velado, impuro. Acho que muitos deles se masturbavam intelectualmente e fisicamente em seus quartos, fechados seus banheiros escuros, na tentativa de controlar ou quem sabe, compreender.

Não só o sexo. A religião era outro ponto do qual eu me libertava de tempos em tempos e eles me puxavam, empurrando o inexplicável, inaceitável, inconcebível por minha 'goela' abaixo. Quando vomitava de volta, temperando todo aquele 'nonense' com informação, ciência, recebia a etiqueta de tola - a mais leve delas, as outras ainda rolam por aí. Rolam mesmo, um dia desses um dos habitantes do meu antigo mundo chegou a comentar que eu era 'esquisita'. Ela nunca compreendeu que a esquisitisse era por que eu não cabia.

Não existe ódio em mim, já existiu. Imenso, profundo, quase arraigado. Pouco a pouco o substituí pela piedade, pela certeza de que, quem me privou de ser eu, ou melhor, tentou, acabou apenas reforçando quem eu sou. Abrindo em mim um corte tão profundo, que vazei por ele. Sim, acho que é esse mesmo o sentido, eu vazei pelos cortes que deixaram impressos na minha mente e  corpo.

Não esqueci cada palavra - e luto para lembrar as reais, não as que me fariam bem - não deixei de lado os olhares e os sorrisos irônicos, nem as agressões físicas. Não seria possível, muito menos desejável entrar nessa 'roubada' que é o perdão. Não há perdão em mim. O que foi feito, foi feito. O que se deixou de fazer, não se fez. Parece óbvio, mas não é. Não há agradecimento também. Existe a pretensão de alguns de serem meus construtores, na verdade eles foram meus carcereiros e, se houve mérito neles, foi o de obter com sangue e sal o que poderia ter sido dados com suavidade.

Eles estão lá. Continuam em seu mundo de verdades únicas, de mentiras coletivas. Eu estou aqui, lutando para não criar um mundo assim para meus filhos. Os quero livres, intensos, o mais verdadeiros que puderem - entre erros e acertos, medos e coragem - os quero humanos. Não impus nenhuma rito, apenas disciplina da mente. Não os privo de saber, conhecer e escolher. Eles constroem sua própria sabedoria, alimentada por outros. 

A dificuldade dessa empreitada está implícita no ato de viver. Aceitei a jornada e caminho com traquilidade intranquila, com medo e dúvidas, mas sempre com a certeza de que sou eu, mais ninguém.

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