Friday, October 10, 2014

Continuum




Eles haviam feito sexo, antes mesmo do corpo esfriar ele começara com os comentários de sempre. Ela não estava úmida suficiente, a penetração o havia machucado, complementando com outros comentários negativos que ele fazia sobre ela todos os dias. Ela olhava pela janela, questionando sua sanidade em estar naquela cama com ele.

Ela era uma mulher independente, forte – assim ela se via – corajosa, uma solitária que enfrentara a maternidade sozinha, o câncer sozinha e tantos outros desafios que lhe foram impostos. Ela realmente não compreendia o que a fazia ficar.

Essa inquietação do sentimento dela para com ela mesma, os questionamentos sobre o por quanto tempo seria capaz de suportar a carga de ser menosprezada, diminuída, controlada. Do ponto de vista dele ela era toda errada. Não sabia se comportar, não falava de forma adequada e acima de tudo, não obedecia. Obedecer nunca fora algo fácil para ela. Seguir padrões de comportamentos impostos, sem qualquer explicação ou significado, era  um dos motivos para o pai e a mãe a agredirem – fosse física ou verbalmente – agora, adulta continuava a ser punida por esse estado de desobediência.

Ele olhava para ela com certa desconfiança, um tipo curioso de olhar ela pensava. Eles não tinham vínculos – não eram namorados, marido e mulher, talvez pudesse ser dito sobre eles que eram amigos – não havia nenhuma amarra que os prendesse um ao outro. Ela não pedia nada, ele exigia tudo. E falava. Acusava. Julgava. Machucava.

Ela era desajeitada, confusa, por onde passava todos a observavam, não era capaz de ficar parada, não falava o idioma dele. Ela era uma mulher que não se encaixava na vida daquele homem com quem vivia. Por que continuava?

Qual a razão de cozinhar, manter o lar aconchegante e trabalhar apenas quando ele estava fora, se nada disso tinha nenhuma importância? Por que tolerava as saídas para encontrar outras mulheres, beijar outros corpos, enquanto ela ficava solitária assistindo a um filme ou lendo um livro? Que vida era essa que escolhera?

Ela não tinha respostas para tantas perguntas. Apenas, quando estava com ele sentia um fluxo de energia indo e vindo que fazia bem. Era como se naqueles toques, nos silêncios que ela preenchia com elogios e doces palavras, ela fosse sendo modificada. Não havia explicação lógica. Alguns diriam que era obsessão.  Outros que era dependência, como se ele fosse a droga que embotava a mente dela, transformando-a em vitima dela mesma.

Sem respostas. Sem nenhum tipo de reforço positivo em sua vida. Era sempre assim, a culpa e o ônus dessa mesma culpa, era exclusivo dela e de suas atitudes.

Ela se moveu com cuidado na cama. Ele dormia – profundamente ela pensara – saiu calmamente seguindo em direção à sala. As grandes janelas emolduravam o mar e a lua., ela se via no reflexo dos vidros. O rosto tranqüilo e o corpo esfriando naquela noite de dezembro. A mente e o corpo dela imploravam para que voltasse para cama, eles desejavam os sons dele, o toque da pele quente e escura. Ela resistia, tendo como cúmplice Selene.

Mãos quentes a tocaram, seguidas de um abraço quase sufocante. Ela deixou de lado as perguntas, iria continuar a mergulhar naquele corpo, no sentimento que a deixava insensível a qualquer outro, não havia raiva, ódio, dor que distraísse sua mente do amor que sentia. Iria ser assim, por toda sua estada neste planeta.

Mesmo quando ele não a envolvesse mais nos braços, esquecesse seu nome -  quem ela era - deixando numa caixa fechada tudo que haviam vivido. Mesmo assim, no silencio das noites solitárias, ela simplesmente continuaria amando... A ele...

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