Thursday, July 10, 2014

Braços vazios




Braços vazios, estranha sensação para uma ser, era o que ele pensava naquela fria manhã de inverno. O sol demoraria a nascer, mais 4 horas pelo menos, ele no entanto, acordara e sem pensar, saíra da cama quente para o frio de sua casa. Ele olhou ao redor, paredes brancas, sem enfeites, os sofás cobertos por mantas e os tapetes tradicionais de seu país eram os elementos decorativo que se permitira. Não gostava de mimos, nem de excessos, apreciava a simplicidade, a abstinência por riqueza. Essa capacidade de convencer a si mesmo daquilo que sua mente sabia não ser verdade, era imperioso a sua sobrevivência. Sem essa capacidade de transformar em verdade suas regras de vida, ele não estaria naquela pequena casa de três cômodos. Não, não era ali que ele estaria.

Os pés o levaram até o fogão de duas bocas que se encolhia sonolento sobre a máquina de lavar roupas. Chá, ele precisava urgentemente de chá e claro, o cigarro. A tosse o pegou de surpresa. Ele pensou que, toda vez que o cigarro vinha a mente a tosse o acompanhava, coincidência? Talvez.

Preparado o chá, sentou no sofá, acendeu um cigarro e alternando entre uma tragada e um gole do liquido forte e escuro, começou a reavaliar suas escolhas. Não era algo natural para ele, reavaliar suas ações passadas, aquele dia parecia provocar alguma mudança em sua rotina mental. Sorriu. Lembrou do livro que lera, uma série na verdade, onde ele fora o último capítulo. Curiosamente, ele gostara do que lera, embora, discordasse de alguns tons nos quais ele fora pintado. Ele não era obtuso, apenas sabia o que lhe caia melhor.

Seu filho, o menino de olhos escuros que ele nunca conhecera andava por aí. Ele poderia, com a ajuda de alguns amigos, descobrir onde e quem sabe tentar um contato. Dizer o que? Ele tinha algo a dizer ao filho? Perdão? Amor? Ele não conhecia esses sentimentos. Tinha um insight de como ele seria, filho de quem era. Um homem alto, independente, misterioso, livre, inteligente, curioso... a mÃe dele deixara as marcas, disso ele estava absolutamente certo.

Terminado o chá, ele segue para o quarto. Hora de colocar a roupa do trabalho. Aos 56 anos, ele continua a manter a mesma rotina, as mesmas funções, o mesmo caminho todos os dias. “Imutável como uma rocha” ela escrevera no livro, não, uma rocha sofria a ação do tempo, das intempéries, não ele.

Olhou no espelho, a última olhada antes de seguir para a rua. O crrao parado na porta, um dos poucos bens que tinha o levou pelas ruas de sua cidade até o local onde encontraria o ônibus com os turistas de sempre. Gente enjoada, mimada, ou então alheia. Eles iam e vinham em sua vida, acrescentando pouco, pouco dinheiro, pouco conhecimento, pouco...

Agora dentro do ônibus, a caminho de um lugar que por mais de 35 anos mostra a milhares de pessoas. Uma espécie de palco onde ele representava, repetindo as mesmas falas, os mesmos gestos, ouvindo as mesmas perguntas. Ele estava cansado. A perspectiva de se aposentar era nula, ele não poupara o suficiente para isso. Iria morrer assim, tal qual como começara.

Uma parada para esticar as pernas. As pessoas seguem para o restaurante, chá e café serão servidos acompanhados de pequenas roscas salgadas e doces. Ele senta nas escadas para fumar.

Uma voz chama sua atenção. Uma voz feminina que desperta nele um tipo de emoção que pensava ter evaporado no tempo. A emoção descarrega adrenalina em seu sangue e o coração pula. Seria ela? Impossível, ela deixara de existir há muito. Partira como chegara, subitamente e em silencio. Ela...

Se suas escolhas tivessem sido diferentes, hoje ele teria uma grande casa, com seu filho e talvez netos, quem sabe. Ela talvez ainda segurasse sua mão enquanto ele dirigia, acariciando seu rosto, num silencio que ele compreendia e ela lhe dava. Ela, o único real amor de sua vida, a única que trouxe para sua mente a sensação de poder, segurança. Nunca fora amado antes por alguém como por ela, nunca foi depois.

Ele a recusara. Ela não se encaixava em suas regras. Ele não era quem ele planejara, nem quem sua família desejava. Ela era independente, rica, falante, extrovertida. Ela tinha algo que ia ak;em da beleza. Ele lembrou de um dia, num de seus acesso de ciúme, quando usava todas as palavras que podia para balançar a segurança dela, ter perguntado o que ela tinha que todos olhavam quando ela passava, ela não era sequer bela, ele acrescentara. O sorriso que ela lhe devolveu respondeu a questão. Sim, ela tinha o sorriso mais cativante que podia existir, a mente mais afiada e uma honestidade no sentir que era rara. Ela não esperava nada dele e dava tudo para ele. Ela lhe dera coragem para ser melhor, investir mais em um futuro, tentar... Um filho, ela lhe dera um filho.

Hora de prosseguir, os turistas de hoje estão ansiosos para chegar a Troia. Não há quem não tenha uma paixão secreta por Helena, a mais bela das mulheres. Ele sabem bem disso, teve a sua Helena, que deixou escapar num text e num adeus.

O sol nascera, o dia frio ficara iluminado e curiosamente, talvez com um propósito que ele desconhecia, era muito parecido com o dia em que eles – ela e ele – visitaram Troia pela primeira vez. Ele sorriu, o coraçõ ainda batia apressado.

Apresentou a cidade para quem tinha interesse. Deu um tempo para que andasse pelo sitio randomicamente, explorando um pouco da antiga e romântica estória. Sentou numa antiga coluna, acendeu um cigarro, deu a primeira tragada.

Quando o guia não se apresentou na hora marcada para que a viagem continuasse, o motorista saiu a sua procura. O encontrou caído, ao lado de uma coluna, ainda com o cigarro na mão e um sorriso insensato nos lábios, sem vida, mas com toda a esperança de uma nova oportunidade de viver. Infelizmente, não seria assim, ele se fora , era o fim.

No comments:

Post a Comment