Monday, June 2, 2014

Perguntas




Existe uma incapacidade em mim, não é a única, entretanto, é a mais permanente. Não consigo deixar algo passar sem compreender. É um tipo egoísta de compulsão, um buscar por respostas onde, por muitas vezes, há apenas silêncios. Obsessão, pensarão alguns, coisa de mulher dirão outros. Não vejo essa minha característica dessa forma. Cresci assim, mas tenho claro na mente que nasci assim.

Sou um tipo curioso, caótico, organizado, certo e confuso de pessoa a busca de respostas. Por que o mundo ficou assim? Como podemos considerar quem tem outra cor de pele inferior? Teria sempre a humanidade praticado a guerra? Seria essa ganância pelo poder algo visceral e completamente alem de nosso controle? Será? Por quê? Como? Onde?

A jóia correta para mim seria um pendente com um ponto de interrogação. Não ria. Certa vez, uma psicóloga, dessas que trabalham no RH das empresas, depois de verificar o resultado de uma avaliação psicológica minha, veio com esta: “Seu nome deveria ser Heleny Por que... Eu ri. Sim, nunca superei a fase da infância dos por quês, nunca quis superar. Acredito veementemente que, são as perguntas que modificam quem somos, não as respostas. Elas, as mal vistas perguntas, falam mais de nós mesmos do que o que dizemos, combinadas com nossas atitudes, são poderosas ferramentas de autoconhecimento.

Fui aprendendo quem sou através das perguntas que fiz. Bem pequena, aos quatro ou cinco anos de vida, perguntava e não tinha respostas. Aprendi a procurá-las sozinha. Livros, observação e acima de tudo, análise. Analisava tudo, do tom de voz de minha mãe ao olhar que meu pai, da abelha pousada na flor a lagarta que virava borboleta  A transformação de criança em adolescente, trouxe a procura desesperada pelas respostas mais complexas da vida. Mesmo aí, não encontrava respostas satisfatórias nos outros. Alguns, diziam para eu ter paciência, outros falavam de deus e destino, outros ainda comentavam em voz monótona,  que eu iria aprender. Iria? Por que depois? Meu tempo de aprender sobre aquele assunto era agora. Nesse momento ele me incomodava.

Foi por causa disso que, meus melhores amigos sempre foram os livros. Raramente me apaixonei – para não dizer nunca – por um homem que não tivesse um cérebro e soubesse usá-lo. Aliás, descobri que pessoas – de qualquer gênero – que sabem usar esse órgão essencial a nossa vida, é raro.

No entanto essa minha característica tem um preço. Não consigo me relacionar com quem é apático diante da vida. Tenho dificuldades de conversar com pessoas que se prendem a ciclos rotineiros como casa, marido, filhos ou trabalho, balada, homens. Sempre gostei de variar meus conhecimentos, de ampliar meu horizonte de perguntas. Por isso estou sempre a procura de alguém disposta a seguir comigo nessa busca, que saiba perguntar, que saiba responder, saiba ouvir e falar. Sei que, o mundo está totalmente egocêntrico, as pessoas falam de si e não querem ouvir nada de ninguém, por isso tem sido mais difícil falar.

O tempo no entanto, sempre me traz algo bom. Hoje, um querido amigo – alguém que amo com todo o coração – entrou em contato pelo Whatsapp, sempre que falo com ele me sinto mais viva. Ele me instiga, questiona, brinca, mexe com o intelecto e com a vaidade. Ele me ama, da mesma forma que o amo. Somos um tipo de companheiros criativos, cheios de curiosidade pelo mundo. Curiosidade do mesmo tamanho e importância de nossa incompreensão. Assim, acordar com ele me chamando e passar a manhã em uma conversa sobre fotos, locações, desenhos e projetos, me faz um bem tão grande como dançar na chuva.

Descobrindo gente como ele, como outras poucas, que mesmo no silencio que talvez seja um tipo de punição para mim, ainda assim, essas pessoas me deram algo, profundo, generoso, definitivo. Me deram ouvidos e palavras, gestos e silêncios. Todas elas, mesmo as que agora preferem a distancia – alguns problemas são insuperáveis e dinheiro normalmente é um deles – me deram o melhor que um ser humano pode dar a outro. Deram perguntas.

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