Thursday, April 10, 2014

O copo com suco




Havia um copo perto da janela. O que estaria ele fazendo naquele lugar? Ninguém o ansiava, nenhuma mão iria tocá-lo. O copo apenas estava ali, com um pouco de suco, na sombra da cortina, como que olhando a paisagem que estava se exibindo do outro lado da janela.

Um copo, cheio. Sim, ele estava cheio, era meio suco e meio ar. Como eu que o observava, meio fato e meio sonho. Hoje meu sonho era ser possível. Não sei se vocês conseguem compreender como, uma escritora deseja ser possível. Não por ela, pelas palavras. Como as palavras sofrem quando se sentem soltas e não bem-vindas. Então, era essa a sensação e o sonho de hoje, ser possível.

Queria que, a cada linha e, especialmente, entrelinha, a mensagem fosse compreendida. Que em um flash, um mudar de nível, todos ansiassem por aquelas simples e claras palavras, que no entanto escondiam tantas perguntas – e algumas respostas – que existiam fora de mim, dentro de um espaço infinito de um tempo também infinito. De que adianta, ter tantas palavras, se elas sufocam no vazio de mentes fechadas, param diante de portas trancadas e se perdem em voos forçados para longe.

Algumas vezes, o escritor, eu, olho pela imaginária janela e nada vemos, apenas letras e sons, egoísmo e ignorância, desprezo e ansia por uma futil esperança de realização.

Nem todo esritor é sonhador. Muitos, começam sonhando, depois passam para a realidade, produzindo o mesmo da superficial dose de emoção pasteurizada que alguns preferem. Outros, como esta tola mulher, tentam ir mais fundo a cada mergulho no mar de letras e palavras, remexendo pedregulhos e areia que se escondem abaixo, turvando a água crsitalina que outros acreditam existir. Não, não acredito em mundos perfeitos, ser humanos perfeitos, no entanto, creio profundamente em pessoas capazes de serem melhores a cada novo dia. Sou um tipo romântico de céptica. Controvérsia em verso e prosa. Palavras e imagens.

Olho para o copo novamente. Será que alguém virá tomar o que resta do suco, provar essa realidade cítrica e doce? Ele ficará nessa prisão da incerteza, imaginando se tem algum utilidade ou é apenas um objeto esquecido e sem valor? Meu sorriso aparece, não de felicidade, mas de cansaço. Você já sorriu de cansaço? Faço isso frequentemente. Como se expulsasse, com a contração de meus músculos faciais, a exibição despudorada de meus dentes, essa sensação absurda que guardo, a mesma do copo na beira da janela.

A música toca. Falando de um amor selvagem. O meu é indomável, infindável, inexplicável. Amor que tenho pelas palavras, pelas ideias e pelos meios de compartilhá-las: os livros. Sou uma escritora perdida no meio de milhões de outros, que o fazem diferente, que deixam que outros mudem seus planos, que os preencham com outros sucos e outros planos, mesmo que o gosto e a forma não os agradem. Estou escondia na prateleira de muitas livrarias, onde ninguém desperdiça o olhar, pois temem encontrar o que procuram em meio a palavras claras, diretas e inexplicavelemente biográficas.

Bem, escolhi sempre o mais difícil caminho, nunca aceitei o imposto. Queriam que eu fosse médica, disseram que deveria ser professora. Eu queria ser engenheira e fui, mas depois quis ser professora, e fui. Agora é meu momento de ser ‘médica’, não de jaleco branco, não de pretensão dos deuses, minhas ferramentas de cura são as palvras, escondidas em meus livros, esquecidos nas prateleiras das livrarias, como o copo de suco na beira da janela...

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