Thursday, October 10, 2013

Queimando pontes




Deitei na cama e o que vi foi o brilho tênue de uma estrela, logo ali, ao alcance do olhar, tão perto do meu sentir, foi assim, nesse exato momento de deslumbramento que ficou claro  na mente obtusa e escura: “você e eu fomos feitos para ser.” A dúvida não faz parte dessa estória, assim como não há dúvida que, em algum momento, aquele ponto brilhante hoje no céu, realmente brilhou. Como esconder todos os fatos, eles não são fogo fátuo, nem algum tipo de nuvem de sonho. São atos, palavras, pequenos gesto que aconteceram nas noites e dias. Existiram tantas tardes de preguiça e silêncio. Tantas noites de suor e choro. Não, negar isso é negar estar vivo, dizer que não existimos.

Quando esse era para ser acabou, quando a frase ficou assim, no passado, eu parti. Bem, com as botas cansadas, a jaqueta rasgada segui sem olhar para para o que ficou. Parti na busca pelo melhor, que ainda espero, anseio, mesmo sabendo não haver nada melhor no futuro que valha a pena imaginar.

E continuo correndo. Como um louco construtor de pontes de caminhos, os quais eu sei você nunca quis. Um ladrão, um usurpador, meu coração levou e com ele se afastou, me restando o silêncio, pois como cantar se meu instrumento de vida está perdido.

Olhe, ainda me resta coragem para fazer um pedido. Queime tudo, as pontes que eu construí, as lembranças gravadas em milhões de células e conexões que fez. Ponha fogo em tudo, sem a piedade dos covardes, sem a dúvida dos inocentes. Você me definiu, agora queime o que restou. Destrua tudo com o seu silencioso fluxo. Não era o que queria, vamos, me leve para o mar. Me envie para a imensidão finita de águas profundas. Deixe-me no silencio.

Aqui comigo, a tentativa de preencher os espaço com um ou todos se tornou ficção. Rostos imaginários, papéis fictícios não cativam a alma, não convencem a mente. De que adianta a tentativa? De que serve nutrir com lágrimas uma esperança? Não, queime, destrua, transforme em pequenos átomos sem sentido o que eu fui um dia. Tenha pelo menos essa coragem. Depois recolha a fumaça na qual me tronarei, coloque em um vidro ou caixa. Pegue um barco, bem ali, na beira do estreito, vá até a torre. A torre da menina, da jovem, da princesa. A torre da eterna morte. Suba no topo, no mesmo ponto onde os lábios que dizem não agora, disseram sim... Vamos, abra o vidro, abra a caixa e deixe voar... Seguir o fluxo, não do rio, mas do ar, que mesmo sendo, tão mais imprevisível, tão menos visível, vai me levar e depositar no mar.

1 comment:

  1. Uau!!!! "não do rio, mas do ar" foi...... demais!!!! Muito belo!!!

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