Tuesday, April 23, 2013

Para sempre



Silêncio, o sofá cinza esquecido no canto, a manta vermelha na poltrona, o abajur desligado, apenas a luz da muda televisão iluminava o ambiente.  O lugar, repleto de sombras, com suas paredes brancas, portas de madeira clara e piso de pedra tinha o charme da modernidade numa cidade de milênios... Ele fumava na janela, não gostava de deixar o odor do cigarro dentro de casa... por ela, tudo por ela...

Ela que dormia silenciosamente no quarto, mergulhada em sonhos que ele desejava ardentemente conhecer, mas temia perguntar. Ela, que aos olhos parecia tão límpida, aberta, transparente, e que ele descobriu misteriosa, difusa... Ele pensava nela até quando estava com ela, isso o enlouquecia, detestava essa necessidade, misturada com muitos outros sentimentos que tinha por ela... Ela, que o acordava com um beijo; que algumas vezes pulava sobre ele e o enlouquecia mesmo antes dele ter aberto os olhos. Ela que o provocava apenas com o olhar, ou mesmo quando apenas estava ali. Ela...

Fazer amor com ela era deixar todos os limites do razoável de lado, ela aceitava todas suas fantasias e criava outras, sensoriais, incríveis, que o transportavam para um mundo que ele até então desconhecia. Quantas seriam capazes de fazer isso? Ele cogitava em sua mente, sabia que eles não seriam para sempre e ele não conseguia se imaginar vivendo sem ela. Não apenas sem o sexo, isso seria contornável, impossível seria viver sem o tipo de amor que ela tinha por ele, sem a sabedoria que ela compartilhava, sem o carinho ingênuo deles deitados no sofá, sim, aquele mesmo sofá cinza, assistindo a um filme onde ele mal continha as lágrimas e ela apenas as beijava, uma a uma... Não, não era apenas físico o que havia entre eles, era tão profundo quanto o mais profundo lugar no oceano, mais, era profundo como o Universo...

Ele tragou o cigarro com força, queria sentir a cabeça enevoada, queria mudar seus pensamentos usando o cigarro e sua química para isso. Queria poder desprender-se dos sentimentos, deixando apenas a superfície deles. Queria, queria... A rua estava silenciosa, 2 horas da manhã... Ele quase não resistiu a tentação de ir ao quarto e acordá-la. Não, ele não queria trazê-la de volta a esse mundo que ele sabia só lhe causaria dor, não queria o sofrimento dela. Preferia a morte a vê-la chorar. Preferia o inferno, a que o coração dela se quebrasse... Preferia, mas sabia que não seria assim...

Terminou o cigarro. Fechou a janela. Desligou a televisão. Agora a sala era iluminada apenas pela tênue luz da lua que teimava em passar pelas janelas, mesmo com as pesadas cortinas fechadas. A Lua que ela amava... Ela era a Lua...

Ele senta no sofá, hora de ir dormir, hora de deitar ao lado dela e ficar observando os ruídos do sono. Hora de não tocar, em quem ele queria tocar o tempo todo... Fecha os olhos para acalmar todos os desejos. Controle, ele sabe se controlar como ninguém, escapara impune do sentimento tantas vezes. Se precisasse sabia como aquietar o desejo por ela... ele sabia, será que queria?

Ele abre os olhos, levanta a cabeça, uma silhueta na sua frente. A mão abre cada botão da camisa que usa suavemente. Um a um, numa sequência agonizante, cujo final ele conhecia bem, mas nunca se cansava de ver de novo e de novo... A camisa cai no chão, a silhueta dá um passo a frente, agora a pele brilha a luz da Lua, o sorriso ilumina a sala, mas é o olhar que queima, dois pedaços de carvão em brasa... Ela se aproxima, lentamente, mantém a calcinha branca, pequena, delicada, que ele certa vez pergunto se ela usava para ele... Ele continuou sentado, apenas apreciando o espetáculo... Ela se aproximou, sentou no colo dele coma as penas uma de cada lado... Pegou o rosto dele entre as mãos, e percorreu com a língua o contorno dos lábios, ele perdeu o controle... Perdeu-se de vez, mergulhou no corpo dela, no perfume, nos anseios que ela tinha, acima de tudo no cheiro de desejo que ela exalava.

Arrancou a pequena calcinha branca, tocou com seus dedos a umidade deliciosa que ele experimentara de diversas formas. Tantas que conhecia a textura, o sabor e o perfume. Tocou até que ela gemeu, primeiro som, de muitos que viriam... Ele a puxou mais para cima, puxou e se jogou dentro dela... Agora eles dançavam, a luz da Lua, ao som do prazer e a certeza de que para sempre era apenas semântica quando o amor estava em jogo...

1 comment:

  1. Uau!!! Que delícia de texto!!!! Amor e delicadeza na mesma proporção do desejo. Gosto das suas proporcionalidades.... e das desproporcionalidades, mais ainda rs... Adorei!!!!!

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