Tuesday, November 13, 2012

Inferno




Essa sensação absurda de ácido descendo por sua garganta se repetia em todos os amanheceres. Por quê? Pelo simples fato de ser quem era. Suas características humanas haviam forjado uma espécie de ansiedade constante e, podemos dizer, insatisfação também. Ela queria o que todos queriam, apenas estava, ao contrário deles, disposta a arriscar tudo para conseguir. O caminho não tinha sido fácil até então, e se alguém comentava isso, ela respondia com uma pergunta: “existia caminho fácil?”.

Ela sabia que não existia, até tentara atalhos, nunca funcionaram, sempre teve que retornar e recomeçar. Diferente de muitas como ela, que ficavam comodamente em um fingimento de felicidade, ela preferia mergulhar na angústia, tristeza, tão profundamente quanto possível. Enquanto médicos, amigos, familiares, diziam que isso a destruiria, ela tirava desse estado, quase de morte, a força para ressurgir. Haviam-na chamado de borboleta, outros de Fênix, ela era apenas ela, de seu ponto de vista.

Estava de novo naquele estado de desespero. Ontem, num momento de total descontrole, cortara profundamente os braços, as costas, as coxas, e havia ficado olhando, quase incrédula, para o sangue que fluía. Louca. Seu ex-marido sempre a chamava assim, louca, desequilibrada. Talvez, para os padrões da atual sociedade ela fosse exatamente isso. Ela não dava importância. Amigos podiam fazer horas de sermões, a família era mantida a uma saudável distância e o que era importante naquele momento era ela, seu sentir e seus desespero.

Desespero gerado pelo sentimento ao qual ela se entregara de novo, espécie de câmara de tortura a que ela se entregara voluntariamente. Agora pagava o preço dessa entrega. Uma quase loucura a envolvia tal qual a névoa da cidade onde vivia. Aliás, aquele lugar se transformara no inferno para ela. Um inferno bem educado, belo sob muitos aspectos, mas mesmo assim um lugar de dor e desesperança. Ela queimava ali, de desejo, de medo, de amor por ele.

Deixara seu lar há quase dois anos, e fora esse o passo mais difícil que dera na vida: voltar. Voltar para a rotina de uma personagem que ela não era mais, entregar-se aos cuidados de um homem que ela não amava há muito, na verdade tinha um misto de ódio e pena dele; mais ódio, na verdade. No entanto, existia uma terceira pessoa nessa história, infelizmente ela sentia enorme responsabilidade por ele, o menino de comportamento estranho, inteligência afiada, mas repleto de problemas. Incapaz de caminhar sozinho. Assim, ela voltara.

No entanto, desde o dia do retorno, se sentia como um pássaro engaiolado, e da gaiola havia caído no inferno. Ela sorria diante dessas observações, sorria até mesmo quando sangrava. Como disse, era uma mulher muito estranha.

Durante o tempo que estava vivendo nessa caverna de não sentimentos, embalara o sentimento por um homem. Alguém que não merecia o que ela havia oferecido, e que a abandonara com uma vida a mais para suportar. Ela encarara o abandono com a tradicional queda no poço. Colocara a própria vida em um fino arame que cruzava o mais alto canyon existente, o canyon que separa a vida da morte.

A nova vida dera uma razão para não cruzar o vale, só que agora ela ganhara mais um grilhão que a prendia naquele inferno de lugar. Frio, melancólico, repleto de mentiras.

Entre um desespero e outro, ela encontrou uma imagem, uma ponte de sua cidade, do lar. E como fogo em meio a folhas secas, o incêndio começou. Ela, claro, não percebeu, apenas deixou queimar. Afinal, não é porque queima que é preciso morrer por isso. Tolice, ela provavelmente morreria dessa vez. Havia pintado tantos quadros de morte que agora dificilmente escaparia.

Um novo “ele”, um homem único, apenas mais complicado que o normal. Ele era casado, tinha dois filhos e parecia não ter intenção nenhuma de mudar seu estado civil. Ela não se importava com isso, mas à sua volta algumas pessoas se preocupavam. Ela ria e vivia aquele novo sentimento que parecia recíproco. Parecia. De tempos em tempos, ela simplesmente duvidava da reciprocidade. Nesses momentos, lembrava-se do que o outro dizia, que ela tinha prazer na dor. Talvez fosse exatamente isso. A dor lhe proporcionava a certeza de que estava viva, desde que deixara seu amor na beira do estreito cor de safira, nunca sentira a vida novamente, a não ser através da dor.

Bem o novo “ele” era perfeito. Liberdade era sua palavra preferida, não se furtava de sentir nem de dizer o que sentia. Só que agora ela estava no limite, o que começara virtualmente precisava tornar-se real. Ela queria tocá-lo, mergulhar dentro dele. Queria fundir as duas geleiras poderosas que ambos eram em uma, num majestoso choque que revolucionaria tudo em volta. Ela o queria, mesmo que fosse por algum tempo, mesmo que o que ele dizia fosse apenas brincadeira, não importava. Ele lhe devolvera algo, e ela queria que ele lhe devolvesse mais.

No entanto ela estava ali, no inferno, presa. O desespero aumentava a cada dia, e o controle se esvaía. Não dormia, não comia, chorava o tempo todo, olhava pelas janelas com dor e melancolia. Ela o queria, ela queria a liberdade dele. Ela queria sair do inferno e encontrar um lugar na terra, na sua terra, seu... Ela queria... mas não podia...

Revisão de texto: Simone Gomes

2 comments:

  1. Um texto forte, intenso e milimetricamente construído com fios de paixão. Uma paixão que arde e provoca... que dói. E através das palavras o leitor consegue sentir um pouco dessa dor, dessa insatisfação, dessa sede de liberdade. Gosto de textos que misturam sentimentos. Opostos?! Sim. Pode ser. Isso provoca sensações meio imprevisíveis e isso é legal. Gostei demais desse!!!

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    1. :) A vida é repleta de opostos, temos a tendência a recusar aqueles que não queremos, no entanto isso não é possível... eu os aceito.. ela também...

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