Sunday, September 9, 2012

Rafaella



Rafaella era o tipo de mulher sonhadora. Não que seus pés estivessem fora do chão, não, ela apenas gostava de tirar algumas horas por dia para viver num mundo criado por ela. Ali, no quarto, separada de si e ao  mesmo tempo junto, sonhava com castelos, princesas, chalés na montanha e homens que sabiam o que desejavam.

Algumas vezes simplesmente parava em frente a janela e via, não que realmente estivesse ali, montanhas, neve, pinheiros e fogo aquecia a sala onde estava. Ela ainda nunca estivera em um cenário assim, um dia quem sabe... Pensava e sorria.

Algumas vezes, simplesmente vagava aqui e acolá, num mundo irreal de sombras, meias verdades e interrogações. No entanto, ainda assim, sonhava com certezas incertas, amores do passado e desejos do presente. O futuro? Ela guardava em um pequeno armário secreto em na mente, preferia manter tudo escondido, disfarçado de aceitação. Não pense que era medo, era apenas cuidado.

Naquela noite, aliás como muitas outras, haviam estrelas no céu... Centenas de pequenos vaga-lumes, em espécie de dança misteriosa no infinito. Ela olhava da janela, o sorriso que aflorou só ela podia compreender. Era misto de saudade, curiosidade e acima de tudo, certeza que aquele sentimento de ontem, com cheiro de maçã do amor, era apenas isso, misto, sem sentindo, retorno ou esperança.

O telefone toca, ele de novo. De tempos em tempos lembra dela. Como nos lembramos de um velho cobertor escondido no fundo do armário, ou do suéter que fica muitos anos debaixo dos novos que compramos, até que um dia numa arrumação geral, o reencontramos, sentimos o perfume antigo, com recordações antigas e devolvemos ao fim da pilha, sem coragem de doá-lo, mas não querendo usar de novo. Era assim com eles, ela aceitava... Eles conversavam, riam, falavam besteira, lembravam e criavam novas histórias. O telefone desligava e Rafaella voltava ao quarto, às estrelas e ao sonho.

Dormir nunca fora fácil, ou melhor, é fácil, mas complicado. Mais uma vez ela não pode explicar, apenas viver. Fecha os olhos, aperta o lençol no corpo e se entrega ao cansaço do dia de trabalho, faculdade e pensamentos.

Um sonho. Não O sonho... Revirando na cama Rafaella é transportada, um lago, verde, florescendo em seu frescor, recebendo no seu ventre um regato, pequeno e cantante. Não, ela não queria estar ali, era verão. Como seria o inverno? Como no sonho tudo é possível, eis que o Sol esmaece, as folhas se colorem de vermelhos, amarelos e marrons e logo depois tudo fica branco, branco como só a neve pode ser. Rafaella agora grita de felicidade, não um grito exagerado, mas um daqueles gritinhos doces que ela tem de vez em quando. Sorriso rasgado, coração acelerado e, o melhor, ela não sente frio.

Olhando em volta, um pequeno chalé chama sua atenção, ela não sabe exatamente por que, mas lembrou da história de Chapeuzinho Vermelho. Andando pela neve fofa, que ela não compreendia bem por que razão não congelava seus pés, chega a porta e bate. Ninguém, pelo menos não até a terceira tentativa. Um homem, de lindos olhos verdes, cabelos cor de miolo de margarida e sorriso de menino a encara. Rafaella apenas sorri.

Como ela entendeu que ele queria que entrasse, ela não sabe. Afinal, nenhum  deles dissera nada. Ela entrou no chalé, onde a lareira queimava, desprendendo um suave odor de floresta. O tapete branco, as almofadas coloridas convidavam, mas ela escolheu sentar na poltrona marrom, não queria parecer indelicada.

Ele começaram um dialogo, insensato sob muito pontos, pois parecia a conversa de dois velhos amigos, companheiros, amantes. Falavam das famílias, dos amigos, de passeios que deram e de comidas que comeram. Falavam das preferências de cada um, e dos planos que iriam implementar. Falavam do passado e do futuro, no presente que viviam.

Um copo de vinho, um abraço delicado, a mão suave no rosto, naquele jeito de acariciar que ela tanto gostava. Os lábios quentes e a língua com gosto de uvas, um beijo.

Rafaella não lembra quando suas roupas deixaram de existir, nem quando o corpo perfeito dele passou  aquecer o seu. Ela simplesmente brincava sobre o tapete branco, de sentir o que sempre esperar: desejo e amor, nessa mistura equilibrada de razão e emoção. Ela entregava cada pedaço de si, não sem antes pegar cada pedaço dele. Era força, não posse. Era sentir e só isso...

Foram momentos de êxtase. Onde o corpo dela refletia o vermelho do fogo e o dele o branco da neve lá fora. Não havia medo, dúvidas, indecisões. Era amor, ele predominava ali. E eles, num sem parar, fizeram amor por toda noite. Nada de alimento, água, nem nada.. apenas corpos, mãos, bocas e prazer.

Suavemente Rafaella sente o Sol nascer. Ele aquece seu corpo, deixa seus olhos cientes que é outro dia. Sem muito querer ela abre os olhos. O velho quarto, a solitária cama, no chão um tapete branco, a taça de vinho e uma rosa vermelha.

2 comments:

  1. O conto mais lindo que já li na minha vida... Lago, chalé, neve, margarida, maçã do amor, folhas avermelhadas, enfim... tudo que sempre esteve presente em meus sonhos, mas, confesso, nunca no mesmo... Daí dá pra perceber como foi significativo!!! Só Heleny Galati pra conseguir essa proeza!!! Adorei amiga.... Amo você!!!!

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  2. E cada vez que leio descubro algum detalhe que me faz gostar dele um pouco mais... sempre mais.

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