Thursday, May 17, 2012

Arzu



"A montanha era alta, daquelas que se olhava de baixo para cima quase caindo de costas. O topo permanecia, boa parte do tempo, mergulhado em fantástica névoa. O contraste entre o verde e o branco, com reflexos dourados da luz do Sol, fazia tudo parecer irreal.

Aslanı Dağ dominava toda a região sudeste daquelas terras, majestosa mulher em total entrega ao céu e ao rio. Nos dias de Sol intenso, quando a névoa desaparecia, podíamos ver uma nova joia, espécie de astro maior coroando a forte montanha.

Tatlı Sarayı, como era conhecido o pequeno castelo incrustado quase no topo da montanha, faiscava como precioso rubi à luz do Sol, transformando as florestas ao redor, dando cor e significado aos vales e às outras pequenas montanhas do lugar.  Ali, dominando os vales, reinava Suheyl, monarca de Sis Krallığı, bondoso e sábio homem que mantinha a terra fértil, os súditos satisfeitos e a paz com seus vizinhos.

O rei tinha uma esposa, a qual amava demais, Deniz, clara como o amanhecer, os olhos, azuis como o céu em dia de primavera. A doce voz embalava toda a corte, quando por algum motivo se punha a entoar lindas canções que falavam de amor, saudade e desejo.

O coração da rainha doía dia e noite por não ter um filho, um herdeiro para o reino, alguém que pudesse aprender com o rei, e depois tornar-se o próprio governante. Quando a sombra da infelicidade cobria a rainha, a montanha também se encobria, escondendo o precioso Tatlı Sarayı. O povo sabia, então, que a linda Deniz chorava e orava sentada em seu quarto, olhando pela janela para algum lugar onde seu filho se encontrava.

Nesses dias de tristeza, Suheyl descia a montanha e punha-se a cavalgar pelos vales, desesperado e frustrado por não poder dar à razão de sua vida, Deniz, o que ela mais desejava. Durante uma de suas cavalgadas, encontrou uma mulher estranha, vestida de um verde quase transparente, andando.  Não, ele diria flutuando no caminho à sua frente. Com um gesto, ela parou o fogoso cavalo do rei. Nada disse; apenas com o olhar ordenou que ele desmontasse. Suheyl o fez, sem qualquer constrangimento ou ressentimento.

Caminhou na direção da mulher e parou à sua frente. Os olhares se cruzaram, sem que ela emitisse um único som. Ele sentiu o calor tomando seu corpo. As árvores à sua volta se perderam em sombras. Uma antiga canção da Anatólia, tão antiga quanto a própria terra, era entoada enquanto seu corpo se consumia em fogo, gelo e dor. Segundos pareceram eternidade, o tempo perdeu seu controle. A mulher o mantinha cativo, com o olhar negro, no meio do verde que a envolvia. De repente, silêncio.

Suheyl levanta a cabeça, a mulher desaparecera. Apenas sua amada floresta estava ali e o cavalo que permanecia parado a seu lado. O rei montou novamente e seguiu com sua cavalgada, sem, no entanto, esquecer o misterioso encontro.

Ao retornar ao palácio, foi procurar sua pequena Deniz. Ela estava deitada na cama, com o olhar perdido na janela, como que olhando para outro mundo, outro lugar. Ele tocou seu rosto suavemente e pousou os lábios nos dela. A transferência da energia de Suheyl para Deniz foi tão intensa que ambos perderam os sentidos, pelo menos foi o que imaginaram ter acontecido, quando, na manhã seguinte, ambos acordaram na cama de Deniz.

Quarenta semanas depois daquele encontro na floresta, Deniz deu à luz a um lindo menino, com olhos cor de mel, cabelos negros e a pele tão brilhante quanto um dia de Sol. A felicidade da mãe só não era maior que a do pai. Agora, sua amada sorria e ele tinha um herdeiro com quem compartilhar todas as belezas, alguém que um dia iria amar aquelas terras como ele amava.

O pequeno príncipe foi amado, cuidado e educado por seus pais. Aprendeu a respeitar a sabedoria dos mais velhos, a ousar quando o objetivo valia o risco e, acima de tudo, a pensar no seu povo antes dele mesmo. No entanto, o destino tinha algo guardado em seu baú para o agora jovem príncipe. Uma das caravanas que cruzavam o deserto, que ficava ao sul do reino, fora emboscada por ladrões. Então o príncipe decidiu terminar com esse tipo de problema pessoalmente e seguiu para o local.

A luta foi renhida. Os bandidos, bem armados e estrategicamente colocados, resistiram por meses aos ataques da guarda real. A luta era incessante, inclemente, mas no final, o príncipe conseguiu prender ou matar todos os malfeitores. Ao preparar o retorno para casa, o príncipe se afasta de seus homens. Uma tempestade de areia se aproxima. As terríveis tempestades que assolam o deserto são tão ou mais inclementes do que as avalanches nas montanhas de gelo, ou as inundações nos vales irrigados pelos rios. Um homem não sobrevive a elas sozinho.

Apanhado de surpresa, o príncipe Adskhan ora ao seu Deus, sabe que sua hora chegou; a tristeza que sente não é por sua causa, e sim por sua mãe. Para ela, seu pensamento vai, antes de ser engolido pela tempestade. O príncipe não acredita: no meio da tempestade ele vê uma mulher, verde, essa é a cor que a envolve, ele apenas percebe seus olhos negros antes de perder os sentidos.

Passada a tempestade, em algum momento, Adskhan desperta. Incerto se está vivo ou morto, ele levanta e começa a caminhar no meio do deserto. O sol está a pino, e da mesma forma que um tacape, bate no corpo dele, queimando, retirando a preciosa água que o mantém vivo. Caminhando, pensando, desejando ardentemente por um pouco de água e um lugar para descansar, o príncipe sorri diante de seu destino. Não morrera na tempestade, como seu lindo corcel negro; iria morrer ali, seco como as folhas de outono em sua terra natal.

Mais alguns passos e ele cede ao cansaço, ao desespero, a esperança se esvai. O Sol é seu carrasco; as areias, o instrumento de tortura, e a tristeza, o manto que o vai encobrindo, levando a outra terra, distante dali. A mão suave faz parte de seu sonho, olhos, olhos negros, como os que vira na tempestade, estes emoldurados pelo manto azul, diáfano, mas misterioso. Estrelas brilham ao redor daquele rosto, ele tem vontade de tocá-lo, retirar o véu e descobrir o que escondem.

A voz suave, um misto de ingenuidade e sabedoria, entonação de saber e desejar canta uma música que ele não conhece, algo misteriosamente doce... Tatlı, aquela voz lembrava sua casa, a música embutia o verde, o rio, a cachoeira, uma mistura equilibrada desses sons que ele tanto amava. Adskhan ergue o braço, quer tocar a mão dela, mesmo sabendo que não deveria.
A mulher se aproxima e num ato inesperado o toca, a mão dela possui desenhos intrincados, volteios, arabescos, flores, desenhos feitos em preto. A pele macia da mulher faz seu corpo relaxar e a melodia o leva ao sono. Sono sem sonhos, tranquilo adormecer.

Arzu observa aquele homem, tão belo, forte e ao mesmo tempo, frágil. A pele cor de amanhecer, os olhos de um mel quase fluido, os cabelos negros, antes cobertos de areia, agora lustrosos pelos cuidados que ela tivera com eles. A pele repleta de bolhas, queimada, aplacara sua revolta sendo banhada no suave leite das cabras da aldeia. E os olhos, nos olhos ela derramara o puro mel, deixando que ele curasse com seu poder as feridas que insistiam ali permanecer. Foram dois meses de vigília, noite e dia, com algum descanso. Ela não conseguia se afastar muito, a dor que a tomava era tão intensa que retornava ao lado dele imediatamente.

O pai de Arzu compreendia o que acontecia e aceitava. Mesmo que os outros estranhassem seu comportamento, passando a rejeitar sua companhia, evitar olhar para ela e até mesmo proibi-la de ficar próxima às crianças que tanto amava. Era o preço que a profecia lhe cobrava, o preço de ter encontrado esse homem misterioso, belo, moribundo no meio do deserto. Ele, que estava destinado a ela, ela que estava destinada a ele.

Na próxima vez que Adskhan desperta, ele consegue enxergar bem a tenda onde se encontra. Confortável, quase luxuosa, coberta por tapetes e pequenas lâmpadas coloridas. O perfume dela imperava ali, algo entre o da mata e do mar, essa mistura doce ao olfato, estimulante para a alma. O movimento que faz na cama a traz para perto dele, o toque da pele dela na dele traz o desejo ao corpo jovem de Adskhan. Ele rejeita esse sentimento, nunca desonraria a jovem que cuidava dele com tanto carinho e presteza.

Dia após dia, ele fica mais forte, conseguindo se alimentar sozinho, sentar na cama; os primeiro passos foram dados dentro da tenda com muito cuidado. Quatro meses depois de ter sido encontrado por Arzu, Adskhan recuperara toda a energia, o brilho e a lucidez. Estava chegando o momento de retornar para sua casa.

O dia em que ele deixou a aldeia de Arzu foi o dia mais dolorido e triste que ele se recordava ter tido. No entanto, prometera a ela que retornaria em breve. Arzu, como sempre, acenou com a cabeça e sorriu com os olhos.

Duas semanas cruzando o deserto, as verdes florestas, até chegar a sua amada terra. Seus pais, que estavam de luto por sua morte, mal puderam crer no presente que Deus havia lhes dado. Pela segunda vez, Deniz recebia o filho.

Adskhan contou aos pais o que ocorrera e como fora cuidado naquela pequena aldeia no meio de um oásis. Falou da linda mulher que cuidara dele, do empenho, da dedicação e da paciência que ela tivera para que ele recuperasse a saúde.

O rei decidiu então, seguir até a aldeia para conhecer tão excepcional mulher. Montou uma caravana e acompanhado da rainha e do príncipe, iniciou sua jornada de duas semanas até a aldeia de Arzu. A caravana real entrou na aldeia, deixando espantados os aldeões, agora envoltos em todo o cerimonial de recepção de tão importantes dignitários. Logo reconheceram no príncipe o homem que Arzu havia cuidado. O silêncio percorreu a aldeia.

Adskhan dirigiu-se ao pai de Arzu, perguntando por ela. O homem, com a cabeça coberta por um lenço preto, tinha os olhos vermelhos, a pele enrugada e parecia estar preso num mundo escuro, frio, repleto de uma tristeza quase palpável. O velho homem levantou os olhos e contou que após a partida do príncipe, a aldeia revoltara-se contra o comportamento obsceno e lascivo da filha, por mais que ele argumentasse que era o que a profecia previa; eles não quiseram ouvir.  Arzu havia sido queimada viva e enterrada debaixo da grande árvore que ficava no centro da aldeia. A intenção era fazê-la de exemplo para outras mulheres.

Chocado, enlouquecido, Adskhan queria destruir a aldeia. No entanto, seu estado de fúria foi contido pelo pai de Arzu, que disse que mesmo nos últimos minutos de agonia a filha havia cantado a música que cantara para ele. Abatido, com o coração parado, como se este tivesse deixado de existir, o príncipe sentou no chão, ao lado de onde Arzu fora enterrada. Suas lágrimas regavam a terra, seus suspiros movimentavam as folhas das árvores. Seu grito silenciou tudo em volta. O tempo parou, e nessa parada, a mulher de olhos negros envolta em verde apareceu.

Pegou nas mãos de Adskhan e o carregou para dentro da terra. Ali, nas profundezas de Gaia, ele viu sua amada, sentada em um canto, cosendo um manto branco. Nele, diamantes cintilavam. Ela cantava a mesma música. Ele se aproximou e Arzu estendeu a mão para que ele a pegasse. Adskhan a ajuda a ficar em pé, frente a frente com ele. Os olhos dela presos nos dele, as mãos tocando uma a outra. Num gesto, Adskhan remove o véu azul que cobre seu rosto. E o sorriso, ah!, o sorriso nunca imaginado, acaba por trazer à sua boca a única palavra com a qual pode descrever o que Arzu é para ele: “meu amor”

Arzu sorri aberto, um sorriso sedutor. Adskhan se aproxima e a beija, sem pudores, sem medos, censuras ou sequer pensar. O ambiente se transforma, um lento e belo fogo aquece o lugar, o teto é o céu mais estrelado que ele já viu, e a Lua sorri para ambos. Ele a conduz à cama coberta de brilhos, macia e acalentada pelo som do rio que ali passa.

Ele beija Arzu com desejo e agora não pensa mais em refrear o que sente. Ele a quer, não apenas como sua esposa, o que ela já é, mas como sua amante. E ambos se entregam à exploração de suas peles; não há delicadeza, sequer limite. O que existe é o amor primal de um homem por uma mulher e dela por ele. Eles se enrolam, rolam, ele prova as lágrimas de felicidade que escorrem do rosto dela. As mãos de Arzu se detêm no corpo de Adskhan, como uma escultora modelando o frágil barro. A entrega é definitiva, feliz e completa quando ele rompe todas as barreiras que o mantinham fora dela. Eles agora são um corpo flutuando em dor e prazer, desejo e conhecimento. Passam a noite a fazer amor, com as estrelas enfeitando, a Lua compartilhando e o rio os levando de êxtase em êxtase.

Quando o Sol nasce, eles retornam à mesma sala onde se encontraram. A mulher de verde aponta para uma passagem, indicando o caminho que devem seguir. Com o branco véu do casamento cobrindo seu rosto, Arzu acompanha Adskhan.

No meio da aldeia, o rei, desesperado, comanda a busca por seu amado filho. Deniz, sentada debaixo de uma frondosa árvore ora para que ele esteja vivo e bem.  Quando Deniz levanta os olhos, vê Adskhan e Arzu emergirem do lago que alimentava o oásis. Arzu em seu vestido de noiva, Adskhan no mais belo traje que um príncipe poderia usar.

Os diamantes faíscam no véu de Arzu. Uma linda safira, da cor da noite, enfeita seu anular. O príncipe apresenta a todos sua esposa. Aquela que tinha sua vida dentro dele e cuja vida agora estava nele.  Todos ficam maravilhados com o milagre, todos se curvam diante de ambos. As mulheres tocam o manto de Arzu, que a cada toque deixa rolar pequenos diamantes, que são colhidos com sofreguidão pelas mulheres, as mesmas que a haviam condenado. As crianças se aproximam e são recebidas com amor, amor que as transforma, curando as doentes, presenteando a todos.

Arzu e Adskhan montam em seus cavalos e acompanhados da caravana real, seguem para o palácio. Ali, Arzu e Adskhan reinaram por séculos, sem que envelhecessem ou perdessem a saúde. No final, um filho é gerado, Seyhan, que após a partida dos pais para um lugar desconhecido, assume o comando e se torna um dos reis mais sábios, benevolentes e felizes do reino."

Este texto é um presente para minha amiga, irmã, confidente, Rafaella Nolasco.

Revisão de texto Simone Gomes

2 comments:

  1. Coisa mais linda da minha vida...... obrigada pelo presente!!! Te amo demais... e não me canso de ler esse conto. Me tocou tanto que nem imagina.

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