Sunday, March 11, 2012

Desejo





Ele abriu a porta da casa pela manhã. O sol nascia com aquela tonalidade de limão.  Sim, ele sempre achou que limão e laranja eram as cores do sol. Olhou ao longe, e viu que a neblina cobria parte da paisagem. Era um filtro para a luz do sol, como que tentando proteger seus olhos.

Sorriso nos lábios. Aprendera a apreciar esses segundos como se fossem uma vida inteira. No fundo, sabia agora, depois de tantos tumultos, dores e medos, que eram realmente esses segundos que constituíam a vida. O resto era rotina.

Inspirou o ar frio. Sempre apreciara o frio, afinal, nada melhor do que chá quente, a lareira acesa e a mão de alguém tocando a sua. Aquecer e sonhar. Era bem isso que o inverno era para ele.

Suspiro profundo... Como queria que esse momento pudesse ser compartilhado, não com qualquer corpo, mas com aquele que seria capaz de saciar seu desejo e alimentar seus sonhos... Uma espécie de ser mutante, repleto de algo que, cada vez mais, percebia não existir no mundo.

Estava ficando melancolicamente poético. Seria a idade? Não, ele não acreditava que idade e essas “coisas” tinham algo a ver. Muitos pareciam acreditar que o passar dos anos biológicos implicavam na aquisição de sabedoria. Tolice. Sabedoria só se adquire vivendo intensamente, mas a maioria não vive, apenas segue na rotina, como uma manada, talvez até menos, como a folha que se recusa a desprender da árvore e morre ali, sem sentir o prazer de ser carregada pelo vento...

Ele era assim: trabalho, família, algumas saídas de vez e quando, mas nada de se aventurar além do limite dele mesmo. Tomava o mesmo café da manhã. Nunca parava para ver o nascer ou o morrer do sol. Muito menos se importava com as pessoas. Importava-se apenas com aquelas com quem se relacionavam diretamente ou tinham alguma importância.

Os olhos ficaram tristes. O coração diminuiu o ritmo. O silêncio encheu a casa. Sim, ele precisou ficar cara a cara com sua mortalidade para, enfim, perceber o que é ser humano. Viveu boa parte da vida cercado de belezas, mas mergulhado em feiuras, preso em si, sem se ver.

Agora o sol havia espantado a neblina. Ele já podia ver o mundo a sua frente. Sabia que muitos continuavam no mesmo caminhar: de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Uma fugidia, uma enganosa sensação de segurança e de tranquilidade os prendia à vida.

Não. Para ele não era mais desse jeito. Agora sorvia os segundos. Aproveitava o perfume de qualquer coisa, até do cachorro molhado. A gargalhada interrompeu o silêncio. Sim, ele comprara um cachorro. De pelo vermelho, orelhas caídas e que dormia em sua cama de vez em quando. Também adquirira o hábito de falar do que sentia, sem se importar muito com os outros.

Desejos. Seus desejos agora importavam mais do que seus cuidados. Hoje acordara desejoso de um corpo macio, um beijo molhado e um abraço apertado. Daquela que caminharia com ele em direção ao fim de tudo ou ao começo de algo mais.

Vida. Ela a tinha agora plenamente. Tornara-se consciente de sua própria existência, o que não percebera por tantos anos... Fechou a porta. Preparou o café da manhã e sentou-se para ler o jornal. Deu de cara com o anúncio de um livro: o coração pulou, a foto da escritora o atraiu. Seria ela? Sorriu de novo. Iria procurar descobrir mais. Talvez a resposta para seus desejos, sua vida e seu caminho estivessem naqueles olhos negros, no sorriso franco e no jeito de mistério que aquela foto trazia.

Saiu para trabalhar, não, sem antes, deixar uma mensagem no Facebook dela.




Revisão de texto: Simone Gomes


2 comments:

  1. Às vezes dou gargalhada da alegria que sinto quando tem texto novo no "Falando"... chega ser uma alegria infantil... daquelas que te fazem correr pra desvendar o que tem ali, como quem abre um presente com o papel todo colorido. É sempre assim... toda vez. rs...
    Gosto dos detalhes que ligam uma ideia à outra, um pensamento ao outro... como fios mágicos costurando o texto. Esse, em especial, me tocou muito. Principalmente o trecho "(...) como a folha que se recusa a desprender da árvore e morre ali, sem sentir o prazer de ser carregada pelo vento." Enfim... uma leitura gostosa, que baila com a imaginação do leitor. Adorei!!!!

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  2. Uma delícia para quem lê :)
    Isso mesmo ,muitos de nós são mesmo uma folha que se recusa a desprender da árvore e morre ali ,e que nunca irá saber como seria voar ao sabor do vento !!
    Maravilhoso

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