Thursday, February 16, 2012

A porta vermelha



A porta vermelha chamava a atenção, principalmente por nunca ter sido vista aberta. Ela ficava ali, parada em seu estado de contemplação, apenas sendo, sem existir. A porta vermelha da casa branca, no fundo da rua.

Abandonada por todos, ela permanecia quieta. Num silencio respeitoso pela saudade, quase morta para o mundo, totalmente viva em si. As lembranças não a machucavam mais. Ah! Sim, tinha lembranças.

Lembrava de quando chegara ali, ainda sem cor. Fora escolhida pela menina de olhos verdes e cabelos cor de casca de batata. Foi “grudada” ali, presa às paredes que ainda eram cinzas, mas logo depois ficaram amarelas. Ela lembra do amarelo, quando o sol batia eram só reflexos. Naquele tempo ela era a porta cinza, respeitosamente instalada na casa amarela.

Deixava passar a menina de olhos verdes e cabelos cor de casca de batata, o rapaz com olhos azuis e sorriso de lua. Como gostava de se abrir para eles e depois, ao fechar, guardar os segredos do que faziam ali. Das juras de amor, das brigas por causa da falta de dinheiro, dos medos escondidos que de repente apareciam e enchiam o lugar. E ela, a porta cinza, continha tudo, sabia de tudo, os acompanhava. Sofrendo uns dias, sendo feliz em outros.

Viu os dois crescerem, serem pais de alguém. O pequeno menino rosado de olhos verde-azulados que chegou certo dia e encheu a casa de risos, choros e gritos. Que foi crescendo e passando por ela como o vento, mas sempre cheio de carinhos, energia. Quando ele a tocava era alegria.

O menino de olhos azulados também cresceu. A menina de olhos verdes e cabelos da cor de casca de batata partiu de repente, deixando um cheiro de “para sempre” e “sons de sinos” que não mais tocavam. No fim, todos se foram. O rapaz, agora um lindo senhor, para outra casa, com outros como ele. O menino de olhos verde-azulados, deixou a casa para outros.

Eles chegaram mudando tudo. A cor das paredes, agora brancas, e ela ficou vermelha. Foi como renascer, transformar-se em outra. Ela brilhava e acenava para todos. Não havia quem não a olhasse. Foi ficando mais vaidosa. Agora guardava segredos importantes. Música mágica era criada ali, sob sua proteção. Não havia tantos sons de amor, nem de desamor. Apenas um respeitoso e tranquilo tocar do piano.

Em alguns fins de algumas semanas, ela se abria e fechava para a passagem de artistas; eram tantos. E quadros, sons, poemas eram criados e recriados para seu prazer e felicidade. Foram anos de erudição, de consciente viagem a tantas almas.

Agora ali estava. Sozinha. Ele se fora, para outro lugar, distante, inacessível a ela, pois presa ali o que poderia fazer? Assim ela, a porta vermelha sonhava, em ser novamente a companheira dos segredos, a guardiã do caminho de alguém. Quem sabe poeta? Que com as palavras produz sons que tocam a alma.

Sonhado assim, o tempo passou. De vermelha, ela esmaeceu e ficou rosada, como  se a cor se esvaísse junto com a ausência. Não a olhavam mais com admiração e surpresa, na verdade mal a percebiam.

Hoje ela acordou com ruídos novos. Novas pessoas passavam por ela.  A sensação foi de renascer. Foi tocada com pouco cuidado por um homem de olhos escuros e pele muito branca, depois veio outro e mais outro. Sem pensar, sem imaginar ela foi arrancada das paredes brancas e jogada num lugar qualquer. Agora pisavam nela, sem saber o quanto a mágoa a tomava.

Pouco a pouco ela entendeu. Não era mais a porta cinza da casa amarela, sequer da porta vermelha da casa branca. Era apenas um pedaço de madeira, jogado junto com o que não era mais desejado, seguindo ela agora, para um lugar de onde não mais voltaria.


Revisão do texto de Simone Gomes



2 comments:

  1. Nunca havia pensado na vida por esse ângulo... Adorei a "ilustração"!!! Esse "ser" e "transformar-se" frequentes pelos quais atravessamos no decorrer da vida, até que alguém decide que não nos encaixamos mais nos "padrões" sabe-se lá de quê. A própria sociedade exclui, sem pena, quem deixa de "produzir". Todos somos fadados à condição de pedaço inútil de madeira... Reflexão interessante!!! Gostei!!!

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