Friday, February 10, 2012

Deuses



O véu branco, aquele que vêm inesperadamente pela manhã, hoje chegou ao anoitecer. Hélios descia em sua calma diária, mergulhando no mar com resignação, amanhã seria outro dia, nova oportunidade. Aurora o acordaria, preparando o caminho, Selena o esperaria,  nunca com paciência, sempre ansiosa.

Hélios olha com tranqüilidade para o que deixa. A sensação é de enlevo, ternura. O fogo que o queima, serve como alimento a vida ali. E quanta vida existe. Pensamento e imagens o percorrem.

Vê o rio, calmo a princípio, tímido, que ia fluindo, desaguando em outro, onde juntos rumam a superação das encostas rudes e violentas da terra. Olha mais longe, vê outros rios, percorrendo outros caminhos. Uns numa mistura insensata, mas poderosa de doce e sal, frio e quente.

E aquelas montanhas? Unidas todos os dias em oração ao seu renascer. Cumprimentando-o, explodindo em agradecimento a seu calor e luz.  Elas o abraçam, embalam, brincam com ele. Criando jogos de sombras e luz, num equilíbrio entre o mistério e a realidade.

Árvores, milhares, milhões, desesperadas por seu amor, em êxtase em sua presença. Balançando os galhos, sacudindo as folhas, tentando transformar cada oscilar em canção que o agrade.

Pequenos e grande animais. Diana os protege. Usando as belas montanhas, campos e árvores como disfarce. Reinando absoluta no meio deles. Cuidando pelo perfeito balanço entre uns e outros. A rainha, deusa, mulher, acaricia com suavidade e sentimento os que com nela depositam a vida.

Hélios continua seu mergulho. Agora, volta seus olhos às criaturas estranhas. Frágeis, mas corajosas. Pequenas, que parecem gigantes nas modificações que impõe a Gaia. Seriam elas doenças, vírus maculando o que lhe parece perfeito?

Teria Zeus, em sua sabedoria, deixado que infestassem a terra assim? Não, Atena diz, com seu sorriso imaculado e tranqüilo, que são bebês. Eles irão crescer, aprender, ensinar, modificar. Serão os novos deuses daquelas terras, senhores de si mesmos. Construtores, criadores.

Hélios esboça seu último sorriso do dia. É imprescindível que ele dê uma última olhada por aquelas terras. Gosta de levar consigo às lembranças, mesmo sabendo que amanhã serão as mesmas. Era como se a saudade se apoderasse dele quando não podia estar ali. Saudade daquele fluxo, movimento, do dançar dos corpos e das mentes. Saudade.

Olha para o outro lado e vê Selena. Está radiante hoje. Quase ruborizada pela felicidade que explode em sua luz. Trouxe consigo a pequena estrela, um enfeite a mais a sua beleza e pureza. Ela também aprecia aquela terra. Ama com esperança, docilidade, desejo.

Selena lança seu olhar a Hélios. Cúmplices e amantes que mantém a vida e o ritmo daquela terra. Num sorriso mágico, um instante, ambos brilham. Então ele parte e ela fica. Cuidando dos domínios dos deuses, sonhando com o amanhã e desejando que as crianças cresçam, descubram seu caminho e voltem a ser aquilo para que foram criadas. Perfeitos deuses das terras que lhes foram confiadas.



1 comment:

  1. Encantador... Esta foi a palavra que encontrei pra descrever o texto. Um daqueles que instigam uma viagem deliciosa por cores, luzes, sons e sentimentos... Lindo demais!!!!

    ReplyDelete