Wednesday, January 18, 2012

Até o fim



Ela andava pela rua, o dia estava molhado. Não chovia, mas o dia estava molhado, podia ver isso na alegria com que as plantas ao redor, ainda dormentes pelo inverno, sentiam aquela umidade e pareciam sorrir.

Olhou para frente e viu a placa. Não sabia ao certo se tinha sido o dia cinzento e úmido, a placa de SALE ou o perfume de cigarro, apenas lembrou dele.

Há muito não pensava nele. Havia deixado tudo no passado e seguido em frente. Pulado, dançado, vivido, trabalhado como nunca. Até se apaixonado tinha, depois se desapaixonou. Viajou, escreveu mais, viveu mais. Ela era assim, incansável em sua crença, insuperável na capacidade de ir em frente.

Agora os olhos ficaram distantes. Quem a conhecesse sabia que algo a fazia pensar. Não era tristeza que refletiam, apenas incompreensão com a mistura clássica de ceticismo e desapontamento.

Sim, ele a desapontara. Não apenas por fugir de algo profundo, não, isso até poderia entender. Caso isso fosse o caso, mas por ter criado uma fantasia para ela, um cenário que não conseguiu sustentar até o fim. 

Aquela mulher, que hoje caminhava vestida de jeans, botas e um suéter azul, com fones de ouvido cantando, sorrindo, pouco se importando com o que pensavam dela. Tinha um passado muito diferente. Ela viver na prisão, onde o carcereiro era o mais cruel e inflexível que poderia existe, ela mesma.

Foi durante anos juiz, júri e cárcere de sua própria vida. Transformando, mutilando, sabotando deliberadamente todas as suas possibilidades. Como que possuída de inveja dela mesma, proprietária de um ciúme contra a felicidade que poderia sentir. Não se permitia nada, apenas o que era esperado dela. Viveu tanto nesse compromisso de satisfazer a necessidade de outros, munida de desculpas, histórias inventadas e invenções que a levavam a acreditar que aquilo era a única vida possível.

A rebeldia que havia nascido com ela, e fora sufocada durante anos, lentamente foi aflorando. Dia após dia, até que numa explosão de caos e dor a trouxe de volta a realidade de quem realmente era e a vida de antes, aquela que vivera e a tivera, renasceu. Não sem antes cobrar um terrível preço: tempo. A liberdade que redescobrira viera acompanhada de um cronometro. Tempo é o  que ela não tinha.

No entanto, as energias do passado, as lições aprendidas, a pessoa que era e agora voltava a ser; esta tinha a pureza das crianças, acreditava, buscou ajuda e junto com outros começou sua luta quase insana para ganhar mais tempo. Apenas não se prendeu a isso apenas, saiu pelo mundo a procura de mais. Mais ela, mais relacionamentos, mais histórias.

Ah! Ela queria contar todas. As suas, as deles, falar das dores e alegrias, medos e coragem. Falar do passado e presente, especular sobre o futuro. Queria viver muitas vidas através dos pequenos símbolos que juntava na tela do computador. Queria viver.

E assim, munida de esperança, curiosidade e objetivo, rumou para a bela cidade que se debruçava agitada e majestosa a beira do mar. A energia do lugar a preencheu e foi ali que ela o conheceu.

Nada esperava, nada queria, mas aceitou o que ele oferecia. A oferta dele era mais um pedido, Pedido de entrega total, sem limites, sem perguntas, sem futuro, sequer presente. Ela aceitou. Mesmo sabendo que a dor seria grande, mesmo que o medo a acompanhasse nos momentos de prazer que tinha com ele. Ainda que racionalmente sabendo que era mais uma, apenas mais uma. Ainda assim entregou tudo. Corpo, alma, sentimento, passado, presente.

Ela não queria mais nada, apenas ser amada, sabia que não era, mas foi fácil ser personagem daquela estória. Sempre o encarou como alguém que se aproveitava dessa ânsia dela por viver, para conseguir viver também, nunca teve fantasias de que ele a amava. Simplesmente sabia o que ela sentia e isso lhe era suficiente.

Agora, naquela rua cinzenta, da cidade onde morava, ela pensava o que o levara a envolve-la com a idéia de amor. Por que, de forma cruel, ele fizera ela crer que ele poderia amá-la. O que ele ganhara com isso?

Se tudo tivesse continuado como no início, firo, distante, sem palavras ou gestos, ele provavelmente teria obtido muito mais dela. Era só permanecer ali, observando. Observar, isso era o suficiente para ela. Conversar, falar do que sentia, ela era quase ingênua nesse sentido, na verdade não era.

Ela sabia que tinha um valor para ele, e não era como ser humano. O que ela representava eram oportunidades, inúmeras. Um pouco de polidez na rudeza de sua pessoa. Portas e caminhos que se abririam, seu nome mais respeitado pelos amigos. Certa possibilidades que ele não acreditava que surgissem um dia, caso ela não estivesse ali.

Ele despudoradamente a usou. Usou, feriu, quebrou, matou. Ele matou a mulher que existia quando conheceu. Destruiu completamente aquele ser, impiedosamente, impunemente. Sem qualquer piedade, remorso ou dor. Simplesmente pelo prazer de vê-la quebrar. Morrer. Perecer. Ela que parecia invencível a ele, fora destruída por ele.

Sorriso. O sorriso dela apareceu, curiosamente no mesmo instante em que as nuvens deixaram um raio de sol passar. Ela levantou o olhar e viu um pedaço de céu azul. Sorriu de novo. Ah! Ele a destruiu, mas ela não se prendeu a morte, nem ao fim. Como criança que era, foi no fundo de si mesma e com a fé que tinha, buscou no meio das cinzas de quem foi, material suficiente para criar um novo ser.

Agora, ali, naquela calçada molhada, sob o céus cinzento, ela caminhava segura de novo. Apaixonada pela vida nova que tinha. Repleta de planos, com amor para distribuir a todos que o quisessem

Renascera mais forte, possivelmente mais sábia, certamente mais bela e completa. Caminhava com mais tranquilidade agora, com menos ânsia e medo. Os olhos escuros brilhavam de novo, o coração batia apressado e a música que tocava no seu corpo era única.

Aquela mulher, sozinha numa rua da cidade, estava viva e com sua vida iria modificar outras vidas, era isso que importava a ela. Ele? Ainda era o amor que ela possuía, guardado nas lembranças, mesmo que simples fantasias, lembranças do que tinham vivido. Seria sempre assim, até o fim. Um fim que ela esperava estar distante e ocorreria na beira do mar, num dia de sol, quando seu coração pararia e a mente liberta voaria de volta a sua origem.



1 comment:

  1. Escolhi este pra ser o "mascote" do Falando rs... É como um passeio por todos os sentimentos vividos no decorrer dos outros textos do blog. Como quando pensamos na vida enquanto os olhos piscam uma vez... tão rápido... tão pleno... Como se tudo pudesse ser dito assim, de forma leve... até mesmo o que parece não ter nome. Aquele sentimentos mais prolixos, que são sentidos mas nunca "conceituados". Texto maravilhoso, amiga. Me emocionou. Muito.

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