Tuesday, November 22, 2011

Seyhan



Elena sentou no banco da varanda de sua casa. O sol descia no horizonte, estava calor, afinal era fim de verão em Istambul. Do lugar onde estava podia ver os dois gigantes que dominavam Sultanhamed, seu lugar favorito naquela cidade: Hagia Sophia e Sultanahmed Camii. Era inevitável o sorriso,  afinal, fora ali que se apaixonara pela cidade, bem perto dali descobrira o amor. Foi ali que também tudo acabara.

No entanto, Elena não desistira da vida, felicidade, nada. Os planos conitnuaram, com alguma modificação intrínseca, afinal precisava de tempo para que o resultado de seu amor por aquele homem viesse ao mundo, Um tempo que lhe dera a oportunidade de refletir.

Seyhan tinha agora um ano, estava descansando no berço do passeio pelas ruas da cidade que ambos apreciavam tanto. O contraste do cabelo e olhos escuros do menino, com sua pele branca atraia a atenção das pessoas. Todas queriam parar e tocá-lo. Em outros tempos, isso a irritaria, agora, era um prazer dividir aquele ser maravilhoso e perfeito com todos que estavam dispostos a aceitá-lo.

A música que saia pelas portas da sala não era suave. Elena aprendera a gostar de trance, club, até mesmo música eletrônica, não qualquer uma, algumas em particular, principalmente aquelas que lembravam o passado.

O sol deixou o céu de um azul mais escuro, no canto direito podia ver a Lua, este ano era um daqueles em que a estrela estava bem perto dela. Ela pensou: sua Lua e Estrela. Uma lágrima escorreu.

Elena não estava triste, apenas com suave melancolia. Desde que mudara para Istambul não tivera tempo de sentir tristeza, medo, cansaço. Sua vida era Seyhan, a agência de turismo e a representação da empresa que um dia fora sua. O trabalho era intenso e gerenciar centenas de pessoas, dinheiro e clientes era exaustivo, contava com ajuda, claro, mas preferia manter tudo sob seu olhar, principalmente Seyhan.

Elena levantou e pegou um copo de suco de romã, estava com sede. Lembrou de Side, lembrou do Templo a Apollo. Deveria voltar com o menino para aquele lugar, era um lugar maravilhoso,  contar as histórias que aprendera com o pai dele seria uma forma de trazê-lo perto, de compartilhar o tipo de homem que ele havia sido, que era.

Homem. Elena lembra dos planos que fizeram juntos. Construir a casa de frente para o Bósforo. A sala de música, onde ele comporia suas músicas.  extravasando os sentimentos que eram tão contidos nele. A mesa de bilhar, para relaxar com os amigos, o campo de futebol e a piscina que ela gostava de usar para se exercitar. Planejaram as viagens, as visitas à família, conhecer juntos outros países, cujas raízes eram as mesmas. Enfim, ele a deixara muito antes dos planos serem realizados, mas ela os implementara assim mesmo.

A casa estava lá, bem de frente para o Bósforo, com tudo que planejaram. Era uma casa branca, clara, iluminada. Cada detalhe tinha sido pensando para trazer um pedaço daquele país para dentro, sem entretanto sufocar. A sala com sofás ao estilo turco, em tons forte com sua lareira de mármore branco e cerâmica de Izmir. Os quadros que representavam os enigmáticos e intrincados desenhos, muitos existentes no Palácio Topkapı, que visitava de tempos em tempos. Os tapetes que encomendara na Kapadokya, ao amigo Mehmet, cobriam o mármore branco e azul do chão, dando aconhcego e conforto. Tudo era simples, mas caloroso e suas portas estavam sempre abertas a todos.

Os turcos, ela aprendera, não se intimidavam em vistar os amigos. Desta forma, todos os dias, os amigos deles vinham para aproveitar o espaço e brincar com Seyhan. Hülya tinha sido eleita espécie de madrinha junto com Recep. Çiğdem era como guardiã, auxiliando quando era preciso. Ela amava Seyhan profundamente, como se fosse tia dele. Enfim, eles vinham e deixavam amor espalhado por todos os lados.

Até mesmo o tio, que relutou um pouco em aparecer, vinha e brincava com o sobrinho. Como que maravilhado com a descoberta da possibilidade de se ver em outro ser, sentir que algo os conectava. Seyhan parecia saber que Serhat era alguém especial. Sempre que se aproximava o menino estendia os braços pedindo um abraço ou colo. As fotos mostravam como havia conexão entre eles. Conexão de amor.

Elena sempre teve certeza que Seyhan viera para ensinar amor. Ela confirmara a percepção pelo fluxo de amor que ele atraia. O sorriso claro, os olhos cor de azeitonas pretas e acima de tudo um carisma inato, o faziam criança especial a todos.

Elena pensou no pai dele. Ela não queria vê-lo, temia não resistir a tanto dor se o visse. Temia fraquejar e implorar por algo que sabia não existir mais. Assim, ele e  o filho não haviam se encontrado. Certamente o irmão levara fotos para ele. No entanto, ela o conhecia,  preferia pensar que não, que aquele não era seu filho.

O sol acabara de se por. Seyhan chamava por ela. Lentamente Elena levanta da cadeira e vai até o quarto do filho. Pega-o no colo e juntos vão até a varanda. Ela mostra a silhueta dos gigantes, fala sobre Hürrem, Mehmet, o Conquistador, Süleyman, o Magnífico. Conta sobre suas origens, como se fossem lindos contos de fada. Fala do pai, como ele é forte, belo, inteligente, corajoso. Canta para ele músicas que aprendeu no idioma do pai.

Seyhan a abraça com carinho, um beijo no rosto. Eles entram para a casa é hora de preparar o jantar. O dia está terminando, a noite solitária de Elena começava. 

1 comment:

  1. Estou adorando o estilo de hoje... doce, gostoso de ler e sonhar. Bateu até um gostinho de quero maissss....

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