Wednesday, October 19, 2011

Sangue



Acordei de manhã me sentindo estranha. Estranha dentro de mim.  Era como se aquele invólucro não servisse mais, o desconforto era enorme e o desejo era ficar na cama sem mexer um membro, um músculo, nada. Imóvel como se a inconsciência fosse parte de mim.

Não abri os olhos. Sabia que era manhã pelo barulho da rua em frente a casa branca que morava. Toda manhã, lá pelas 7 horas, o tráfego se intensificava. Pessoas indo para o trabalho apressadas, outras levando os filhos à escola. Podia ouvir os roncos do motor, as raras buzinas e o passo apressado das pessoas. Sorri, sem movimentar meus lábios. Pressa, sempre achei os londrinos muito apressados. Correndo como se fossem salvar alguém ou  a si mesmos.

Voltei a me observar. Como estava cansada. Não, não era aquele cansaço gostoso depois de um dia de trabalho. Nem, o mental, após dedicar-se horas, dias, até semanas à solução de um problema.  O cansaço era da vida. Cansei de ter esperança, de tentar entender, cansei de fazer parte de uma humanidade sem sentimento, ligada apenas no dinheiro e poder.

Queria um novo lugar, novos desafios e esperanças. No entanto estava presa ali. Inexoravelmente presa aquele tempo, lugar e pessoas.

Abri meus olhos com cuidado. O frio era intenso, penetrava pelas narinas e deixava os pulmões em dificuldade. A pele estava seca. Primeira coisa que notei, meu nariz sangrava. Havia a mancha úmida no travesseiro, vermelha sobre fundo branco. Sorri de novo, era sempre assim, quando menos esperava algo acontecia para mostrar  quanto eu era sensível a mim mesma e meus devaneios de melancolia.

Relutei terminantemente em fazer qualquer movimento. Continuei parada, o filete de sangue escorrendo e eu pensando: “e agora?

Fechei novamente os olhos e vi a pintura que se fazia. Meus cabelos cor de chocolate, a pele de um creme claro e o vermelho do sangue deveriam fazer um belo contraste contra o travesseiro de fronha branca. Sempre apreciei roupas de cama brancas, acho que devido a facilidade que o branco tem de mostrar suas máculas.

"Bem", pensei, "preciso levantar daqui." Me movimentei devagar, percebi que o lençol também estava manchado de vermelho. Eu sangrava, sangrava como se uma torneira imaginária houvesse se aberto e todo o fluído vital deixado escoar sem barreiras.

Agora o coração bateu mais devagar, bem mais.  Sabia que tudo em minha vida, tudo que desejava se transformara em nada. Qualquer razão que eu tivesse para continuar, a razão que tinha, findara ali. Fiquei olhando para a mancha vermelha que cobria o lençol. Mais, fiquei sentindo o sangue fluir de mim e não tive vontade que parasse. Meu maior desejo naquele momento, quando compreendi que tudo acabara, era que realmente acabasse.

Foram minutos, estranhos minutos. Onde aos pouco fui ficando fria, quieta. Nem as lágrimas se intrometiam naquele silêncio. A sensação era de leveza, como se de sólida passasse a fluida. Lembro de fechar os olhos, não sem antes pronunciar um nome. A respiração tornou-se fraca, lenta, a mente deixou de preocupar-se. Calou.

Eu olhei para trás, para o contêiner que ali ficava. Para o que havia sido aqui. Olhei com calma o rosto, branco, frio, triste. Lembrei da música: “quando minha  hora chegar, esqueça o que fiz de errado e ajude a encontrar uma razão para que sintam falta de mim.

Sorri de novo. Eu deixara algo para trás, deixara uma razão para que sentissem minha falta. Deixara o amor que fora capaz de sentir e tocara cada um daqueles que se abrira para ele.

1 comment:

  1. Muito além do que supunha... as pessoas a quem você toca, nunca mais são as mesmas. Quem consegue contemplar o mundo, ainda que por alguns segundos, pela sua íris, começa a se incomodar com o que via antes e quer ter um pouquinho da sua íris em seus olhos também. Pois não é o mundo que muda, mas o jeito de olhar é que faz toda a diferença... Você é muito especial, espanholinha. Muito.

    Rafaella Nolasco

    ReplyDelete