Friday, October 7, 2011

Fragmentos


Estava triste. Daquelas tristezas compreensíveis, mesmo para quem acredita que amor é invenção e apenas sexo e prazer interessam em um relacionamento. Estava triste, pois o amor que descobri sem procurar, que dividi com você e juntos começamos a criar uma possibilidade de futuro, foi rejeitado por você. Não. Você não o deseja mais como disse, é melhor para nós dois que acabe agora, assim no futuro ninguém perde: nem você, nem eu.

Sentada em um Starbucks em Londres, chorava e me desesperava por simplesmente não compreender. Fui deixada por aquele que diz me amar através de um SMS. Simples, "precisamos conversar", foi o que disse. O tom foi óbvio para mim. Respondi: “É o fim?.” E você: “Tem que ser assim” Liguei apenas para ter certeza e as lágrimas foram tantas que nem consegui falar direito. Sim, para você era simples. Não o era para mim.

Andei como se tivesse perdido a memória. Olhando e apenas passando, sem ver ou sentir nada, a não ser uma dor gigantesca e medo, medo de que  me restasse apenas a tristeza, solidão e esse vazio que você deixara. O caminhar me fez pensar em fragmentos de nossas conversas.

Lembrei a primeira vez que disse: “Amo você.”, o fiz de tal forma que você não entendeu. Depois, quando me afastei com medo do meu sentir, não queria que esse segredo ficasse com você. Nos reencontramos brevemente de novo, só para que eu levasse comigo seu gosto e deixasse algo em você. Acreditei que tinha sido assim, um sonho e agora acordara, mas não foi.

Pouco a pouco, nos aproximamos, conversamos. Até que um dia escapou de mim para você um "amo você" bem claro. Você sorriu e nada disse. E falamos e falamos, planejamos o reencontro, que você me perguntou de forma discreta se seria possível ainda neste século. Lembro de minha resposta, sim é possível, vou te encontrar em breve..

Nesse reencontro, ficamos juntos mais tempo. E pouco a pouco, conhecendo mais e mais o outro. O amor que tinha cresceu tanto que não me via sem você, embora soubesse que não era possível, ainda assim sonhava em ter um lar, uma vida e futuro com você.

E nesse dias, todos que passamos juntos, você dizia pouco a pouco, com gestos, olhares e palavras que me amava, não tanto quanto eu, mas amava sim. Dizia que era impossível entregar-se ao sentimento, pois o medo do sofrimento era maior que o prazer do amor. Dor e você não combinavam.

Falou de como era perdedor, e perdedores nunca saem ilesos de um relacionamento. Falou e falou. Disse tudo que sentia e os medos que tinha. Eu ouvi e discordei, disse que apesar de me chamar de covarde pelas coisa que fiz contra mim, você era mais, pois se recusava a viver.

Desta vez nos despedimos, com você me dizendo, que assim que partisse me esqueceria. Simples assim. Chorei. Não queria ser esquecida, mas nada podia fazer. E fui para longe, do outro lado do oceano, deixei você, nossos sonhos para encontrar meu pesadelo. Lutei. Lutei mais do que podia, devia ou imaginaria ser capaz. Lutei tanto, empenhei tudo nisso e superei, pelo menos para de novo lhe encontrar.

E quando nos vimos de novo. Percebi que agora, que tanto quanto eu, da mesma forma, você queria um futuro, algum abrigo, possibilidade de juntos ficar. E saímos de novo, para nosso mundo particular como você dizia. Só que desta vez foi diferente, pois muita gente dele participou.

Você me envolveu com aqueles que ama, mostrou a família e me permitiu participar. Dividimos a fé, a privação e a comemoração. Vivemos e oramos juntos, mesmo que cada um de seu jeito. Você me ensinou sobre sua fé.  E toda noite, quando íamos dormir você me olhava e perguntava:  “como vou deixar você.” E eu dizia que não precisava, que me deixar era sua opção e você sorria e nada falava, apenas que quem ia embora era eu.

Quando a dor da despedida o tomava. Você  falava das diferenças, da impossibilidade, responsabilidades, dos planos nos quais eu não cabia. Falava de sua vida sofrida, do trabalho sem segurança. Falava das ausências e do ciúme que nos tomava de vez em quando e que ainda estávamos aprendendo a enfrentar.

Falava tanta coisa, sobre como era difícil nosso futuro. Mas também me perguntava se um dia seria um bom marido, um bom pai. Dizia que sim, mesmo que lágrimas me viessem aos olhos e você falava: “por que chora? “ Eu dizia:: “Você faz algumas perguntas só para me magoar.” “Qual?” Surpreso perguntava. "Essa sobre ser um bom marido e pai.” Respondia “Estúpida, eu falava de nós.” E ai me abraçava e beijava, puxava meu corpo perto do seu e juntos dormíamos como  conectados a mesma energia, sentíssemos o corpo relaxar e a alma flutuar para outros lugares, onde junto construímos o futuro.

Mas depois que parti, não sei o que o assustou. Simplesmente um dia você disse: “Acabou.” No entanto continuou a falar comigo, a conversar sobre trabalho, família. Cuidando de mim como antes, mas sem dizer que me amava, queria ou sonhava em me reencontrar. Queria ser meu amigo, nada mais.

Eu tentei, tentei demais. No fundo sabia que isso seria difícil de sustentar. A dor foi crescendo, crescendo até que no caminho apareceu alguém. Ele trouxe alivio, na forma que alivio de dor de amor tem. Me esqueci das promessa que fiz, dos princípios que tinha, mergulhei nisso sem pensar. Apenas queria aquela dor sem fim aliviar.

No entanto, como toda pessoa, que nos outros acredita sem pensar. Fui invadida, manchada, magoada e machucada, até quase da vida não precisar mais.

E naquela manhã, quando a respiração não mais existia. Quando o corpo marcado, quebrado, maltratado ficava ali no sofá preto da sala. A alma flutuava até você, e um suave beijo pousava em seu rosto, na esperança de partir com seu gosto.

Só que mais uma vez, o tempo não era esse, meu corpo inerte, na beira do abismo final, foi sacudido, novamente invadido e transportado a outro lugar. Foram dias, dias de ausência, onde minha alma olhava você a rezar, pensava na única vez que o vira chorar, agora chorava de novo e, novamente era por mim.

Eu queria que você pudesse me ver, tocar e compreender, que eu sem você sou como a brisa sem as folhas de outono. Sou o sol sem as ondas do mar. A lua sem a  estrela. O mar sem o rio. Nada sou, não existo, apenas vou.

Quando os aparelhos que me mantinham forma desligados. Algo, uma força que não sei de onde veio, me empurro de volta. Para longe de você e para dentro de mim. Respirei, meu coração batia, mas a mente continuava fria, vazia.

Algum tempo passou, até que no fim, a mente me acordou. Trouxe-me de volta a realidade, aquele lugar que eu não queria estar e ao abrir meus olhos seu nome foi  o que consegui falar.

E ai percebi, que a solidão que tanto gostava, agora não era amiga, mas cruel carrasco que açoitava com a lembrança de você. Tentei fingir alegria, paz, sentir-me bem. No entanto não consigo, sinto que foi naquele dia, naquele sofá preto que morri. O que tem aqui agora não faz sentido, não tem direção, nem objetivo. Apenas vaga, na esperança que a droga e a dor a levem embora, pois nada restou depois que o amor se foi.

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