Tuesday, August 9, 2011

Deserto



Acordei no meio do deserto. Não fazia calor, sabia que estava no deserto por ter apenas areia, silencio e nada mais a minha volta. O que fazia ali? Por que aquele lugar? Como chegara ali?

Levantei lentamente os olhos, meu corpo estava cansado, do que exatamente não sabia. Dor e imobilidade eram meus atuais companheiros. Estranhamente não sentia medo, apesar de toda incompreensão. Apenas vazio.

Sim. Vazio. Palavra tão pequena, que naquele momento significava um resumo do que sentia. Era como estar preenchida pelo nada. Algo semelhante a inexistência em vida. Meu vazio poderia ser comparado ao mar que não recebe nenhum rio para o alimentar, pouco a pouco vai se tornando estéril, seco, vazio. Mar sem rio, era o que eu era.

Meus olhos primeiro encontraram a lua. Como estava branca, cheia, clara. Parecia me dizer que compreendia minha ignorância. Uma cúmplice no meu sentimento de vazio. A seu lado brilhava a estrela. Assim, apesar de compreender meu sentir, ela não o partilhava, sua companheira a preenchia. Uma brilhava, a outra refletia. E a cada piscar elas me diziam que eu não deveria estar ali.

Fechei novamente os olhos. Não o fechar do sono, fechei-os para poder olhar dentro de mim e procurar a compreensão.  Sempre acreditei que as respostas estão em nosso interior. Mesmo que seja dolorida e exaustiva a procura, mesmo que nos leve a outro caminho ou a mais dúvidas. Os caminhos estão em nós.

Recordei o sentimento de regozijo e felicidade que sentira. Lembrei do toque doce e revigorante do mais profundo sentimento a que um ser humano pode se entregar. Senti novamente o amor. Ele me invadiu calmamente, da mesma forma que o mel escorre e vai se apropriando de tudo. A dor foi dando lugar a paz.

Revi na mente cada momento de entrega que esse amor proporcionou. As noites e os dias de total felicidade. A mente se tocando e os corpos se preenchendo em êxtase e prazer. Acredite, não existe maior prazer do que quando o desejo vai além do corpo, quando ele toma alma e mente.

Senti, sim, senti seu toque. Ouvi suas palavras e acima de tudo percebi seu coração forte, sua respiração ritmada.  Acredite, pude rever o olhar que me dava toda vez que me tomava nos braços e lentamente iniciava suas caricias. Primeiro com os lábios depois com todo você.

Essa viagem foi clareando a mente. Pouco a pouco as lembranças do tempo foram acontecendo. Primeiro a palavra: impossibilidade. Depois o som da porta fechando, me deixando parada no meio da sala em um tipo de suspensão. Como se tivesse tido uma vida e não mais.

Ouvi o carro arrancando. E depois apenas os sons da cidade.

Horas se passaram. Talvez, para alguém como eu, tenha sido apenas instantes, tão estática estava diante do tempo. O telefone toca, um numero que não conheço. A voz também não é familiar. O som, som e não palavras me quebram, contorço-me na tristeza, mergulho no não-existir. Por fim acordo aqui.

Entendo agora, porque meu mundo está deserto e o corpo parece não responder. Parte de mim se foi, a parte mais importante. Sem você a tristeza me conquistou. Pouco a pouco tomou lugar da vida, me atirou aqui onde tenho como eterna companhia o vazio.

Lembrei de que certa vez disse que se você deixasse de existir eu deixaria também. E você me disse que não tenho direito de dispor daquilo que não me pertence. Recordo meu sorriso e comentar que de tristeza também de morre.

Assim, descobri como cheguei aqui. Foi a tristeza que me conduziu. Agora  imobilidade se foi. Posso me mover, levantar. Sigo em passos que parecem um deslizar, em direção a um oásis. Alcanço com dificuldade a beira do lago límpido que reflete minhas companheiras. Toco a água. Toco você. Mergulho.. 

6 comments:

  1. Saudades são tão profundas... Algumas viram uma espécie de órgão dentro de nós, de tão constantes, sentidas e vívidas que são.

    Sempre me reconheço nas tuas escritas, Heleny.

    Bjks grandes.

    ReplyDelete
  2. O que mais me impressiona é a possibilidade de ir de um extremo a outro dentro do mesmo texto... sem cortes, nem saltos... Quase que de forma imperceptível, suas palavras nos levam a sentir tanto a aridez do deserto, quanto os encantos da fusão do rio com o mar...

    Engraçado como através das viagens pelos caminhos e descaminhos que existem dentro de você, é possível reconhecermos os nossos.... alguns muitas vezes nunca trilhados.

    Perfeito seu texto, amiga!!!

    Rafaella Nolasco

    ReplyDelete
  3. E o trecho que mais chamou minha atenção foi: "O telefone toca, um numero que não conheço. A voz também não é familiar. O som, som e não palavras me quebram (...)"

    Esses seus detalhes são uma coisa..... amooo!!!

    Rafaella Nolasco

    ReplyDelete
  4. Lindo de mais mesmo Heleny. É até dificil de se comentar.

    ReplyDelete
  5. Eu sempre me encontro nos teus sentimentos...
    Claudia Mittels

    ReplyDelete
  6. A àgua cristalina do oásis, reflete o brilho das lágrimas derramadas, nas trilhas ardentes do deserto de nossas vidas.

    As lágrimas devem ser alimento e não um tormento, que surge como tempestade de areia e cega nossos olhos.

    Parabéns pelo texto

    MarquesK

    Só o Rock Alivia

    ReplyDelete