Tuesday, May 10, 2011

Rotina



Sentados cada um em seu canto. Eu trabalhando, você se preparando para trabalhar. Mesmo sem ver, podia perceber sua agitação. Pelo sons que fazia de coisas sendo empacotadas, outras descartadas, percebia que algo estava errado. Mesmo assim não perguntei.

Nunca pergunto o que tem, afinal sei que a resposta será: “nada, estou bem" Diz isso para não me preocupar, não deixar meu coração triste pela impossibilidade de ajudar. Nem que seja apenas dar meu ombro para você descansar.

Assim, mantenho silêncio observador do seu ir e vir. No meio desse silêncio você começa a cantar, algo bem divertido e animado, escuto e sorrio. Entra no lugar onde estou e diz,: “essa música lembra meus 16 ou 17 anos.” Respondo com um sorriso: “e todas as garotas que teve naquela época.” Pronto, cometi um erro. Você parece não ter entendido o comentário, sequer sentiu que era brincadeira, levou a sério como cobrança, fechou a porta e saiu. Me deixou ali sem compreender.

No entanto, o que antes me deixava triste, magoada, agora compreendo melhor. Você bateu a porta e saiu, mas iria voltar, Como se nada tivesse acontecido e continuar exatamente de onde paramos. Era algo que havia aprendido sobre você, as vezes precisava de um tempo para acalmar a alma, compreender o sentimento, evitando dor a mim.

Continuei meu trabalho. Escrever. Um livro sobre algo imprescindível, inesgotável, mas tão desprezado ao mesmo tempo. Desprezamos amor quando o tornamos efêmero. Deixamos de creditar o poder a ele, quando antes mesmo de começar lhe dizemos adeus. Desmerecemos o que pode nos oferecer quando vemos apenas uma de suas faces, a mais superficial.

Fico ali escrevendo e pensando. O que será que ele vai fazer? Tenho curiosidade quase infantil sobre como e quando você voltará.

Ouço novamente barulho, você está de volta. Meu coração dispara e penso comigo mesma: “ando me comportando como adolescente.” Dou  uma gargalhada e penso: “e daí!” Continuo a permitir que meu coração dispare e que a vontade de beijar você venha imensa.

Escuto dizer:  “sabe quando estou sem fumar há uma hora ou mais, e sei que não poderei fumar por mais uma ou duas horas, um sentimento de impotência e tristeza me invade. Tem acontecido o mesmo com você. Quero estar com você, mas sei que não poderei por alguns dia, e isso me enche de tristeza.

Ouvi e sorri. Talvez para outra pessoa, ouvir aquela comparação fosse ofensa. No entanto, compreendia o significado. Você tem poucas coisas que aprecia na vida, poucas que lhe dão real prazer, que são suas, apenas suas. E com aquele simples comentário me incluiu nesse rol de coisas que são imprescindíveis e importantes para que se sinta feliz e bem.

Sorri. E nada respondi. Na verdade lhe dei um beijo e meu coração. Fechei os olhos e gritei: “Amo você”

Você sorriu de volta e continuou a embalar suas coisa. De repente para e fala.: “Me promete uma coisa?”  Como raramente me pede algo, paro meio assustada: “Claro!” digo insegura. “Estou partindo, prometa que não vai destilar toda suas tristeza com a ausência me escrevendo coisas tristes?” Sorrio. “Prometera antes que não faria mais isso, e não farei. Prometo.
Então você me abraça e diz: “Amo você, onde quer que vá, você esta em minha mente. Está comigo. Por favor, não faça de nosso amor algo triste e dolorido. Ele não é assim, nunca será.

Fico sorrindo de felicidade. Serena de certeza e nos despedimos silenciosamente com nossas palavras favoritas: Amo você.

E no dia seguinte, quando acordo. Encontro ao lado da cama, uma rosa e a mensagem:  “Estou a caminho do trabalho... A caminho e com você na mente. Amo você.” E meu dia começa perfeito, mesmo com sua ausência.

Sei que sempre será assim. Esse ir e vir, essa distancia se impondo quando menos desejo. No entanto, é ai que está o sentido, para nós a rotina não existe. Você voa daqui para ali, eu de lá para cá e sempre, nos encontramos no nosso lugar, aquele que criamos para nos amar. Lugar que você chama de nosso mundo particular, onde mergulhamos fundo um no outro e deixamos tudo de fora, importando apenas o seu sentir e o meu.

2 comments:

  1. Rotina gostosa de se viver... assim, sem cara de "rotina"!!! Fica tudo tão bom quando somos surpreendidos com felicidadezinhas diárias... É como se fossem borboletas coloridas no nosso jardim... esteja ele preto e branco, sépia ou mesmo colorido. Borboletas no jardim e no estômago... E o amor lá, como protagonista, claro! Lindo texto, amiga!!!

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  2. Belo texto. Bela inspiração.

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