Friday, May 6, 2011

Poço


O sol não nasceu hoje. Acordei é tudo era escuridão. O frio da madrugada se prolongara pela manhã. Espantadas as pessoas olhavam para o céu e só viam as estrelas e a Lua. O sol desaparecera.

E naquela atormentada dúvida, inconsciente desespero de saber por que tudo tinha mudado. Olhei de novo para  o céu. Percebi então, que apenas para mim o sol não nascera.

As pessoa me olhavam com  estranheza, como se eu perdesse as cores. O perfume que exalava era de podridão. Me desfazia em algo que não era agradável. Impiedosamente deixando de existir mas não de marcar.

Como? Como chegar até isso? Onde perdera a razão? Por que deixara a humanidade que me restava desaparecer? Como? Como poderia sobrevier e reconstruir um ser a partir daquilo que estava ali?

Ninguém queria se aproximar, Nada ousava tocar aquele corpo em decomposição. Sem cor, vida, inanimado, ser sem desejos e vontade. Apenas andando como fantasma insólito no meio dos vivos.

E a podridão do sofrimento que me haviam imposto, as marcas de cada ferimento, as cicatrizes antes escondidas, agora deixavam o sangue escorrer. Marcando o caminho. Marcava meu caminho com meu próprio fluido vital. Não percebia.

Desfeita em desilusão atroz, perdida em pesadelos de morte e destruição. Deixara para trás tudo, até mesmo a vida que tinha.  Escondendo-me na caverna escura da autocomiseração,  covardia e inércia. Ali ficava embalada pelos sons de choro e dor , sons que não compreendia de onde vinham. Eram meus próprios sons.

Chocada, parei diante do espelho, a destruição parecia irreversível. O fim era óbvio. Cada molécula que ainda restava aglutinada no formato de algo, parecia desintegrar-se, eu deixaria de existir assim, sem quase ninguém perceber. Essa era ta tal solidão que vivia, aquela que mesmo no meio da multidão vem toma e converte em algo inexplicável e indecifrável.

E o poço se torna profundo demais. Seria alia meu local de descanso? Teria paz naquele buraco imundo, sem fundo, nem luz? O que me espera? A repetição da vida que tive? A continuação? Não sei. Provavelmente este é simplesmente o fim. Nada depois.

Encolhida, quase submergida em meus próprios fluidos, esquecida por mim mesma. No silencio da falsa sepultura. Eis que surge a luz pálida de um pequeno vaga-lume. E o coração dispara, como que tomado de um sentimento que desconhecia, e o poço se abre para que veja o que não percebera então.

Saio, a luz do lado de fora me cega. No entanto vejo que as cores são belas demais. Pela primeira vez percebo que existem possibilidades. Me entrego a busca delas, a sofreguidão da esperança de alcançá-las, curiosa pelo novo olhar que tenho.

Paro de novo no espelho. Vejo agora não apenas a destruição, mas a reconstrução. Parado a meu lado, olhando e sorrindo está você. O pequeno  vaga-lume, que me trouxe a tênue luz. Você que agora me conduz como sol, iluminado cada descoberta, confirmando cada caminho.

Sou eu que escolho, você que acompanha. Finalmente sinto a paz. A multidão não me importa mais, agora o que importa sou eu e meu sentir. Sentir que tenho por mim, sentir que tenho por você.

3 comments:

  1. [O mundo pulsa nos nossos lapsos de tempo, também; tantas vezes desfasado do nosso próprio tempo, o tempo do mundo reclama-nos... mas quantas vezes não somos sua pertença, nem sua condição.

    Esse poço, que nos reclama, para calmamente no guardar na escuridão, é o mesmo que nos mostra a luz, a primeira luz de cada dia no mundo.]

    Um imenso abraço, Helena!

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  2. Dizem que na vida a gente "morre" e "renasce" várias vezes... e renascer sempre dói, já que parto implica dor, como falamos outro dia... Mas confesso que alguns "renascimentos" são tão especiais que fazem valer a pena ter "morrido" um pouquinho...

    Ficou meio confuso o que expus aqui, mas acho que você vai entender. Fênix... isso que você é.

    Veja se conhece essa música, amiga...
    Fênix - Jorge Vercillo
    http://letras.terra.com.br/jorge-vercillo/64709/

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  3. Sou eu que escolho, você que acompanha. Finalmente sinto a paz...

    Você é demais.

    Bjs,

    Théo

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