Monday, May 9, 2011

Nua


Nunca fico nua para mim mesma. Sempre escondo parte do que sou, como temerosa de encarar e perceber que o espelho mente, descaradamente e irrefutavelmente, ele mente.

Me escondo atrás de etiquetas emprestadas de outros. Criando uma imagem fluida de alguém que não sou. Como a fantasia de mil cores e pensar. Vou vivendo assim, na falsa esperança de que a felicidade esteja ali, naquele possuir e ser. Tolice, no fundo da alma escura, no meio da mente conturbada, sei que nada disso é real. Neste caso a realidade é grande mentira.

Ainda recuso a me despir. Deixar me ver límpida, clara, totalmente desprevenida, sinto depender do que criaram, sinto ainda a  tola inconsciência de quem sou.

Caminho vagarosamente em busca de liberdade. Tão vagarosamente quanto a rotina permite. Possivelmente essa é a primeira desculpa que uso, preciso continuar. Não devo me arriscar em vôos mais espetaculares, tenho responsabilidades.

No entanto esqueço que a maior responsabilidade que tenho é comigo. E meu ser onde fica nessa maratona de tarefas, obrigações, deveres.? Onde esconde a criatividade que sempre foi companheira ou o sonho que tanto dava prazer?

Pouco a pouco, minha nudez se esconde na dor. Raramente o sorriso aflora, pois sorrir significa iniciar o caminho para revelar-me. Assim, escondo tudo que sou na aparência do que não sou. Deixando os tolos como eu acreditarem e julgarem, odiando e amando aquilo que permiti que fosse criado.

Não, não desejo mais mudar. Para que? O amor no qual acreditei me fez ver que nada sou. A esperança da transformação não passou de desejo infantil. Devo me assentar bem aqui e sobreviver como todo mundo.

Sobreviver. Essa palavra me martiriza. Não nasci para sobreviver, mas para viver. Tenho essa consciência, por isso rebelo-me, e sou rapidamente subjugada, colocada novamente na mesma posição. Mas a cada rebeldia percebo que algo precisa mudar.

Mudar. Como mudar? Anos e anos de aprendizado sobre mim mesma. Como alterar essa visão quase sórdida que tenho da pessoa que sou. Desgosto pelo que me transformei.

No entanto a mudança estava próxima. Não foi planejada, nada de grandes desafios ou experimentações. Simples como a chuva nas tardes de verão. Chegou e me levou para perto do meu lar.

Ali, parada a admirar as lembranças do passado. Junto ao presente encontrei o que precisava para enfim ser capaz de me ver nua e limpa, clara e eu mesma. As etiquetas se foram, os medos desapareceram, por fim entreguei a mente e o corpo a  algo que havia sido destinada: a vida.

Agora perambulo pelas ruas. Viva. Repleta de curiosidades. Caminho nua, sem fantasias, máscaras. Apenas eu. E o sorriso agora é real. A felicidade foi libertada e o amor, que tanto fugiu de mim, caminha a meu lado na busca do para sempre.

2 comments:

  1. Deus,esta me tirou a respiração...... parece que estou em frente a um grande espelho, NUA! e ainda com alguns rótulos e máscaras que quero deseseperadamente jogar no lixo.... vou refletir muito....

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