Friday, May 13, 2011

Não sentir


Tenho sentido muito sua falta. Sentido demais. Nunca senti falta de alguém assim.” Desta forma você começa nossa conversa. Sinto no tom perplexidade, quase incompreensão. Como pode sentir algo assim por mim? Essa é a questão que passa em sua mente. Quase consigo ver as letras passando por seu cérebro sempre tão precavido e cuidadoso sobre questões de amar.

Lembro quando disse que amar era um problema, afinal machucava e como todo mundo, você não gostava nada disso. Perguntei, com aquele jeito quase sarcástico, por que tinha medo de sofrer, se a dor fazia parte da vida? Me olhou com raiva e disse: “Não é a dor que temo. Daria a vida por uma causa justa. Não tenho medo de ferimentos.  Sinceramente acho essa coisa de amor pura besteira

Puro talvez, besteira, não. Nada fácil falar de amor quando o outro lado está fechado sobre o assunto. Quanto tem declarado sua própria incapacidade de amar. Trancado que está o coração a qualquer sentir.

Você senta a meu lado no sofá, dá aquele tradicional tapa em minha perna e fala. “Nem para meus pais digo que os amo. Meus irmãos, a ninguém. Nunca vou admitir que amo. Eu os amo é verdade, mas se admitir…

Se admitir que ama pode sofrer. Talvez acredite que dê poder ao outro sobre você ou pior, não admite porque teme perder. E não estamos sempre perdendo? Perdendo alguns sonhos, que logo são substituídos por outros. Amigos que mudam, parentes que deixam este mundo. Perdendo tempo com coisas tolas. Perdendo e perdendo. No entanto, ganhando e ganhando. É equilibrio sutil, muitas vezes não percebemos, está ali. Perder-ganhar, ganhar-perder. 

Abro um sorriso e olho dentro de seu solhos. O que vejo me irrita. E falo com voz cortante “Você diz que sou covarde por querer morrer e não ter coragem para isso, mas você não tem coragem sequer de viver.

E saio correndo, furiosa comigo e com você. Comigo por me importar, com você por ser tão teimoso e não querer amar. Fecho a porta e o desejo de que tudo acabe toma conta. O som que ouço é de alguém furioso, querendo conversar. Não quero. Ficamos em um impasse. Alguns minutos de fúria tomam o espaço. Depois silêncio.

Aprendi que muitas vezes é preciso deixar para lá, Não adianta tentar mudar o que não está pronto para isso. E mudar como? Se a mudança é algo pessoal. Acalmo o coração, esqueço o desejo de não ser e continuo ali a observar você.

Passa o tempo. Entre risos e lágrimas vamos caminhando. Às vezes eu desesperada, com medo de não conseguir. Outras você, cansado e querendo não mergulhar tão fundo assim. Mas continuamos juntos, estranho casal.

O amor valta a pauta um dia. Agora provocado por mim que disse que amava você mais que tudo. Que daria minha vida por você sem qualquer hesitação. Falei de me preparar para isso e não o deixaria sozinho, mesmo se partisse. Você olhou com surpresa e de repente pediu para calar. Não queria ouvir que iria partir.

Sorri. Deitei em seu ombro e dormi.

No dia seguinte, andando por um lugar maravilhoso, cheio de natureza e beleza, você brincou comigo: "Amo você.” disse assim de repente. Olhei e sorri. Incredulidade foi o que viu. Sei disso pois, era o que eu sentia. Viu também em meu olhar certo desapego, curioso me perguntou: “O que  foi?” Respondi “Não me importa se me ama ou não. Amo você e isso não vai mudar nunca. Mesmo que amanhã diga para ir, mesmo que viva com outra pessoa, ainda assim meu amor será seu. Amo você e disso EU sei.

Desconversei. Falei do frio e do calor. Do lago e das árvores. Falei dos cães e do que mais gostava naquele lugar: o silêncio. Depois fiquei quieta. Não conseguia dizer nada mais. E você, sempre silencioso, desta vez cantou para mim, música que falava de perda e do medo da perda. Ouvi. Nada comentei.


A noite, no quarto, quando sentia meu corpo bem próximo ao seu, a neve caía lá fora e a única coisa que importava era o gosto do amor que tinhamos feito. Você me beijou os cabelos, fez um carinho no rosto e disse: “Amo você mais do que pensa.

O coração deu batida em falso.  A mente ficou confusa, mas o silêncio prevaleceu sobre a declaação. Como saber o signficado disso? Como entender essas palavras? Queria acreditar que tinha chance de ser amada como sempre desejei, sem restriçoes. Será?


Continuamos a jornada. Seu ir e vir, meu ir e seguir. Algumas vezes confusa, com medo, outras livre sem receios. Falávamos de tudo, eu dizia sempre que o amava e você, você sorria. Até que um dia, descobri sentimento novo, algo que nunca sentira. O que era? Aquela raiva, misturada com tristeza e insegurança? Depois de pensar um pouco descobri: ciúme. Estava com ciúme de você.

Fiquei confusa, sempre fui segura, do tipo, se acontecer o que fazer? Mas lá esta eu as lágrimas apenas por ter visto um sorriso seu. Parou a meu lado, abraçou e disse: "Existem mulheres mais bonitas que você, existem homens melhores que eu. O que importa? Eu sou seu e você é minha."

E parece que comecei a entender,  eu conquistara um lugar em seu coração. Lugar especial. Sorri, enxuguei as lágrimas e compreendi que era sofrer demais por algo que não tinha existir.

O tempo passa, passa rápido quando estamos juntos. Lentamente quando estamos separados. Você sofre. Eu também. A cada conversa falamos da dor de não podermos estar um com o outro. "Odeio você porque me ama demais e eu amo você demais também.” Diz sem eu esperar. Fico muda, pois fica claro o que finalmente aconteceu. A barreira que represava todo amor desapareceu, rompeu e agora você sentia, sofria e pensava se estaria eu ali para sempre como era sonho seu.

E de impossível amor me chamou. De garota má. Menina solitária. Me chamou de sua e disse que nada sou. Falou em contradições de palavras, mas sempre com um unico sentir: amor, amor que decobriu intenso, definitivo e por mim.

2 comments:

  1. Gosto do amor e de tudo que me remete a ele.Compactuo totalmente com a idéia de que não devemos poupar palavras de afeto... dizer a quem amamos o que sentimos... quantas vezes sentirmos vontade de fazêlo. Mas confesso que algumas demonstrações de amor... assim, sem esperar... principalmente quando julgamos não existir, é a melhor forma de sentir um "Eu te amo!" Essa gradatividade da conquista é fascinante!!! Você dá amor, não pede retorno e, por se sentir tão livre, o sentimento do outro encontra espaço pra crescer... até que não cabe mais ali dentro e se exterioriza.

    Incrível sua "síntese" desse trajeto tão lindo do amar e ser amado, amiga... Ficou demais!!!

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  2. Ual!Meu coração está quase saindo pela boca,parece que acabei de assistir um episódio tão esperado de uma novela mexicana rs.
    Consigo imaginar perfeitamente o abrir e fechar dos lábios ao pronunciarem cada palavra um para o outro.
    A Rafa disse tudo!!! Aliás,adoro os comentários da minha primuxa, parece uma balança...ela fala pela razão e eu pela emoção rsrs mas, mesmo assim, nós duas conseguimos sentir a mesma coisa ao ler cada texto,ou melhor, cada capítulo desse romance real,não é mesmo?

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