Thursday, January 6, 2011

Acidente


E foi você em quem me agarrei em pensamento para enfrentar a dor, o tormento que afligia. Pensar que, em algum lugar você poderia estar pensando em mim, desejando que ali eu estivesse, deu a energia necessária para enfrentar o que poderia ter sido o apagar da chama, o findar dos ventos.

Tudo começou ao acaso. Simples, como tudo na vida. A vida é simples, mas o que nos acontece nela nem sempre leva a um caminho simples. Descia tranquilamente, cercada por história, peças magníficas, com cheiro de tempo e de humanos com outros desejos, outros olhares. Descuidadamente mergulhada naquele mundo distante, mais de oitocentos anos de hoje no passado. A abadia era bela, bela demais. A cada curva, cada nova sala, era surpreendida por algo inusitadamente provocador, profundamente tocante.

A caixa de marfim em uma vitrine. A roupa cerimonial em outra. Os vitrais que conduzem a forma de ver e pensar sobre a religião, a política e o mundo. Belo demais. Significativo para alguém, que como eu, quer olhar além do objeto, da história. Desejo, de alguma forma, ver as pessoas que tocaram, criaram e observaram aqueles objetos. Quero o ser humano por trás.

E nessa distração, no mergulho quase infantil nesse outro mundo. Aconteceu algo inesperado. Um pequeno objeto deixado em um local inapropriado cortou minha mão de forma profunda, dolorida e diria, escandalosa. Isso significa que chamou a atenção de muita gente. E me levou a enfermaria do museu.

Algo que preciso dizer sobre os franceses, a maioria aceita falar inglês com você, porém parece que nos momentos que mais precisa eles somem e restam apenas aqueles que quase nada entendem. E foi na dificuldade de comunicação que o problema cresceu. Um simples corte transformou-se em uma crise alérgica gerada por um medicamento usado. O hospital foi o destino final de meu passeio naquele dia.

E depois de medicada. Cuidada. Quase mimada. Me descobri só em um quarto de hospital, desejando profundamente que você estivesse ali. Que fosse sua mão que segurava a minha, não o vento frio. Que meu filho estivesse sob sua proteção e não sozinho em uma sala com pessoas que não o compreendiam.

Fiquei pensando nas palavras que diria para transformar aquele simples acidente, o acaso em algo menos confuso e mais simples ainda. Sempre admirei essa capacidade que tem de simplesmente aceitar os problemas como parte da vida. Esse jeito quase despretensioso de deixar a vida seguir em ondas de felicidade e tristeza, aceitando a ambas sem questionar ou mesmo sentir-se estranhamente marcado por isso.

A cada passo que dá na vida, aceita. Aceita e continua. Supera e é superado com a mesma leveza com que caminha pelas ruas de sua cidade.  Não chora, apenas olha o horizonte com tristeza quando as pedras o levam ao solo. Levanta e continua, pois sabe o quando a vida é preciosa e  importante.

E assim, deitada ali. Foi nisso que pensei. Aceitei o ocorrido com a leveza que me foi possível. Encarei aquilo como apenas mais uma das quedas, dos tropeços, acasos incontroláveis que nos perseguem. Fechei meus olhos e dormi, fui para o mundo onde você habita. O lugar onde sempre posso estar com você, sem limites, sem distancia, sem censuras. E ali encontrei a paz que precisava, para no amanhã continuar.

5 comments:

  1. Heleny, " Fiquei pensando nas palavras " ... Parabéns ... Obrigado ...

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  2. Lindo *-* Uma forma de expressar sentimento tão linda *-*

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  3. Intenso, muito intwenso, Heleny! Há que prosseguir usando as palavras para contar histórias que insistem na nossa humanidade,atualmente tão aviltada...

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