Monday, November 15, 2010

Sem palavras


Acordo sozinha. O quarto frio, inundado pela luz titubeante da manhã. 5 horas. Sempre o mesmo horário. Dia após dia meu corpo abandona o aconchego dos sonhos, a fluidez da inconsciência sempre a esta hora. E ao abrir os olhos o primeiro sentimento é a saudade. Saudade do cheiro de sua pele, do gosto do beijo, das mãos acariciando meu rosto e o bom dia ainda de olhos fechados.

Lembro de como você puxava meu corpo junto ao seu, como se eu estivesse a fugir de seus carinhos. E ficávamos ali deitados, ouvindo sons um do outro, sons da vida. Suas batidas e as minhas misturando-se, criando um ritmo especial de amor e desejo.

Levanto. Começo meu dia. São tantas coisas a fazer. Decisões, escritos, aprendizados. O dia parece passar rapidamente. De tempos em tempos penso em você. Algumas vezes, até ouço sua voz chamando ou contanto histórias. Desafiando a descobrir as respostas das perguntas que me faz. E meu sorriso se abre, pois lembro do seu olhar a me perscrutar.

O dia vai passando e a melancolia começa a se apoderar. Eu luto; bravamente e corajosamente, pois sei que de nada adianta me entregar. E assim, entristecida e feliz, em contradições de sentimentos, percebo que você está ali.

E começamos nossas conversas, você dizendo de seu dia, aquilo que fez, o que planeja fazer. E eu contando sobre o meu. Os escritos, os problemas que enfrentei e os momentos de felicidade que tive. Depois o silencio. Um silencio engraçado, pois mesmo sem nada dizer, com as palavras em suspenso, sei que está ali. De vez em quando um beijo, simples oferecer de um sorriso. Faz o tempo passar com um gozo de sentimento, de vida.

Você me acompanha em todos os lugares que vou. Sempre ali, silencioso, pronto a ouvir. É incrivel essa companhia. Inevitável que deseje estar ainda mais ali.

Hoje o dia foi diferente. Você estava ocupado preparando-se para viajar. Eu ali, quietinha só observando você se preparar. De repente falei: “Era uma vez um homem muito bonito que estava embalando suas coisas para viajar…” E você respondeu: “Ele percebeu que uma linda mulher tinha escrito algo para ele… algo sobre  esse seu viajar...” Eu respondi: “Ele estava indo para lugares antigos, lugares de mitos e sonhos e a bela mulher queria muito com ele ir, mas um grande oceano e o tempo estavam entre eles e era difícil de seguir. No entanto ela acredita que o tempo e a distancia podem ser superados e num curto espaço de tempo, como um piscar de olhos, ele e ela estarão juntos e poderão visitar aqueles lugares.” Ai você disse: “Aquilo que ela acredita é verdade e o sonho está para se tornar realidade.

E essa história me emocionou. Foi a primeira vez que escrevemos juntos algo que falasse de você e de mim Foi tão diferente a experiência que fiquei ali a sorrir.

E ai falamos de outras coisas. Daquilo que lhe dá prazer. Falamos do time que lhe é caro, aquele por quem você disse poderia até morrer. E eu fiquei surpresa com o falar e disse que compreendia sim. E ai você falou: “Não morro por você, mas seria capaz de matar por você.” E pela primeira vez, em todo meu caminhar, faltaram-me as palavras e só o silêncio pode explicar.

Nunca pediria para dar sua vida, pois seria impossível viver sem você. Matar por mim seria o mesmo que permitir a você se perder na escuridão. Mas saber que eu era importante, a ponto de não temer o julgamento, a perda de você, fez com que percebesse porque quando estavamos juntos tudo ficava melhor, mais perfeito. E continuamos ali, a nos fazer companhia, como amigos e amantes que se completam no silêncio.

No fim do dia, você falou: “Tenho que ir. Amanhã acordo cedo, por isso vou partir.” E a tristeza foi grande, não queria deixar você ir. Sabia,  no entanto,  que sempre seria assim, de repente partiria e depois voltaria para perto de mim.


Beijos me invadiram, senti seu corpo contra o meu e depois as palavras, “amo você” e “adeus”. E a conexão se fechou, fiquei ali a pensar como era possível que alguém do outro lado do mar, pudesse se fazer tão presente, me dando tanto como nunca ninguém deu. E ai pensei no que disse, logo que nos separamos pela primeira vez: “Você e eu nos conectamos, alma e mente, um só. Mesmo distante eu estou em você e você em mim.”

7 comments:

  1. Estou seguindo o seu BLOG. Por gentileza retribua seguindo o meu: www.marcossilverio.blogspot.com

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  2. Como sempre, lindo! E eu vivi tudo isso literalmente, por anos, longe de meu marido.Meu marido e eu, ficamos assim, conectados alma e mente, um só. Ele sempre esteve em mim e eu nele. Obrigada. Bjos Heleny.

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  3. Mais um texto brilhante, uma história de sonhos, de entrega, de desencontros, de desapego e de amores..impossíveis e intangíveis!
    Parabéns minha querida amiga.

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  4. Mais uma preciosidade. Parabéns !

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  5. Texto maravilhoso!
    Gosto do simples com sensibilidade e emoção.
    PARABÉNS!

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  6. Linda história, querida Heleny!

    Há momentos que nos deixam mesmo sem palavras... apenas com sensações e lembranças incomparáveis!

    Beijos, parabéns!

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