Monday, November 1, 2010

Criada

Ela caminhava só embaixo de um manto de luzes. Não percebia que era seguida por alguém ou algo, um ser especial que há muito procurava um ser humano como ela. Repetidas vezes ela parou e sentiu a presença, repetidas vezes continuou seguindo para a beira do abismo à frente. Havia tomado a decisão e agora seguia para sua conclusão.

Cada passo era um ano que lembrava. Algo que recordava do passado que parecia distante, mas na verdade tão próximo. Ela era jovem, uma juventuda estranhamente velha, cansada em tão pouco que experimentara. Exausta pela falta de sentimentos a sua volta. Ela parou, levantou a cabeça que mantinha baixa para exergar o caminho. Estaria assim. Seria assim.

Ela há muito esquecera de si mesma. Sempre percorrendo caminhos de outros, andando por montes e enfrentando obstáculos de quem amava e queria proteger. Ela não sabia ser diferente. Crescera servindo, e servir havia sido sua vida até agora.

Voltou a caminhada. Agora ela decidira que escolheria o caminho final. Mesmo que parecesse fuga ou covardia ela desejava libertar-se, ainda que fosse definitivamente. A pouca luz que a iluminava refletiu em suas lágrimas e ele percebeu.

Não, pensou ele, ela não poderia desistir agora. Tão perto da metamorfose final. Próxima de ser plena e completa. Como impedir uma decisão? Qual a forma de transmutar tanta solidão e desespero em alimento? Ele pensou em tudo que poderia fazer. No poder que tinha. Entretanto ponderou também as consequências de invadir. Ficou parado por instantes. Instantes que a levaram um pouco mais perto do final e um pouco mais distante dele.

Apressado voltou a acompanhá-la. Queria muito secar aquelas lágrimas. Abraçar o corpo sofrido e principalmente acalmar a alma dolorida. Ele queria dizer as palavras que ela esperara a vida toda. Queria falar de sua beleza, inteligência e acima de tudo do carisma que possuía. Mostra a ela o quanto realizara na vida, o quanto tocara e como era importante que continuasse ali, com ele.

O que fazer? Ela se aproximou da beira do abismo. Um copo, alguns pequenos círculos brancos. Ela parecia disposta a dar o passo e atirar-se dali. Cair no vácuo do esquecimento. Deixar que tudo a vencesse.

Alguns momentos de hesitação. Foi o suficiente para que ele se aproximasse mais. Que os sonhos que a haviam acompanhado passassem em sua mente como um combustível. Ela relembrou os desejos e sonhos da criança que nunca a abandonara. Reviu os planos da adolescente que precisou crescer rapidamente para sobreviver. Viu tudo de novo e sorriu.

O sorriso o deixou perplexo. Seria possível? A decisão iria se modificar?

Ela olhou sua mão e a água no copo cintilou. Mas o que viu não foi a transparência. Viu um azul profundo, sua cor favorita. Viu o movimento de barcos de um lado para outro. Pessoas apressadas. Calor. Sentiu o cheiro do mar. Perplexidade.


Olhando com mais cuidado,viu a torre dourada banhada pela luz do sol, fincada no meio de todo aquele azul. Sentiu que conhecia o lugar, ele estava em seus sonhos desde sempre. Nunca compreendera que aquele lugar existia. E agora estava em seus sonhos de realidade. Onde ficaria? Por que era sempre ali que ela acabava? Perto daquela torre, a beira daquele mar?

E a decisão mudou. Deixou o copo na mesa. Abriu o computador e escreveu: Tower and sea. Torre no meio do mar, era assim que ela a chamava. Procurou por uma hora até que encontrou exatamente a imagem de seus sonhos. Agora era real. Ela existia.

Torre de Leandro. Um lugar antigo, perdido no meio do Bósforo. A cidade: Istambul. Como poderia? Quem havia lhe dito sobre aquele lugar? Quem havia lhe mostrado aquela imagem? A criança não lembrava, nem a  jovem. A mulher há muito não compartilhava de sonhos com alguém. Assim, ela surgira do nada e a assombrara desde sempre. E agora aquela sombra fantasmagórica de suas ilusões estava ali: real e concreta. Bela e provocativa.

E ela decidiu. Que se o caminho tivesse que mudar seria para levá-la até a torre e descobrir por que sentia ser ali seu lugar.

Há tempos não tomava uma decisão. Foram décadas de aceitação. Entretanto agora ela teimaria, lutaria e conseguiria. Não pensaria em nada. Não seria lógica, sensata. Sequer pensaria no futuro e em como chegar ali. Ela simplesmente seguiria o caminho que parecia lhe ter sido destinado.

E lá foi ela. Sozinha. Feliz. Isso, estranhamente feliz, retornando a casa que nunca tivera. Encontrando um lugar que compreendia ser seu. E caminhou ali. Sorveu cada pedaço de lembrança que tinha e não sabia de onde vinha. Tocou em tudo que pode. Entrou nos lugares mais distantes e complexos. Lembrou de quem era. Aceitou quem era.

E foi ali, na beira do Bósforo, perto da torre que não conheceu. Que ela o encontrou. Ele que a acompanhara a vida toda. Ele que sempre estivera ali. Ele que quase a perdeu para a decisão. Ele a tomou e completou. Ele a invadiu, possuiu e foi possuído por ela. Ele e apenas ele agora preenchiam sua alma.

Ela estava completa. Ele se completara. E o prazer que ele sentia em compartilhar com ela era impossível de ser contido. Ele queria dividir o que sentia com outros. Queria mostrá-la como sua parte e sua expressão. Contar que fora ela a escolhida, a deseja e esperada. E que agora tudo poderia ser diferente, pois ela compreendia. Ela sentia e assimilava. Ela era ele e ele era ela.

E naquele azul intenso, brilhando infinitamente sob a luz da estrela mais próxima. Sob o calor de Hélios e a bençao de Boreas, Eurus, Zephyrus e Notus, eles iniciaram uma nova era. Onde somente o sentimento maior prevaleceria. Onde apenas, e tão somente, ela seria ouvida, compreendida e modificada. Onde o que viria dela seria o fruto de um novo amanhecer. Eos estava feliz. Agora as manhãs seriam esperanças reais.

E para ela o mundo se abriu. Todos ouviam suas palavras. Ela se encontrara e seguiria a fazer o que estava destinada. Escrever, é para isso que fora criada.


8 comments:

  1. Suspirando aqui com essa história... tudo o que você escreve toca meu coração!

    Passar por aqui é certeza de boa leitura e excelente reflexão!

    Beijos, querida!

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  2. A criada! Que criatura incrível é você. Amo ler o que escreves. Você, como disse Tatiana no comentário acima, você toca o meu coração ... E eu completo: -- Toca também a minha alma.

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  3. Lindo! Sublime! Real! É você, essecialmente você! Que se descobre, se despe e nua se encontra no seu escrever, nas sua histórias! Enfim, fico as vezes a perguntar, como alguém perdeu você?

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  4. Boa tarde, permita-me...
    Pegar na tua mão e aceitar que me mostres o labirinto literário recheado de emoções criado com sutileza pela tua imaginação. Jogas com este teu jesto simples um sapo na água e com certeza o fez feliz!
    Obrigado por mais esta doação!
    Paz ao teu coração e sejas feliz!

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  5. Talento para expressar sentimentos,emoções,permitindo que eu feche os olhos humanos,para sentir com os olhos da alma,é seu privilégio,Heleny !! O meu, é o de poder compartilhar tudo isso !!
    bjbj

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  6. Lindo , Voc~e é fascinada por Istanbul !
    Nélio Roças

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  7. Não tenho palavras lindas, inteligentes,etc; que possam expressar o que sinto ao ler seus textos, simplesmente lindo!

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