Tuesday, November 9, 2010

Banco

Pela manhã, em um banco da praça ele sentava para ler o jornal. Eu passava e olhava. Ele me retribuia o sorriso. Um dia decidi parar e conversar.

O habito se fez. Depois dos 5 km de corrida, na volta de relaxamento, eu parava e  conversávamos. Era aposentado, 78 anos, e ainda se indignava com coisas que lia no jornal. Gostava de falar de política, mas o que nos uniu mesmo foi a literatura.

E toda manhã ele saia com um título novo, autor novo. Parecia que encontrara alguém que lera muito mais que eu e com uma memória excepcional. Era delicioso ficar ali aprendendo: Emrson, Thoreau, Twain e tantos outros, Goethe, Akhmatova. Foi curisoso quando soube que iria a Turquia, me trouxe algumas informações que “pegou” na Internet. Só então fiquei sabendo que também era fanático por tecnoliga.

Em nossas conversar nunca havíamos sido pessoais. Sempre literatura, política, arte, a vida era nosso tema, nunca nós.  No entanto, após dois anos de conversas, era inevitável que um dia o pessoal entrasse em pauta. E falamos de nossas vidas. Do que eu sofrera e ele também, principalmente depois que ficara sozinho sem seu alguém. Falou dos filhos, dos quais tinha imenso orgulho, do passado e do presente. Falou dela com saudade e amor.

Sergio, esse é seu nome, tem três filhos, os quais formou com o trabalho de engenheiro. Dois médicos e um engenheiro como ele. Os médicos moram nos Estados Unidos, o engenheiro logo ali. Ele preferiu viver sozinho em sua casa, contando apenas com uma arrumadeira três vezes por semana. Não queria alguém o dia todo dentro bisbilhotando e atrapalhando sua leitura.

Gostava de um bom vinho, de preferência italiano e acompanhado de boa música. Um blues suave ou intenso, dependia do dia e do sentimento. Toda tarde sentava-se em sua poltrona preferida e saia a pesquisar sobre o mundo. Navegava, conversava e criticava, tentado resolver tudo.

E nas manhãs, bem cedo, ele ia para a praça. Sentava, abria o jornal e ficava me vendo passar. 5 voltas depois, uma hora e 15 minutos depois, ele ansiava por nossas conversas e algumas vezes pela  xícara de chocolate que compartilhávamos ali, numa confeitaria próxima.


Como apreciava aqueles momento. Quanto aprendia e ensinava. Sim, ele nunca se negou a aprender comigo. Nunca disse que sabia tudo, pelo contrário, acreditava que eu podia lhe dar um pouco de luz, esperança e futuro.

Um dia, passei ali na minha primeira volta. Sergio não estava. Pensei: “deve ter viajado ou quem sabe pegou um resfriado.” Meu dia ficou incompleto, e o coração preocupado.

Uma semana e nada de Sergio voltar. Nunca havíamos trocado e-mail ou telefones. Assim, só me restava esperar. Numa quinta-feira, dei minha primeira volta e vi alguém sentado no mesmo lugar. Sorri, mas ao me aproximar percebi que era outro olhar. Confusa, continuei a correr, pensando: "estranho parece que já vi aquele indagar. Quem poderia ser? Aquele homem, jovem, tristonho, sentado naquele lugar."

Curiosa como sou, parei no final e perguntei. Descobri que era o filho de Sergio, Luiz, que ali estava procurando por alguém Procurava uma mulher, que durante algum tempo fora amiga de seu pai. Uma mulher da qual ele apenas sabia o nome e o lugar, nada mais. Na verdade, como disse, sabia muito. Sabia tudo que seu pai dela falava. Das conversas sobre livros, política e vida, dos momentos de troca e do chocolate logo ali.

E eu sorri. Dizendo: “Sou eu! Como está seu pai?” E o olhar me disse, muito mais que as palavras. Sergio não existia mais.

Meu coração ficou vazio de repente. Sempre achei estranho esse momento, onde percebemos que nunca mais iremos encontrar aquele que nos é importante. Um amigo mesmo que distante, que nunca mais irá se achegar.

E Luiz e eu fomos a confeitaria. Sentamos em silêncio e dividimos o pesar. E apesar da tristeza, da melancolia do coração a chorar. Tocamos nossas mãos, olhamos nos olhos e um sorriso brotou. Seria aquele o começo de algo que Sergio plantou?

12 comments:

  1. VC SEMPRE ME FAZ CHORAR!!!!!!!!!!!!!!! BJOS LINDA HELENY.

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  2. Eu amei!!
    Sempre amo suas postagens!!
    Muita luz pra ti sempre!!
    Sou sua fã nº 0... pq nº 1 tem vários!! rsrs
    Beijos linda!!

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  3. Ahh q lindo!!

    Como dizem... O importante não é a quantidade ou o volume de bens materiais q vc adquire ao longo da vida.. E sim as conquistas e as amizades q vc consegue carregar.
    Amor gera amor.
    Amizade gera amizade...


    E vc, fará falta para alguém?

    Bjxxx

    @Vampireska

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  4. "Sérgio não existia mais", essa expressão me parece inadequada para essa bela história. Meus parabéns pelo texto!

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  5. ...MUITO LINDO !!!!Adorei, Heleny !Em poucas linhas,muita emoção .É assim...nossas vidas repleta de energia,valores,amor...muito amor !!
    bj
    Sandra

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  6. Leio, releio e repenso sobre cada palavra do seu belo texto, que me ressoa como uma espécie de ode à amizade benevolente e desinteressada, entre duas pessoas que se encontram, se reencontram, se desencontram, mas não se esquecem, jamais.

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  7. Lindo! Retratos da vida em que existe a compreensão desapegada, o amor ao próximo e ,pricipalmente, a amizade do fundo da alma que cada dia que passa está ficando cada vez mais distante!
    Mais uma vez rendo-me a vc!
    Abs

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  8. Que linda história, Heleny!
    Fiquei tocada, de coração... muitas vezes provocamos mudanças na vida das pessoas, cujo tamanho e proporção nem podemos imaginar!
    Belíssimo, parabéns!
    Beeijos!

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  9. Bom dia, permita-me...
    Dizer que o que li aqui é muito lindo!
    Que não farei comentários, pois a lembrança do meu Ícaro não permite que isso aconteça.
    Na verdade engasgado desejo agradecer a doação.
    Paz ao teu coração e sejas feliz!

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  10. Nossa , maravilhoso, como você consegue me tocar dentro da alma *-* Perfeito

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  11. nossa... que lindo... literatura tbém é simplicidade, boa narrativa e um conduzir o leitor para dentro do texto.. lembro de Mário Quintana falando sobre o poema, e se aplica tbém a crônica, etc.. "Um bom poema, não é aquele que lemos e nos emocionamos, é aquele que parece que ele esta nos lendo. " coloquei anonimo, mas sou a @ireneafonso do twitter... bjos linda... lindos textos..parabéns..

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  12. Lindo texto expressa muita emoção, e nos indaga se existem ainda essa verdadeira amizade entre as pessoas...

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