Friday, October 8, 2010

Por que não liguei?


Nossos dedos tocaram-se. Um último beijo na porta do táxi. Eu voltava à minha vida. Você ficava na sua. Compromissos impediam de passarmos mais tempo juntos. Suas últimas palavras foram:  “Liga

Segui sozinha. Retornei ao abrigo onde passara as primeiras noites sem você. Deitei na cama e chorei. Era sábado. Resolvi ficar e não sair. Repassar alguns textos, navegar na Internet, conversar com amigos, mesmo que virtuais.

O almoço chegou no quarto. Resolvi experimentar. Em minha solidão precisava acrescentar um pouco de aventura, mesmo que fosse do paladar. Almocei tranquila, assistindo tv, mas de tempos em tempos pensava em você.

O que eu sinto? Questionava. Quais as sensações que invadem? Tristeza? Compeensível, estamos nos separando, aquele que descobri ser a outra parte de mim se afasta. Insegurança? Sim, para onde vou? Onde este caminho me levará? Confusão? Por que agora? Nem antes, nem depois. Agora, neste momento absurdamente complexo. Quando ainda estou no caminho antigo que tanto queria deixar para trás, aparece um caminho novo que agora desejo seguir.

Lembro de você parado ali. O jeito era de quem queria seguir junto. Mas, por que você não disse? Não me pediu para ficar? O silêncio foi interpretado como: “Tudo bem. Pode ir.” E acreditei que não precisava de mim. Que tudo fora apenas um tempo. Interrupção na rotina.

Decidi me manter longe. Tão longe quanto podia. Mesmo sabendo que você estava ali, ao alcançe de um toque, fingia que não importava. Todo dia era você que eu sentia. Todo instante era em você que pensava. Esperava um chamado. Quem sabe um bilhete. Mas o silêncio continuou e tive que entender que era para sempre.

No domingo fui a torre. Subi até o alto. Fiquei pensando onde você estava. Olhei em todas as direções. Procurei em todos os lugares. Nada via, só senti você lá.  Andei sozinha por ruas desertas, como se quisesse me testar. Ver até onde minha tristeza podia me levar. E ela me levou de volta ao meu lugar. Aos gigantes que diziam:  “Venha, sente-se e nos observe a lutar."

Andei por tudo. Fui até onde você me deu a lua e a estrela. Fiquei ali a imaginar. Pensaria em mim? Perceberia meu sonhar? Onde estaria agora? Com quem a passear? E fechei os olhos, desci a rua, passei em frente ao Baazar. Tudo era silêncio, era eu ali sozinha como que a lhe procurar. Andei muito, cheguei a uma praça. Decidi descansar. Escolhi um sorvete, um sabor que a você me fazia lembrar.

Continuei a caminhada. Provando sua lembrança, pensando como seria bom lhe beijar. Passei pela mesquita. Subi a rua íngrime cheguei de volta ao mesmo lugar.

Entrei em Ayasofia, sentei na escada escura, discreta, despida e fiquei ali chorando de saudade, tristeza, de desejar. Pensei que tudo acabara instantes depois de começar. Deixando em minha boca um gosto de quero mais.

Retornei a meu quarto. Voltei a chorar. Dormir abraçada a você, foi esse meu sonhar.

Acordei fui para a ilha. Bem no meio do mar. Olhei as belezas, sorvi o ar, andei a caminhar. Subi ao topo e de lá se avistava todo lugar. Pensei em nós dois morando ali, numa casa à beira mar.

Voltei, era tarde. Pensei em ligar. Mas o medo de não ouvir ou ouvir: “Deixe para lá.” Me fez desistir antes mesmo de tentar.

Sentei na cama. Pensei em chorar. Entretanto percebi que de nada iria adiantar. Assim, desisti e resolvi continuar. Fui andar pelas ruas conhecer o seu lugar. Andei muito, vi tanta beleza que deu vontade de ficar.

Finalmente o desejo tomou seu lugar. Liguei e você me disse. “Não vou hoje lhe encontrar. Se quiser pode ser amanhã, em outro lugar. Espero você lá e ai podemos conversar.

Fiquei triste, ao mesmo tempo feliz. Afinal eu iria lhe ver. Ouvir sua voz, encarar seu sorriso, mesmo que não pudesse tocar.

O dia passou lento, a noite sem fim. No dia seguinte me ocupei de comprar coisas para mim. Chegou à tarde, a hora de lhe rever. O coração disparado e a mente cheia de idéias do que dizer a você.

Cheguei cedo. Hábito meu. Você não estava e pensei: “Ele não vem, serei só eu.” Mas você chegou. Olhou com raiva, quase ódio. Não me tocou apenas disse “Alô.”  e me convidou a seguir. Silêncio foi o que restou.

Andei a seu lado sem questionar. Procurando não falar. De você vinha energia que não conseguia explicar. Sentamos. Um çay. Perguntas sem respostas. Medo sem compreensão. Foi duro. Áspero. Me fez chorar. Eu não entendia por que tanto rancor, tanta mágoa. E então você disse:  “Amanhã você vai e nós perdemos três dias. Por que não me ligou?” E a única explicação era meu medo de incomodar, receio de invadir, de impor. Não liguei por amor, pensar que não tinha lugar.

Olhei em seu olhos e percebi que você iria me perdoar. Saímos e de repente você pegou minha mão. Perdoou a tolice. Desculpou meu medo e abraçou. Éramos nós novamente, mesmo que por breve instante, pois aquele seria  o último ficar.

4 comments:

  1. Parece que eu gosto de tudo que escreve. É muito lindo.

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  2. Lindo como tudo o que escreves...
    Parabéns é pouco para você.
    Beijos e obrigada por ser minha amiga.

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  3. A paixão parece aposta na bolsa de valores. Toda atitude é um risco. As vezes comemoramos o momento, as vezes choramos as derrotas. E no balanço do investimento o coração contabiliza as perdas.

    Parabéns pelo texto.

    MarqiesK

    Só o Rock Alivia

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