Friday, October 8, 2010

Olga


Todo dia, no caminho que me leva à praça onde corro, passo por um casal de sem-teto que dorme ao lado do muro de uma escola. Cena comum em nossa cidade, nosso país. Cena a qual muitas vezes viramos os olhos e fingimos não ver. Pouco a pouco nos habituamos a ela, como se fizesse parte da paisagem, da natureza.

Minha atenção sempre se volta para eles. Primeiro porque do outro lado da rua tem uma igreja. Depois pela organização e higiene do local onde dormem. Alguém ali preza para que tenham o mínimo de dignidade. Alguém se preocupa em dobrar às roupas, manter os utensílios usados para alimentação protegidos. Pentear os cabelos e cuidar dos dois cães que à noite dividem o calor com eles.

Olho e penso. Como mudar isso.

Passo ali cinco vezes por semana. Sempre na esperança que finalmente eles tenham encontrado um lugar, esperança ou solução. Olho para a igreja e penso: por quê?

Nunca os vi frente a frente. Quando passava, às 7 horas da manhã, eles dormiam, enrolados com a cabeça coberta. Só percebi tratar-se de um homem e uma mulher pelos objetos que os cercavam.

Hoje seria diferente. Após a corrida, por volta das 8h30min, descia a rua ouvindo Dilli Düdük de Tarkan no Ipod. Suada, cansada e dançando ao som de Tarkan. Olhei para o céu e este estava cinzento.

Quando baixei meu olhar, vi uma mulher subindo em minha direção. Sua aparência dizia que deveria ter entre 55 ou 60 anos. Magra, com roupas simples, mas nem sujas ou rasgadas. O que surpreendeu foi o sorriso e o bom dia que disse a mim.

Aquele bom dia transformou aquele céu cinzento. De repente olhei de novo e o sol se insinuava através de brechas da mesma forma que aquele sorriso. Parei. Precisava saber quem ela era.

Perguntei seu nome: “Olga”, disse de forma simples. Olga, um nome de origem nórdica e que significa santa ou sagrada. Interessante como algumas coisas são inexplicáveis.

Olga era a esposa de José. Pedreiro e doméstica desempregados. Era eles o casal que dormia toda noite junto àquele muro amarelo. Toda noite ela preparava o lugar para dormirem. Catava no lixo da vizinhança caixas de papelão e jornais para forrar o chão, depois pegava os lençóis, que sobraram de outra vida. Ajeitavam-se e dormiam ali. Quando chovia buscavam abrigo debaixo de alguma ponte. Dentro de um túnel que havia ali perto. Escondiam-se das câmeras e arriscavam-se a morrer intoxicados pelos gases.

Olga falava bem. Tinha a voz calma, suave. Um olhar inocente, estranho no meio de um rosto tão marcado. Falou da saudade de cozinhar em um fogão. De ter uma cama mais macia, um chuveiro para o banho. Explicou que queria ter filhos, mas agora não achava justo colocar mais alguém ali para sofrer. “Filhos?” Perguntei “Quanto anos você tem?” “28” Olga respondeu. 28 anos! Parecia muito mais. Parecia muito mais velha que eu. 28 anos transformados, uma jovem que envelhecera pela vida nas ruas, pelo sofrimento das perdas e da miséria que não compreendia.

Todo dia Olga batia de porta em porta pedindo emprego. Sem endereço e referência, isos era impossível. Algumas vezes conseguia algo temporário em algum lugar, mas durava um ou dois dias apenas. O mesmo ocorria com José.

Me despedi pensando. Tanto a fazer, a corrigir. Como alguém com tanto a oferecer acaba ali? Ao lado do muro amarelo da escola. Em frente a igreja. Em um dos bairros mais luxuosos de São Paulo. Como alguém com tanto no olhar, na mente e no coração enfrenta todo dia aquela situação?

E aí me lembro de outro José. Sentado num canto da praça na qual sempre passo. Sentado como se fosse um monte de lixo. Cheirando a morte, desilusão, a desespero. Alguém, que desistiu de sua humanidade. Esperando naquele canto a morte.

As lágrimas chegam. Não sei o que fazer. Dói muito, não tenho emprego a oferecer. Partilhei com amigos a história e torço agora, para que os Josés e a Olga encontrem outro lugar. Um lugar onde os sonhos se tornem possíveis, a humanidade seja reconquistada e finalmente aquela praça e a parede amarela sejam apenas isso e não um lar.

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