Tuesday, October 5, 2010

O erro pode não ser seu

Meu filho nasceu em 2002, desde então tenho enfrentado diversos problemas com relação às suas cracterísticas pessoais. Suas dificuldades. E não é fácil ser mãe de uma criança normalmente “diferente”.

Como assim? Primeiro. Aos 2 anos e seis meses de idade ele apenas falava cinco ou seis palavras, sendo que três delas incorretamente: mamãe, papai, vovó, cao (carro), apu (água) e pae (pare) era tudo que conseguia falar.

Sou o tipo de mãe que antes de decidir ter um filho leu tudo que podia sobre o assunto. Manuais de puericultura, inclusive trazidos dos Estados Unidos, livros de psicologia, incluindo os tipo “manual”. Enfim, pesquisei e decidi que iria dar a meu filho todas as oportunidades que pudesse.

Desde pequeno, pequeno mesmo, ele nem sentava sozinho, tinha livros coloridos e instigantes ao alcance das mãos. E não me incomodava se ele babasse, rasgasse ou destruísse o livro. Queria que ele nutrisse a mesma paixão por ler e aprender que eu.

Não, não era forçado. Apenas deixava ali, ao alcance das mãos e nada mais. Depois passei a ler para ele, sempre. Ele deitava em minha cama e eu lia. Lia e cantava. Éramos cúmplices na busca das palavras.

Ele andou ao fazer um ano. E logo que se soltou de minhas mãos, começou a se aventurar pelas palavras que via nas vtrines das lojas. Ele gostava de tocá-las, sentir sua forma através das mãos. E de repente ele descobriu a letra “A” e sempre que a via repetia o som.

Entretanto o tempo passou e além das famosas seis palavras que falava, mais nenhuma foi acrescentada a seu vocabulário. Cheguei a pensar em problemas auditivos. O teste: pedia a ele coisas difíceis, que implicavam em ouvir e compreender. Por exemplo: “Vá a seu quarto e traga o carrinho que está na gaveta azul.” E ele ia e trazia. Isso mostrava que além de ouvir, compreendia bem o que lhe era pedido.

O pediatra insistia que ele deveria ir para escola. Mas, como disse, li todos os manuais e a maioria aconselhava a ida para escola por volta dos 3 anos. Tinha planejado assim. Enfim, o pediatra e uma fonoaudióloga maluca, acabaram pressionando. Em agosto de 2005, com quase 3 anos, Felipe entrou para escola.

Minha preocupação com a fala era grande, mas a diretora me tranquilizou. “Temos outros alunos assim. Não se preocupe.” Foi um final de ano maravilhoso. Ele parecia adorar a escola e a companhia de outras crianças. No ano seguinte ele continuou na mesma escola.

Infelizmente, uma lei que dizia que a criança precisava estar na escola aos seis anos, criou um enorme problema. Meu filho foi  “colocado” em um grau acima do que deveria estar, tudo por causa de sua idade. E foi aí que o problema começou.

A professora mostrou-se chocada com o fato de ele não falar. Na primeira reunião ela propôs que as crianças iriam “aprender” a contar até mil. Escrever pequenos parágrafos. Fiquei estarrecida e preocupada. Meu filho que iria fazer quatro anos em outubro, não contava até 10. O que diria até mil!

A classe contava com mães extremamente engajadas em criar gênios. Assim, percebi que iria enfrentar um problema. Imediatamente convoquei a diretora da esocla e questionei se ele conseguiria acompanhar a classe. Novamente ouvi “Claro!

Foi um ano difícil. Meu filho começou a se recusar a ir a escola. Estranhei e questionei de novo. Recebi como resposta que tudo estava bem. Era normal essa recusa. Passei aquele ano preocupada e a preocupação se tornou desespero quando, em novembro de 2006, a professora em uma conversa informal na saída disse “Seu filho tem questões de escrita.

Apavorada. Foi assim que fiquei. Ele, aos quatro anos, que acabara de completar, tinha questões de escrita. Inclusive ele foi submetido a uma pequena “prova” de matemática, do tipo: “Existem cinco duendes e depois chegam mais dois. Quanto duendes temos?” Prova escrita!

Fiquei chocada. Nessa época meu filho fazia acompanhamento fonoaudiológico e eu descobrira qual sua questão com a fala. Existe 3% da população mundial que tem dificuldades em aprender o idoma materno. Ele se enquadrava nesses 3%. A fono foi extremamente receptiva e em poucos meses ele começou a falar mais e mais. Ficou fascinado com o poder de se comunicar, e como esse poder o  deixava aberto a inúmeras possibilidades e esforçava-se mais e mais para conseguir. Foram quase quatro anos de fonoaudiologia.

No ano seguinte, ele encontrou uma professora disposta a se empenhar e desfazer os nós que a anterior havia dado no aprendizado dele. Andrea foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Pouco a pouco ele começou a escrever novamente as letras, interessar-se por elas. Foi fascinante observar o despertar de sua curiosidade pelas palavras.

Como o próximo ano seria dedicado a alfabetização, decidi que estava na hora de trocar de escola. Escolhi uma na qual me senti confortável e ele pareceu gostar também. A diretora era empolgada, participativa e aberta. Perfeito.

Novamente começaram os problemas. Agora foi com a alfabetização. Ele terminou seu “Year 1”, o equivalente ao pré, sendo pré-silábico, enquanto seus colegas era todos silábicos. So que ele tinha 5 anos, 6 só em outubro.

Chegamos ao “Year 2”, antigo primeiro ano. Novamente duas profissionais extremamente competentes cairam na vida dele. Com apoio, esforço e compreensão ele foi indo, meio que deslizando. No entando questões como qualidade da letra e certo temor em enfrentar situações e “testes” fizeram com que eu procurasse uma terapeuta.

Iniciamos o tratamento em agosto de 2009. Ele apresentou rápida melhora comportamental. Começou a soltar-se e ser mais impositivo em seus desejos. Entratanto, em nenhum momento essa profissional disse qual o diagnóstico para ele.

Seus comentários eram sempre vagos: problemas emocionais, provavelmente por algum truama quando era mais jovem. Pedimos que ela mantivesse um contato frequente com a escola e conscoco. Ela concordou que deveriamos nos falar de dois em dois meses.

Entretanto, isso não só não ocorreu, como ela começou a tratar de outros assuntos. Interessar-se por mim e meu perfil psicológico, a ponto de não ter horário para reunir-se comigo e o pai para falarmos de nosso filho, ou sequer ir a escola. Contentava-se com telefonemas. Só que para me atender como paciente sempre arrumava um tempo.

Estranhei a posição dela. E comecei a observar melhor o que acontecia com meu filho. Ele piorava a cada dia. Só recebia reclamações da escola. Letra ruim, ele não sse esforça.

Em 2010, meu filho fazia terapia duas vezes por semana. Tinha aula partucular uma vez por semana. Frequentava o judô e futebol duas vezes por semana e trazia lição de casa todos os dias. Detalhe significativo: ele estuda em uma escola em período semi-integral. Entra às 8 horas e sai as 15 horas e trinta minutos.

A cada reunião que tínhamos na escola, mais frustrados ficávamos. Não compreendíamos porque a terapeuta dizia que ele era genial, com uma idade congnitiva de criança de 9 anos e meio e na escola diziam que ele não iria conseguir.

Finalmente, em uma reunião que o pai dele foi, a coordenadora abriu o jogo. Disse que nosso filho não tinha condições de passar de ano, segundo orientações da terapeuta. Um estranho comportamento para uma profissional que dizia que meu filho era genial, que apenas tinha um “probleminha” de 20% que seria resolvido rápidamente. Uma profissional que se reuniu conosco e com a escola apenas duas vezes em um ano e, quando pedimos para uma reunião conjunta ela simplesmente disse que não ia.

E assim foi. Perdida, sem apoio, percebendo que a escola também encontrava-se perdida praticamente gritamos por ajuda. A diretora, mulher inteligente e experiente sugeriu que procurássemos um neurologista. Ela não acreditava que o tratamento que estava sendo dado fosse o adequado. Questionou se haviamos investigado a possibilidade de um problema físico.

Enfim. Hoje, 5 de outubro, 11 dias antes de meu filho completar 8 anos, tivemos um diagnóstico. Ele não tem problemas neurológicos, nem cognitivos. Aliás segundo o médico é uma criança extremamente inteligente, doce e sensível. Ele sofre um bloqueio seletivo causado por algum trauma anterior que o impede de desejar expressar-se através das palavras, sejam escritas ou faladas. Ele também apresenta quadro fóbico, está começando a transferir esse bloqueio para outras matérias.

Enfim, algo que aconteceu em 2006, causado por uma professora incompetente que achou que podia “alfabetizar” alunos de quatro anos. Que deixava meus filho sem “pátio”, ou seja recreio, para fazê-lo escrever e escrever. Que deixava em evidência sua “deficiência”, pelo menos ela achava que era, na frente de todos os colegas, levando-o a ser taxado de “burro” por eles. Ela deixou uma marca tão profunda em meu filho que só agora conseguimos compreender e vamos tentar com ajuda de profissionais e possívelmente da escola resolver.

Dói demais a uma mãe que entrega seu filho a pedagogos que se dizem preparados, a coordenadores que se dizem atentos e a escola que lhe vende o paraíso e a perfeitção e depois o que você colhe é algo que nem sequer sabe por onde começar a resolver.

Por isso digo. Nem sempre seu filho é o culpado pelo seu mau desempenho. Nem semrpe você é o culpado. Fiz tudo que todos os profissionais com os quais me relacionei pediram. Tudo, inclusive punir meu filho inúmeras vezes.

Estou escrevendo este texto. Longo e que provavelmente poucos lerão. Mas quero alertar para as portas de classe fechadas, onde o sonho que lhe vendem nem sempre acontece. Que cada profissional que entre na vida de seu filho seja olhado com respeito, mas que se em algum momento você perceber que algo está errado, não pense que é somente sua culpa ou de seu filho. O problema pode estar em vários lugares, inclusive na escola, no terapeuta, no médico. Não tenha medo que questionar e procurar outras respostas. Algumas vezes você pode se surpreender com o que descobre.

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