Friday, October 8, 2010

Metamorfose


Rafael (@InVerbis), amigo do twitter, leu um de meus textos escritos há algum tempo. Nele falo de uma personagem histórica, uma sultana otomana: Hürrem. Após lê-lo e suportar meus questionamentos, ele indagou: “Você se identifica com ela, não?

Curiosa a pergunta. A resposta foi imediata: “Sim.” Eu realmente me identifico com ela. Com ela e qualquer ser humano que consiga transformar adversidade em possibilidades. Possibilidades em realizações. Foi para ela que escrevi o texto abaixo. Sua metamorfose parece com a minha. Sua coragem e determinação equivalem a que tive que ter para estar aqui. Sim, de certa forma eu sou Hürrem.

Enjoy

“Estou perdida. Escondia no escuro de algum lugar. O lugar que sempre venho procurar quando preciso me encontrar, foi onde me perdi. Levada por mãos estranhas, arrastada à lugares desconhecidos. Meus olhos se fecharam, ouvidos não compreendiam. Pouco a pouco me habituei e passei a observar.

Florestas, caminhos impossíveis. Cidades estranhas, com vidas confusas. A meu lado muitos, alguns resignados, outros indignados e muitos assustados. As mulheres contorcem seus corpos, as crianças choram. Homens tentam lutar, enfrentar, desvencilhar-se. Impossível. Existe algo mais que correntes, cordas, a prisão. Existe submissão ali. Implícita no olhar de quem nos leva, nos possui.

E sigo pensando. Abstraindo a mente dos sons. Levando o corpo a esquecer as marcas e as dores. Pensando que nunca mais verei aquelas terras, que jamais serei amada de novo. Olho calmamente para o verde que se afastava. Sinto o vento suave em meus cabelos, carícia estranha para alguém que não a experimentara nunca.

O mar se agita à nossa passagem, como sabendo o que vai ali, dentro daquela embalagem de madeira, daquele baú onde a dor e o sofrimento são as jóias que ornamentarão coroas, a esperança de alguns e o fim de muitos. O mar sempre me encantou, suas águas têm o mesmo sabor das que derrubo agora. Meu coração explode em ondas que agitam as águas de meu olhar.

Nastacia começa a desvanescer. Meu lar foi primeiro. Agora meu nome. Nunca mais será pronunciado. Esquecido no fundo de um casebre à beira da floresta. Perdido na memória de um velho. Finalmente enterrado, esquecido.

O brilho do novo ser, quem me tornarei invade. Não temo. Enfrentei tudo até agora. Tenho um plano, desejo e sei que serei capaz de cumprí-lo. Levanto os olhos escuros, úmidos como as fontes que me cercam. Caminho sozinha em busca de espaço. Qual seria meu lugar? Onde estaria a resposta para a pergunta: “Quem sou agora?

Percorrendo corredores. Pátios ensolarados. Avisto o mar. Azul, completamente calmo. Meu coração também se acalmou, aquele lugar é meu e sei que posso conquistá-lo. Possuir cada olhar, cada pensamento.

Me viro e quem me olha é aquele que me escolheu. Ele sabe quem sou. Compreende minhas necessidades e anseios. Ele me completa como as areias e rochas na praia completam o mar. Ele me tem, como as muralhas que guardam nossa cidade. Eu agora tenho um novo lar. Do outro lado do mar. Chorei por Nastacia, vivo por Hürrem, foi nela que me transformei.

2 comments:

  1. Quem somos?, para que existimos?, para onde vamos?. Perguntas profundas, sonhos profanos, desejos sinceros.
    Com o tempo mudamos, viramos casulos, viramos mutantes.

    Parabéns pelo texto

    MarquesK

    Só o Rock Alivia

    ReplyDelete