Thursday, October 28, 2010

Fatma

Quero falar de Fatma. Ela nasceu como a quinta filha de uma família de comerciantes em Teerã. Seus irmãos e irmãs ficaram surpresos com sua chegada. A mãe passara dos 50 anos há algum tempo. Assim, Fatma foi vista como o desejo de Deus sendo cumprido.

O irmão mais velho de Fatma, Asif, se casara há três anos com Adma e tinham um filho: Asim. Desta forma Fatma nascia tia.

A vida na família seguia seu curso. Os homens cuidavam da pequena loja de artigos diversos todas as manhãs. As mulheres se ocupavam com os deveres de casa e as crianças. Os mais jovens brincavam na rua ou iam às escolas, principalmente os meninos. A maioria das famílias não enviava meninas para o estudo. Não viam necessidade ou motivo para isso.

O tempo passou. Fatma cresceu E além de sua beleza: cabelos negros compridos, olhos cor de mel e um sorriso maravilhosamente aberto, algo incomum naquela cidade, ela possuía um espírito inquieto.

Sua inquietude a acompanhou durante toda infância. Inúmeras foram as vezes que foi punida por atrasar-se para as orações ou alguma outra tarefa. Na adolescências as punições se intensificaram, por esquecer de se manter em respeitosa inferioridade diante dos homens de sua família.

Fatma, sua curiosidade e anseios foram companheiros desde cedo. Assim, mesmo não frequentando a escola, ela aprendeu a ler e escrever. E mais, começou a ler escondido, tudo que podia.

Seus irmãos tinham acesso à Internet, mesmo que de forma restrita. Quando não estavam em casa, Fatma sorrateiramente aproveitava para navegar. Desta forma, além de aprender a ler em seu idioma, persa, começou a aprender inglês.

O cuidado com que escondeu sua nova habilidade garantiu, por muito tempo seu acesso ao computador. Caso sua família tivesse descoberto, certamente ela teria sido castigada e depois afastada definitivamente daquela máquina.

Foi através daquela “máquina”, acessível apenas aos homens, que Fatma descobriu T. S. Elliot, Voltaire, Jane Austen, Emerson e tantos outros. Ali ela viu imagens de Paris, Roma, Londres e leu sobre a história das civilizações antigas.

A Internet que lheu acesso a literatura, outros mundos e a notícias, filmes e histórias que sequer imaginava existir.

Durante dois anos Fatma conviveu com seu segredo. Um segredo tão precioso quanto a própria vida. Manteve todas suas descobertas, dúvidas e anseios bem controlados. Era como ter uma vida dupla. Na realidade, nos momentos em que estava afastada do computador, se comportava como todas as mulheres de sua casa. Por duas horas, entretanto, abandonava todas as restrições e controle. Invadia outro mundo.

O inesperado era seu companheiro fiel. Certo dia, saindo de casa, vestida na forma tradicional, com a burka, tendo a mostra apenas os lindos olhos cor de mel. Ela acompanhava respeitosamente sua família à mesquita.

No momento exato em que chegaram ao templo, um incidente: ela tropeça e cai. Um rapaz percebe, entretanto nada pode fazer. Apenas observar. Fatma é ajudada pelas mulheres.

Tariq é médico. Naquele instante ele é apenas um homem que não pode tocar aquela mulher.

Fatma levanta-se e os olhos se cruzam. Despudoradamente ela sustenta o olhar, para horror e surpresa de seus familiares. Imediatamente é empurrada sob impercações e agressões em direção ao templo.

Aquele foi um dia difícil na vida de Fatma. Ao retornar a casa foi brutalmente espancada por seu irmão mais velho. Objetivo de tal agressão: colocar juízo e ensinar que comportamentos lascivos não serião permitidos naquela família.

Fatma ficou cinco dias na cama como resultado dos ferimentos que lhe foram impostos. Cinco dias que não pode sair da realidade e entrar em seu lugar de sonhos.

Durante esse tempo teve febre, delírios e outros sintomas que a levaram ao hospital. Foi atendida por uma médica que receitou remédios e lhe deu um conselho: “Obedeça.”

Quando saia do hospital encontrou-se frente a frente com Tariq. Desta vez manteve os olhos baixos, mesmo que seu interior queimasse de vontade de observar aqueles olhos novamente.

Por dois meses Fatma sonhou com ele. Acordada, dormindo, durante às refeições, tarefas e até orações. Era o rosto de Tariq que via. Nele que pensava.

Certo dia teve uma idéia. Encontrou algumas roupas de seu irmão Ahmed e quando todos estavam atarefados, transfigurou-se, um menino é o que ela parecia. Saiu sem rumo, mas seu coração a levou às imediações do hospital.
Ficou parada, olhando, imaginando se ele estaria ali. Depois de meia hora retornou à casa.

Durante um ano, pelo menos uma vez por semana, Fatma vestia-se de “menino” e saia por Teerã. Observava tudo que podia.

Finalmente, em meados de 2005, o que estava destinado aconteceu. Ela viu Tariq saindo do hospital e ficou observando-o. Ele se dirigu exatamente para onde ela estava. Assim, os olhos se cruzaram.

O reconhecimento foi imediato e a supresa por ele demonstrada pelos trajes que ela usava a fizeram sorrir. Aquele sorriso franco, aberto, inocente, desperta um sentimento em Tariq. Desconhecido sentimento. Ele mistura desejo, posse com a vontade de cuidar e proteger.

Eles tiveram então, sua primeira longa conversa enquanto caminhavam. Ele descobriu tudo sobre ela. Contou a ela o que sabia sobre si mesmo. Ela falou de suas aventuras por Teerã e de seu contato com o mundo fora dali. Os livros que lera, os filmes que assisitra. Tudo que aprendera naqueles três anos que vivera uma vida dupla.

Desde esse encontro eles passaram a conversar uma ou duas vezes por semana. Andando por lugares. Visitando doentes. Fatma tornou-se uma espécie de auxiliar em suas visitas de caridade.

Foram seis meses onde o companheirismo, similaridade intelectual e acima de tudo o carinho, trasnformou-se em algo mais complexo: surgiu entre eles o amor. Amor profundo, inspirador e disposto a enfrentar tudo. E assim seria.

Uma tarde quente de quarta-feira, Fatma espera que as mulheres se ocupem com as crianças e foge disfarçada de menino para seu encontro com Tariq.

Quando está na porta do hospital conversando com ele, prontos a seguirem para a caminhada habitual. Seu irmão mais velho, Asif, passa e a vê. Mesmo com o disfarce ele a reconhece. Sem pensar duas vezes, ele a arrasta pelos cabelos através das ruas de Teerã. Tariq tenta interceder, é impedido. O máximo que consegue é seguí-los a distância, observando com medo e dor o tratamento que Fatma recebe do irmão.

Fatma chega em casa sangrando, girtando de dor. Seu corpo está arranhado, esfolado e começando a ter mais partes arroxeadas que claras. As mulheres tentam ajudá-la, Asif impede. Ele e os outros a arrastam para o quarto e continuam a espancá-la.

Neste momento o pai deles chega. Ao ouvir tamanha confusão, dirige-se imediatamente ao quarto. Asif conta a ele toda a história. O uso do computador, o disfarce, as conversas com o médico. O pai ouve em silêncio. As mulheres choram no comodo vizinho. As crianças são levadas para o fundo da casa.

Agora é o silêncio. O som desse silêncio é dolorido, traz dor, medo, humilhação e indignação misturados. Silêncio que atordoa. O início da decisão que deverá ser tomada.

Do lado de fora Tariq pensa no que poderia fazer por Fatma. Não vê saída para o que está acontecendo. Imagina que no dia seguinte, ela será levada ao hospital e, mesmo à distância, poderá vê-la e quem sabe ajudar.

Tariq percebe o silêncio. Tranquilo, ele agora está mais tranquilo, finalmente pararam de espancá-la. E então, naquele silêncio, ele ouve um único grito. Um som que ficará impregnado nele. E depois o silêncio novamente.

A porta da casa se abre e algo é atirado à sarjeta. Ele olha e não reconhece de imediato. Não acredita que aquilo seja real. O quadro é grotesco. Não é humano. Impossível.


Na beira da rua, num subúrbio de Teerã, jogada como um cão, o corpo de Fatma. Desfigurada. Toda a vida, sonhos e desejos daquele ser humano escorriam pela rua. Pouco a pouco ela se misturava à terra, às pedras. Ela deixa de ser um e passava a ser tudo e todos.

Tariq não sabe se sente dor ou medo. Tristeza ou resignação. Ele pensa que nada justifica o ato, imaginou que se fosse com sua irmã não seria da mesma forma.

Parado na porta o pai de Fatma o encara. O que vê nos olhos daquele homem é vergonha, humilhação e ódio.

Fatma tinha sido um milagre e agora seria esquecida. Sua vida vibrante, colorida, cheia de sonhos desapareceria da paisagem. Fatma não existiria mais, nunca existira.

2 comments:

  1. Linda história... e muito comovente!!

    Beijos!!!!

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  2. Nunca fui pra Irã. Mas li sobre Irã. Se aquelas pessoas estão vivendo assim, que pena, que tristeza. Não tem nada pra dizer. Só minhas lágrimas pode aguar aquela terra. Só meu coração pode doer... Mas nunca vou entender eles. Eu sou muçulmano mas não conheci religião deles: Qual é? Este não é Islã. Nunca vou entender. Nunca...

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