Sunday, October 31, 2010

Ela

Estou sozinho. Ela me perguntou por quê?,  não quis responder. Disse apenas que estava só como sempre. Dentro de meu quarto, olhando pela janela, a noite estava fria, apesar do céu estrelado. Observava com curiosidade o caminho que  a fumaça do cigarro tomaria.

A pergunta dela me fez pensar. Sozinho por querer? Sozinho por não ter?

Ela me definiu como sólido, frio e rude. Disse que sou assim mesmo. Sentimentos para mim são perda de tempo, “coisas” que fazem sofrer e em nada ajudam no cotidiano. Assim, não me envolvo nem me preocupo com isso. Sigo em frente, de relação em relação. Apenas satisfação do corpo que anseia por ser usado.

Quando a conheci,  há algum tempo, fazia tempo demais que não tocava uma pele macia ou beijava lábios doces. O olhar que ela deu disse que também ansiava por mais, queria ser tocada, possuída e aceitei o desafio. Seria interessante provar alguém como ela. Experiência diferente. E claro, havia o desafio de convencê-la.

Ela aceitou. Não sem antes tentar justificar o medo que podia ver no olhar. Um medo misturado com desejo e anseio. Medo que parecia dizer, quero muito esse desejo, mas por que eu?

Provei dela de todas as formas. Parecia que me pertencia, pois nada negava. Ela deixou experimentar cada pedaço, realizar cada fantasia e sabia que eu precisava do seu silêncio, do seu corpo e nada mais. Ela deitou a meu lado e velou meu sono. Foi dela o sorriso que recebi pela manhã.

Não cobrou nada. Não fez perguntas. Simplesmente foi embora e regressou. E mais uma noite ela me deixou percorrer seus mistérios, deixou que usasse seu corpo e nele descobrisse alguns segredos meus. Desta vez ela descansou. Dormiu a meu lado e me acordou com um beijo e um abraço perdida nos braços meus. Outra vez desejei estar nela mais uma vez.

E assim continuou, mais uma noite e mais uma. Enfim ela se foi. Fiquei pensando naquele gosto, no que fiz com ela e descobri que algo se modificou.

Entretanto aceito o que a vida dá. A distância se impôs e pensei:  acabou.

Mas conseguimos conversar, voltar a falar e trocar. Era estranho como era fácil com ela ali ficar. Num mundo irreal, onde a imaginação predomina, mas para nós a realidade do passado se impunha e transformava nossa rotina.

Um dia perguntei: “Será que um dia, ainda neste século, nos encontraremos de novo?” Ela disse sim, que iria me encontrar em breve, foi uma surpresa. Algo aconteceu, passei a perceber um jeito novo em meu corpo, ansiedade e expectativa, desejo e medo.

E conversávamos de vez em quando. Ela dizendo o quanto sentia saudade e eu falando que também. Contando meu dia a dia, falando da cidade e do clima, tentando não me envolver.

Ela era franca. Sempre dizia o que sentia. E um dia falou de amor. Não me questionou, sequer perguntou, apenas disse que me amava e aquele som ficou.

Amar? O que era isso? Estranho sentimento que não compreendia. E a cada conversa percebia que ela cuidava para não falar. Dos sentimentos que  a invadiam dos sonhos e desejos que a tomavam em cada nosso conversar.

Essa mulher era estranha. Decidida, forte e ao mesmo tempo frágil, romântica. Uma mulher diferente das que conhecia e convivia, alguém que eu precisava reencontrar. E um dia, em que a chuva corria e o frio me invadia, ela disse: “Senti sua falta hoje. O céu estava azul demais e fiquei a desejar você aqui comigo, debaixo deste adorável céu.

Pela primeira vez meu coração se acelerou. E a ela falei o quanto aprecio o que diz, que mesmo sentindo-me indiferente ao amor, o dela me fazia bem. Ela nada disse, apenas continuou a conversar, com medo de me ferir voltou ao tom frio do dizer.

Fiquei triste, queria mais, mas ela não é de se controlar, disse que me amava, exatamente como era, e que sabia qual era seu lugar.

Como ela poderia saber? Se nem eu sei o que representa para mim. Na última conversa sem querer, sem pensar ou analisar disse que ela significava muito.

E ai fugi. Me escondi. Fiquei com medo desse sentir. Sei que ela está só e eu aqui também, mas não sei se quero essa mulher invadindo, se apoderando e possuindo o que tem em mim.

3 comments:

  1. Mais uma vez, inspirada como sempre, parabéns, lindo texto!

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  2. Lindo e profundo como tudo que escreves, pois vem de sua alma! É única, pois rasgas o peito e se mostra inteira, viceral, sem pudores e com medos que na verdade acirram o desejo ser cada ve mais MULHER! Uma mulher especial! Que a cada vez mais quero e quero nos meus braços, as vezes adormecida e outras, muitas vezes arfante de paixão!

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  3. "Essa mulher era estranha. Decidida, forte e ao mesmo tempo frágil, suave, romântica. Uma mulher diferente das que conhecia e convivia, alguém que eu precisava encontrar. E um dia, em que a chuva corria e o frio me invadia, ela disse: “Senti sua falta hoje. O céu estava azul demais e fiquei a desejar você aqui comigo, debaixo deste adorável céu.” Sinto tb sua falta!

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