Sunday, September 5, 2010

Três

Ali, deitada na cama ela pensava: "por que eu?" Como algo tão terrivelmente imprevisível. Decididamente injusto. Cruelmente triste. Poderia ter acontecido com ela.

Quem era ela para merecer algo assim?

Desde sua adolescência sonhara com esse momento. O momento em que Danielle ou Caroline ou Gabriel, embora o nome não importasse, entrasse em sua vida. Planejara como toda adolescente. Sonhara muito.

Sentia como se tivesse nascido para o papel. Não que fosse o único. Era uma pessoa cheia de vida demais para contentar-se com um único ato, uma única fala. Tinha tudo organizado. No tempo e espaço. Na mente e no coração.

Assim, foi crescendo e implementando. Um pouco de cada vez, com ânsia e desejo. Sem medo ou limites. Cada sucesso tinha um custo, cada derrota ensinava alguma coisa. Os papéis que se destinara tiveram sucesso: profissional, companheira, agitadora e modificadora. Enfim, boa parte de seus planos se tornara realidade.

Faltava um, apenas um pedaço pequeno dos sonhos que tivera. Pequeno, mas muito importante. Ela queria conhecer e saber como era ser o ser mais importante na vida de alguém. Ter alguém que, por algum tempo, dependesse exclusivamente dela.

Como em tudo, investiu seu tempo e suas energias. Não foi nada fácil. Ao contrário, foram muitas barreiras a serem vencidas, muitas dores sentidas. Mágoas e medos a serem trabalhados.

Ela tinha o dom de conseguir e conseguiu. A noticia a encheu de alegria. Ficou cheia de esperança e deliciosamente cativada pelo que estava lhe acontecendo. Apesar das negativas ao redor. Dos semblantes contrariados. De tudo de ruim que lhe disseram. Ela prosseguiu, disposta a sacrificar tudo por seu objetivo.

Foram 4 meses ausente. Presa em um quarto, sozinha muitas vezes, mas nunca solitária. E quando sentiu pela primeira vez, aquelas vidas se comunicando, dizendo de forma veemente que estavam ali. Não foram lágrimas que derramou e sim um sorriso que escancarou.

E todos os dias os quatro conversavam. Falavam, cada um de seu jeito, de como seria o futuro. O que viveriam juntos. Como seria mágico compartilhar este mundo. Mesmo turbulento, virulento, indeciso. O importante é que seriam eles e ela.

Seis meses de convivência. Ela imaginava seus rostos. O choro. O tom da voz. Pensava nas brincadeiras e diversões. No trabalho e esforço que ficarem juntos poderia significar. Que nada, ela não duvidava, tinha capacidade para enfrentar o mundo e muito mais.

De repente algo aconteceu. Dor, profunda, inexplicável. Sangue e incompreensão. De nada adiantou a tecnologia, indisponível para ela. Pouco adiantou sua força e coragem, pedindo para que fosse feito o que fosse necessário.

Na madrugada de 23 de dezembro o sonho acabou. Eles foram separados para sempre. E o buraco que ficou era impossível de explicar ou descrever. Ela ficou ali parada. Sentada na cama. Tentando entender. Sozinha.

Depois de tanto tempo. De tantas dores. Ela compreendeu o que era a solidão. Solidão não é estar sem ninguém. Solidão é perder o sonho. Vê-lo sair de você. Um a um. Não ter esperança de recuperá-lo.

Naquele 24 de dezembro. Quando ela deixou o hospital. Algo tinha se rompido dentro dela. Algo que demoraria muitos anos para compreender. Foi o começo da recriação daquela mulher. A estrada foi difícil. Complicada. Cheia de vales e montanhas. Mas ela conseguiu.

No entanto, em nenhum momento, aqueles seis meses que viveram juntos foi esquecido. É presente até hoje. E mesmo tendo um, ela sabe que foi alguém para mais três.

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